Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa (Foto de Cristiano Cangussu/divulgação)

Criador do roteiro da graphic novel Kardec, publicada em 2011 pela editora Barba Negra/LeYa, Carlos Ferreira, conversou com o Impulso HQ sobre a produção do álbum, que segundo informações do próprio roteirista, é maior sucesso de venda da editora.

Realizado em parceria com Rodrigo Rosa, que atualmente vive em Barcelona, o roteirista agnóstico, fala ao Impulso HQ o que o motivou a escrever sobre Kardec, como foi o seu processo de pesquisa e criação, o retorno dos leitores sobre a obra e os planos para a continuação da graphic novel. Confira:

Impulso HQ: Por que produzir uma HQ sobre Allan Kardec?
Carlos Ferreira:
Busquei antes de contar uma HQ sobre Allan Kardec uma história sobre o século XIX. Algo como um grão ou semente de ideias com teor de realismo fantástico, um fato impactante ou gênese do século XX e XXI. A história de como H. L. D. Rivail se transforma em Kardec tem este tom.

IHQ: Qual foi e quanto durou o processo de pesquisa para a graphic novel?
C.F.:
O meu processo criativo não é tão direto ou objetivo nos seus primeiros momentos quando aquela ideia fica orbitando dentro da minha cabeça. Não foi diferente com o Kardec. A maioria das minhas ideias nascem quando leio um texto, ou assisto aos filmes, programas de tevê ou em um diálogo com amigos.

Gosto de temas históricos. O Kardec nasceu quando assisti o documentário Crumb. A semente foi plantada com a obsessão de Charles Crumb (irmão do Robert Crumb) pelo século XIX. Primeiro foi processo de pesquisar assuntos de rupturas de ideias, conceitos, pensamentos e estéticas do XIX com o que veio depois.

Este processo durou um tempo orgânico até maturar nas pesquisas sobre Kardec e vir o texto de argumento ou o primeiro tratamento de roteiro. Acho que uns 10 anos. Quando eu tive a certeza que eu escreveria o roteiro de Kardec li muitos livros sobre o espiritismo, sobre os celtas, sobre os romanos e ocultismo. E isto durou uns três anos.

IHQ: Para entender todo o processo e ambientação vocês chegaram a fazer pesquisa de campo como ir a alguma sessão espírita? Se sim, o que essa experiência ajudou?
C.F.:
Não. Eu não fui em sessões espíritas para fazer o livro, o Rodrigo também não foi. Mas já tivemos este tipo de experiência antes de produzir o livro. O Rodrigo é de uma família espírita e eu sou de uma família que é de diversas correntes religiosas.

IHQ: Por que vocês decidiram abordar o espiritismo no momento em que Rivail decide ser Allan Kardec?
C.F.:
Eu considero este momento, a origem, é um dos momentos mais interessantes da história não só espírita, mas do século XIX. O que aconteceu sobre as mesas girantes tem muito a ver com um contexto de transição de ideias e formas de ver o mundo. O materialismo e a decadência da religião Católica, a Origem das Espécies do Darwin, e os avanços tecnológicos sacudiram o mundo do século XIX. Essas são algumas referências de mudanças que diretamente ou não se reflete em Kardec.

IHQ: Há algo que vocês descobriram durante a pesquisa que vocês optaram em deixar fora do álbum? Por quê?
C.F.:
Tudo o que acontece depois que Rivail descobre sobre Kardec foi deixado de fora do livro porque tenho a pretensão de escrever uma trilogia. Nos próximos textos vamos mergulhar nas profundezas dos fatos que sucederam a origem do Kardec. A minha ideia para o segundo livro é a gênese da criação do Livro dos Espíritos e as consequências na época.

IHQ: Com as diversas obras já publicadas sobre o assunto, teve algo que vocês tentaram evitar para não produzir o mais do mesmo?
C.F.:
Fugimos do lugar da atmosfera “doutrina”. Não temos a pretensão, ou o desejo de doutrinar. Não é nosso objetivo. Queremos abordar os fatos históricos. Mostrar o mundo daquela época e como o espiritismo se encaixa nele.

IHQ: Haveria a possibilidade de mais um álbum sobre Kardec e o espiritismo?
C.F.:
Sim. Quero muito continuar e já escrevo outros projetos relacionados.

IHQ: Vocês já tiveram algum retorno sobre a publicação em relação aos leitores?
C.F.:
Sabemos que o livro está vendendo muito bem e é o maior sucesso de venda da editora Barba Negra. Kardec é considerado uma experiência nova de leitura por juntar dois públicos, os dos quadrinhos e espíritas.
Na minha opinião há uma resistência por parte dos leitores dos quadrinhos que ainda não leram. Há um preconceito de achar que queremos doutrinar. Não é o caso. É uma biografia. A nossa intenção é contar uma boa história.

IHQ: No álbum percebe-se que em alguns momentos vocês decidiram explorar algumas experiências gráficas. Da onde surgiu essa ideia?
C.F.:
O formato de roteiro que escrevo flerta com o cinema. Escrevo como filmo. É minha marca. A narrativa para mim é tudo. Criar o silêncio das cenas e depois rechear com os diálogos. O Rodrigo e eu temos claro que o contar é tão importante quanto o argumento ou os desenhos. Daí partirmos para o nosso confronto criativo, como dois universos somados. Temos muitas buscas próximas. Eu chego no texto com ideias de narrativas complexas como o giro do livro e ele criativamente traduz isto nos seus traços.

IHQ: E para o futuro? Qual é o próximo projeto?
C.F.:
Estou com duas novas adaptações da literatura para os quadrinhos. Crime e Castigo e O Castelo para a editora Nova Fronteira. Sou o roteirista e desenhista. Eu também estou com A Guerra de Palmares com os desenhos de Moacir Martins. E com o álbum 2 do Kardec.
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Não deixe de conferir a resenha HQB sobre a graphic novel, clicando aqui.

Renato LebeauentrevistasBarba Negra,Carlos Ferreira,Kardec,Leya,Rodrigo RosaCarlos Ferreira e Rodrigo Rosa (Foto de Cristiano Cangussu/divulgação) Criador do roteiro da graphic novel Kardec, publicada em 2011 pela editora Barba Negra/LeYa, Carlos Ferreira, conversou com o Impulso HQ sobre a produção do álbum, que segundo informações do próprio roteirista, é maior sucesso de venda da editora. Realizado em...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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