“Hoje há muitas pessoas lendo e resenhando quadrinhos que não liam nem resenhavam antes, mas isso não é mérito da Cia. das Letras”.

Durante o 1º Encontro Quadrinhos na Cia., a equipe do Impulso HQ conversou com André Conti, editor do selo Quadrinhos na Cia., da editora Cia. das Letras. Na entrevista ele nos conta um pouco mais sobre o evento, o mercado no Brasil e nos traz algumas novidades. Confiram:

Impulso HQ: Como surgiu a idéia do evento?
Andrá Conti:
O evento é um clico da Companhia das Letras, que completa 25 anos em 2011. A editora cresceu muito nos últimos anos e sentimos que temos muitas novidades desde as comemorações dos vinte anos, como o selo Quadrinhos na Cia., o selo Penguin, o próprio crescimento da editora, os novos autores que a gente trouxe para o nosso catálogo etc.

Foram cinco anos muito bons para a Cia. por isso revolvemos que este será um ano de comemorações, terão eventos de todos os selos: A Penguin vai realizar palestras, traremos escritores para conversar com o público e autografar seus livros, a Cia. das Letrinhas vai fazer um evento para crianças e este é o evento do selo de quadrinhos. Mas a idéia agora é ter o encontro de quadrinhos todo o ano, foi um grande sucesso, o público gostou e as salas estiveram cheias.

IHQ: O fato das comemorações do aniversário da editora iniciarem-se com o evento de quadrinhos é um indicador de que vai bem o selo Quadrinhos na Cia.?
A.C.:
Vai bem, vai muito bem, tanto nas livrarias quanto nas escolas e também nas compras do governo. Felizmente o nome da editora trouxe novos leitores para os quadrinhos e ao mesmo tempo a galera que já curtia também gostou dos títulos. Foi exatamente como queríamos: atingir um público novo, que não lia, mas passou a ler quadrinhos e ao mesmo tempo realizar trabalhos que os leitores tradicionais dos quadrinhos iriam curtir.

IHQ: Podemos dizer que o selo Quadrinhos na Cia. prioriza até o momento uma linha de quadrinhos mais autobiográficos?
A.C.:
De maneira nenhuma, Tintim não é autobiográfico, Cachalote não é autobiográfico, Umbigo sem fundo não é, Jimmy Corrigan não é… Claro que tem uma boa parte de biografia nos títulos, mas isso não é uma tendência da editora é uma tendência das graphics novels em geral.
O que nós exigimos é que esteja dentro da linha editorial da companhia: literatura de qualidade que não seja específica para o leitor tradicional de quadrinhos, mas que tenha apelo para esse público também e que possa trazer um leitor novo para as HQs.

IHQ: A Cia. das Letras entrou no mercado de HQ com a intenção de trazer outro público aos quadrinhos. A editora encontrou esse público?
A.C.:
O público de quadrinhos ainda se divide entre livraria e banca, sendo que o que mais vende no Brasil são os quadrinhos de banca. Esse público, da banca, ainda não migrou totalmente para a livraria, se fosse para contar apenas com esse público a editora não teria chegado aonde chegou, por isso creio que atingimos sim um novo público. Hoje há muitas pessoas lendo e resenhando quadrinhos que não liam nem resenhavam antes, mas isso não é mérito da Cia. das Letras.

IHQ: O fato da Companhia publicar quadrinhos é mais um sintoma de fortalecimento do mercado do que um objetivo de revolucionar o mercado?
A.C.:
Ninguém entra para revolucionar mercado, já me fizeram essa pergunta uma vez e seria uma arrogância muito grande afirmar isso. O mercado brasileiro de quadrinhos existe e é forte, por exemplo: o que a Conrad já publicou de autores e livros bons é brincadeira… eu devo à Conrad o fato dela ter divulgado e colocado esses autores na cabeça das pessoas. Isso não é um mérito da Cia. e também não é uma reação do mercado, é uma reação editorial.

A editora é uma empresa que precisa crescer, ela não pode ficar parada senão seca e morre. E o quadrinho injeta uma coisa nova, um trabalho diferente, um público diferente, começa a divulgar o nome da editora em lugares novos etc. É importante para uma editora ser variada, sem trair sua linha editorial.

IHQ: Existe muita diferença entre editar literatura e editar quadrinhos?
A.C:
Muita. Eu posso pegar um livro e minha margem de manobra antes de aprovar ou desaprovar é muito grande. Eu posso ver potencial num texto e dizer ao autor para tirar determinado capítulo, começar de tal ponto, transformar tal personagem em personagem principal e pode sair um livro muito bom daí.

O trabalho com um autor de literatura é uma troca constante, eu estou acostumado a mandar o texto em doc, receber o texto, enviar novamente. Ai, para editar quadrinho, você se vê numa situação em que recebe o roteiro e uns rafes e precisa visualizar aquilo, precisa trabalhar aquele roteiro tentando imaginar o que o artista vai fazer, ai você aprova, recebe 50 páginas desenhadas e percebe que tem coisas que não estão funcionando.

Então, a edição de quadrinho te exige precisão na hora de editar e de fechar um roteiro, mas isso nem sempre funciona. O roteiro de Cachalote foi ficar pronto muito tempo depois do planejado e eram histórias que a gente trabalhava personagem por personagem, página por página, diálogo por diálogo, eu passava a noite inteira com o Rafael Coutinho lendo o texto, depois encontrava o Daniel Galera e ficava lendo o roteiro com ele. Isso é muito mais difícil do que mandar um Word pro autor e ele incorporar ou discutir o conteúdo.

IHQ: Você também cuidava da parte de ângulos, câmeras etc.?
A.C:
Claro. Obviamente é uma interferência que varia de autor para autor, tem autor que precisa de mais, tem autor que precisa de menos interferência. O Rafael, por exemplo, é um cineasta, eu não precisei interferir nos ângulos dele. Mas eu tenho que olhar o trabalho e ver se os personagens estão muito parecidos uns com os outros e coisas assim. Eu tenho que me passar por um leigo para entender quais problemas de compreensão todos os leitores possíveis podem ter com o livro.

IHQ: Dentro da linha editorial da Cia. das Letras, tem algum mangá que se encaixaria? Vocês planejam publicar mangá?
A.C:
Sim, mas é muito difícil negociar com os japoneses. Para eles o nosso mercado é irrisório, eles vendem 3 milhões por semana e não querem saber de um país onde 5 mil exemplares é uma tiragem alta. É difícil, mas temos planos sim.

IHQ: Com a onda de quadrinhos argentinos em nosso país, a Cia. das Letras tem planos de incluir alguma produção latinoamericana no catálogo?
A.C:
Eu recebo duas caixas de quadrinhos franceses por semana para aprovar o que vai ser lançado ou não. De quadrinhos argentinos são mais três caixas por mês. Eu estou lendo tudo com calma e quero variar os títulos. Mas temos planos de publicar quadrinhos argentinos também.

IHQ: Foi divulgada a notícia de que Cachalote será publicado na França. Memória de elefante também tem possibilidade de sair no exterior?
A.C:
O Caeto acabou de ser procurado por um agente espanhol que vai representar o trabalho dele na Europa e nós estamos traduzindo trechos da HQ para enviar aos EUA. Procuramos fazer esse trabalho para os autores também.

IHQ: Este ano teremos eventos como o FIQ, o Fest Comix e a Rio Comic Con. A Cia. das Letras vai participar desses eventos?
A.C:
Estamos tentando. A gente faz os convites, mas às vezes os autores não topam. Queríamos trazer o Mazzucchelli, mas ele estará ocupado. Todo ano, para todos os eventos, eu convido o Art Spiegelman , mas ele esta sempre ocupado. Vamos tentando, traremos o Cyril Pedrosa para o FIQ e tem outros nomes que ainda não confirmaram.

IHQ: Em relação à saga do Diomedes, de Lourenço Mutarelli, vai sair mesmo? Não havia uma questão jurídica com a Devir?
AC:
Tudo resolvido. Será lançando em março de 2012. E uma obra inédita dele será publicada ainda esse ano.

Alexandre ManoelentrevistasAndré Conti,Cia das Letras,Quadrinhos na Cia“Hoje há muitas pessoas lendo e resenhando quadrinhos que não liam nem resenhavam antes, mas isso não é mérito da Cia. das Letras”. Durante o 1º Encontro Quadrinhos na Cia., a equipe do Impulso HQ conversou com André Conti, editor do selo Quadrinhos na Cia., da editora Cia. das Letras....O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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