Texto de Rod Gonzalez

Hoje trago uma entrevista inédita com o pesquisador Athos Eichler Cardoso focada no quadrinho nacional destacando a sua importância histórica. Eichler tem uma grande ligação com os quadrinhos d’O TICO TICO e os da Época de Ouro no Brasil e no mundo entre 1934-1945. Além de ser conhecedor sobre quadrinhos brasileiros, franceses, italianos e americanos, Eichler se define como um Repórter Esso (um informativo da década de 1940 que interrompia qualquer programa para dar notícias urgentes), ou seja, uma testemunha ocular da história das HQs.

Rod Gonzalez: Nunca ninguém antes trouxe tantas informações sobre as HQs brasileiras quanto o senhor. Podemos começar falando um pouco da sua vida e como surgiu seu interesse pelos quadrinhos?
Athos Eichler:
Vou fazer 80 anos em julho. Sou canceriano o que já explica alguma coisa. Nasci em 1934, um ano simbólico para HQ no Brasil e mesmo no mundo, pois King Syndicate entrou na Europa e no Brasil com o Aizen. Ele cria o Suplemento Infantil que, logo depois, devido ao sucesso se transforma em Suplemento Juvenil.

Aprendi a ler com seis sete ano de idade. O Brasil naquela época não era tão imbecil como hoje quando se discute ainda qual a melhor idade para aprender a ler. Aprendi na cartilha de João de Deus: B, a, ba-bá. B,i, bi-bí.

Eu vivi a época de ouro dos quadrinhos no Brasil! 1940-1945. Quatro revistas que saiam, no Rio, três vezes por semana. Creio que foi um fato inédito no mundo. As HQ eram em continuação. Preto e branco. As páginas centrais coloridas com grandes pranchas de Tarzan, Jim das Selva (uma tira) e logo abaixo Flash Gordon desenhadas por Alex Raymond. Você não precisava saber ler para sacar a história…

Havia também as do cowboy Bronco Piller com desenhos fabulosos. Uma seta assinalava os quadros mais realistas com belas paisagens do oeste americano com um aviso: recorte para o seu álbum.

Todos, meninos,meninas, adolescentes, adultos, liam as revistas de quadrinhos. Claro, cada idade tem a sua Época de Ouro, mas como aquela é muito difícil ressurgir.

Aquela história de campanha contrária as HQ é meio exagerada. Havia uma grande propaganda das revistas em quadrinhos nos jornais da época. E as capas coloridas das próprias revistas nos estandes dos jornaleiros valiam por cartazes.

Fora as tri-semanais começaram os comics books Gibi, Globo Juvenil, Suplemento Juvenil, Mirim quinzenais ou mensais com os super heróis nos quadradinhos sem essa coisa de videogame e com roteiros interessantes.

Rod Gonzalez: Mas o senhor lia só quadrinhos?
A.E.:
Não. O meu primeiro livro de aventuras foi “As Aventuras do Avião Vermelho” de Érico Veríssimo. Quando eu li “Tarzan e o Império Perdido”, o primeiro livro sem figuras, nunca mais parei de ler. Na década de 1940 havia várias coleções de aventura e detetive. Desde Winnetou, o chefe dos Apaches, até as ficções científicas do H.G.Wells, passando pelo Dr.Fu Manchu, Jimmy Dale, O Arqueiro Verde.

Depois eu passei para os X-9, Contos Magazine, com a nata traduzida dos pulps americanos que eu denominei de “revistas de emoção”. Depois, claro, fui passando para outros escritores mais sérios, mas com ação, como Hemingway, Conrard, etc. Hoje em dia sou fã do Cornwell do Sharpe da Modesty Blaise.

Tenho grandes coleções de fascículos, revistas de emoção, e um acervo pequeno mas, significativo em inglês, francês e italiano de histórias em quadrinhos. Minha memória está fraca. Assim , embora conheça alguma coisa dos desenhistas modernos, o meu foco é anterior a 1950. Dos modernos, não tão modernos, sou admirador do… pronto, esqueci do nome…

Rod Gonzalez: O senhor faz muitas pesquisas específicas sobre assuntos muito desconhecidos e esquecidos da HQ nacional. Quais suas obras de pesquisa já publicadas?
A.E.:
Desde 1999, se não me engano, tenho apresentado trabalhos no Congresso da Intercom, sobre literatura de massa. Quadrinhos brasileiros, fascículos, revistas de emoção, todos ou quase todos publicados na internet. Eu me auto intitulo de “especialista em literatura popular brasileira”.

Modéstia a parte em tenho uma boa noção em conjunto do assunto, nacional e internacional. Eu tenho publicado O que é Aventura, Nho-Quim & Zé Caipora, as primeiras histórias em quadrinhos brasileiras de Angelo Agostini, Juquinha, Giby e Miss Shocking de J.Carlos. E, em edição limitada, Crimes do Rio, Gill Pitta , detetive carioca. Uma coletânea dos contos publicados na década de 1930.

Rod Gonzalez: Você considera Inaia a primeira personagem feminina de HQ de aventuras do mundo, ou seja, a criação brasileira seria a primeira heroína dos quadrinhos mundiais. Fale um pouco dessa personagem e cite as datas que comprovem essa criação pioneira.
A.E.:
A, geralmente considerada, primeira heroína de quadrinhos modernos é a CONNIE, de Frank Goodwin. Aqui no Brasil ela apareceu com outros nomes. Há um álbum dela muito raro publicado junto com os dois primeiros do Fantasma e o Guarany de Acquarone pelo Correio Universal, um suplemento de quadrinhos distribuídos com jornais pelo Brasil.

O Correio Universal criou uma seção infantil, “ALADIN”, e publicou HQs antes do Suplemento Juvenil. Agora estou em dúvida quando apareceu, pois o que está nas minhas mãos são histórias de 1937. A Connie é heroína individual. A protagonista. A Inaiá aparece com o Zé Caipora, mas o papel que ela representa é de uma heroína típica. Ela é mais corajosa e decidida que o Zé. Salva a vida dele três vezes. Depois ela some vira uma mulher caseira. Isso em 1883. Estamos falando de desenhos realistas.

Rod Gonzalez: Em suas pesquisas você chegou a super-heróis brasileiros que seriam pioneiros mundiais, mais uma vez colocando o Brasil no papel protagonista na produção de HQs no mundo. Falo de Oscar, Dr. Alpha e Max Muller. Seria possível descrever peculiaridades desses personagens tão importantes mais ainda obscuros para a maioria dos brasileiros?
A.E.:
São relativamente poucos os heróis realistas no Tico-Tico. Vamos, inicialmente, definir, na minha concepção, um quanto tanto fora de moda, o herói realista. O herói, em princípio, é o cara do bem. Ele luta contra o mal real que pode emanar da ação ou até da presença de outro ser, humano, vegetal ou animal, extra terrestre, produto de laboratório ou da mutação da própria natureza.

O “mal” pode ser um obstáculo que impeça o herói de atingir o seu objetivo. Fenômenos naturais, formações geográficas: terremotos, cataclismas, nevascas, desertos, geleiras, selvas, etc.

O herói dos quadrinhos realistas tem traço REALISTA, ACADÊMICO, RETRATA O SER HUMANO OU O EXTRA TERRESTRE. A HQ realista, reflete a vida na realidade mesmo que seja ficção. Convencional ou científica.

O Nhô-Quim do Agostini eu considero uma personagem realista cômica. Ele é uma espécie de anti herói. O traço é caricatural mas as desventuras que ele vive na cidade são bem reais, ele retrata a vida na época. É a nossa primeira HQ de vários capítulos. O próprio Angelo desenhou outras HQs com desenho realista, como a viagem que ele fez a Santos- SP, de trem, tipo crônica. Outra foi a viagem (imaginária) que Pedro II faz num balão e que é uma crítica bem humorada do Imperador.

Ele desenhou uma história em três capítulos, traço realista, criticando um ministro da sua época. Publicados, de maneira, intercalada, que você nota, que ela serviu de inspiração para a parte de aventura do Zé Caipora. O Ministro que fugia da cidade com medo da peste é perseguido pela morte, ambos a cavalo. Ele se interna na floresta, cai do cavalo, é capturado por índios e salvo por caçadores.

O Zé Caipora, nos capítulos iniciais é cômico. Depois passa para a aventura. Atualmente, nós brasileiros temos uma dificuldade danada para criar heróis. Confundem-se famosos com heróis. O BIAL, tem a coragem de chamar os protagonistas sujeitos a auto humilhações por dinheiro de “heróis”. Xuxa, também é considerada heroína. Os Trapalhões e outros mais. E até o Sergio Malandro!

Voltemos ao passado que é o meu chão…

O DR. ALPHA é uma HQ em quadros. Em painéis. Um em cada edição da revista. Não há uma continuidade de movimento. O texto vem em baixo. Quanto ao roteiro, ela é ficção científica, sem dúvida. E, não conheço nada parecido. Não deve haver nada semelhante. Não em quadros com imagens sequenciais ou isoladas como é o caso da brasileira.

Existe uma história em fascículos, francesa, de Pierre Giffard, escritor do gênero, chamado A Guerra Infernal, que foi publicada no Brasil em 1910. A capa é colorida e apresenta cenas de guerra futurísticas para a época. Desenhos realistas, a cores, do desenhista fabuloso que foi chamado Robida. O criador de Buck Rogers andou “chupando” algumas naves de guerra dele.

Como quase tudo no Tico-Tico a viagem do Dr. Alpha é aproveitada didaticamente para lições de astronomia e física. Um parente do Dr. Alpha descobre um diário que é transcrito no Tico-Tico. A nave do Dr. Alpha é muito parecida com uma desenhada num Heavy Metal que eu tenho na minha coleção, década de 1980, se não me engano.

Quanto ao Planeta Misterioso é uma HQ típica nos padrões de hoje. O jovem cientista brasileiro constrói uma nave e parte para o espaço. Leva um sabotador a bordo. Chega a um planeta desconhecido e trava conhecimento com seus habitantes, desentende-se e volta para terra.

É uma das raras HQs de vários capítulos e uma das pouquíssimas que não são cômicas. A grande maioria é de uma pagina só e ele criou dezenas de personagens. Os mais conhecidos por serem os mais estáveis foram Kaximbow e Barão de Rapapé. Eu não tenho nada do Oscar, se não me engano do Gustavo Barroso (criança).

O Tico-Tico está todo na hemeroteca digital brasileira, o que acabou com o meu monopólio. Não fiquei triste porque, como sabemos, o brasileiro não dá a mínima para os seus heróis e desenhistas e todos precisam conhecê-los. J.Carlos, Storni, Yantok e muitos outros. Seth, por exemplo, escreveu uma paródia do Sherlock Holmes utilizando animais como personagens.

Rod Gonzalez: Fiquei muito decepcionado porque a Biblioteca Nacional não disponibilizou a coleção completa do Tico Tico, faltam exatamente as edições de 1906, ou seja, ficaram de fora as edições que contem a série ANEL MÁGICO onde aparece o herói Oscar. Estou tentando encontrar a republicação dessa HQ em forma de livro que aconteceu com o nome Anel das Maravilhas em 1924, pois tenho muita curiosidade sobre esse trabalho, me falaram que o Gustavo era um ótimo desenhista e que a HQ é de muita qualidade.
A.E.:
O Oscar do Gustavo Barroso não consta na hemeroteca porque o volume foi roubado da BN antes da digitalização. Aliás, rouba-se tudo no BRASIL! Você viu, a casa do TOM ZÉ foi assaltada e levaram as HQs mais raras dele. Quanto ao livro com O Anel, não sabia da existência.

Rod Gonzalez: O senhor podia me falar um pouco mais sobre o Osvaldo Storni e suas HQs de aventuras publicadas no Tico Tico?
A.E.:
Ele começa com as capas coloridas no Tico-Tico. Nos almanaques da época ela aparece também. HQ meio ficção científica, exploradores com aqueles capacetes de cortiça. Um ícone poderoso da aventura! Tinha até as HQs de TIM CAPACETE, uma publicidade dos capacetes Ramenzoni. Excelentes historietas com desenhistas idem.

Ele desenhou uma, duas ou mais séries de HQs policiais no TT. Adaptações creio do “Crime não compensa” americano. O Storni filho, outro gênio, fez o seu aprendizado copiando o Alex Raymond, todos na época foram influenciados por ele. Além da série Terras Extranhas ele tem o “Outro Mundo”. Mas, a melhor é o “Pernambuco”, nosso grande herói em prolongamento da história, desenho, e etc.

Ele estava muito influenciado pelo cinema, os filmes da época. Cinema e HQ não é de agora que andam juntos. Ele começou com HQs curtas nas capas do TT. Fez até uma incursão no Tarzan, mas o controle do Burroughs era e continua e muito grande. E eu suspeito que o Storni filho, ajudava o pai de vez em quando, e desenhava o Zé Macaco e Faustina. Há pequenas diferenças de traço.

Rod Gonzalez: Pra encerrar, podemos esperar novidades de pesquisas sobre HQ nacional e novos trabalhos?
A.E.:
Vou passar depois para você, pode cobrar. Um sonho de consumo dos pesquisadores da minha geração, trata-se de Dick Peter do Ronnie Wells. Ele começou no rádio patrocinado pelo Café Tamoio. Ninguém sabia ao certo a data. Estou engrenando uma pesquisa completa: rádio, livro e HQ. Depois passo para você publicar o artigo completo. NÃO É PARA JÁ! Estou com outro trabalho que tem prazo.

Renato LebeauentrevistasAthos Eichler Cardoso,Rod Gonzalez,Tico-ticoTexto de Rod Gonzalez Hoje trago uma entrevista inédita com o pesquisador Athos Eichler Cardoso focada no quadrinho nacional destacando a sua importância histórica. Eichler tem uma grande ligação com os quadrinhos d'O TICO TICO e os da Época de Ouro no Brasil e no mundo entre 1934-1945. Além de...IMPULSO HQ é um site que se propõe a discutir histórias em quadrinhos e assuntos derivados como cinema, games e cultura pop em geral.