Na entrevista a seguir você irá conhecer Anderson B. e Ricardo Vibranovski, os autores de Felinos, uma HQ estranha, fantástica e encantadora. A publicação independente foi lançada ano passado na Riocomicon.

Ricardo é arquiteto, leitor de quadrinhos, apreciador de uma boa cerveja e escreveu o roteiro inicialmente como um conto infantil. Anderson é apaixonado por HQs desde a mais tenra idade e com a produção de Felinos retomou um velho sonho: produzir quadrinhos.

Na entrevista eles falam sobre os bastidores de Felinos, novos projetos e de suas aspirações. Confira.

IHQ.: Felinos conta uma aventura fantástica, estranha e encantadora. Quais as origens da trama e como tem repercutido a revista?
Ricardo Vibranovski:
Felinos surgiu como uma brincadeira, que faço às vezes com a minha esposa, de contar histórias para dormir. Quando o Anderson conversou comigo sobre as dificuldades de desenvolver um roteiro para desenhar, ela estava muito fresca na minha cabeça e não levei mais do que alguns dias para transportá-la para o papel, sob uma ótica mais sombria. Felinos nasceu como uma ação entre amigos despretensiosa que, para a minha surpresa, tem colhido alguns comentários bem positivos, tanto a respeito do roteiro quanto da arte.

Anderson B: Pois é, a repercussão tem sido ótima, ainda mais considerando que somos totalmente desconhecidos e contamos apenas com a divulgação de boca-a-boca. Recebemos muitos elogios e pouquíssimas críticas, embora eu sempre faça questão de pedir que as pessoas dêem sua opinião sem papas na língua – afinal, são as críticas que mostram onde precisamos melhorar!

IHQ.: Como foi o caminho entre a concepção da história e a revista impressa?
R. V.:
Apesar de sermos amigos e nos vermos com freqüência, o Anderson assumiu essa parte que – diga-se de passagem – foi bastante trabalhosa. Ele não foi apenas o desenhista, mas trabalhou também como editor desse projeto. Vou deixá-lo falar a respeito.

A. B.: Bom, para mim o processo começou quando recebi o roteiro do Ricardo. Adorei a história e queria muito voltar a fazer HQs, mas era difícil encaixar aquilo na minha rotina. Eu estava há uns dez anos sem fazer praticamente nada de quadrinhos. Comecei a frequentar eventos de HQs como o FIQ, para trocar idéias com quadrinhistas e sentir aquele comichão para voltar a produzir.

Funcionou, mas tive que fazer um grande esforço para me reeducar a desenhar todo o dia. O progresso era muito lento. Eu estava “fora de forma” e trabalhava muito, tinha pouquíssimo tempo livre. Além disso, ao longo do desenvolvimento da HQ, mudei de casa, de emprego e comecei a desenvolver um projeto de tiras que acabou não vingando. Essas coisas iam interrompendo o ritmo da produção por várias semanas ou meses. Foi só em setembro do ano passado, com a vida um pouco mais estabilizada e com a proximidade da Rio Comicon, é que o trabalho realmente engrenou. Eu queria muito lançar a HQ nesse evento e fiz de tudo para que isso acontecesse.

Felizmente, tudo deu certo. Ou quase. Tive problemas com a gráfica e não pude lançar a revista nos primeiros dias do evento, como pretendia. Mas valeu a pena. Consegui ter a HQ pronta com a qualidade que eu queria a tempo de aproveitarmos o fim de semana do evento. Foi fantástico ver a reação do público ao nosso trabalho. Todo o esforço foi recompensado, com folga!

IHQ: O público poderá esperar desdobramentos de Felinos?
R. V.:
Quem sabe? Tanto eu como o Anderson temos atividades profissionais distintas dos quadrinhos, e tudo vai depender de uma boa história, tempo para executá-la e muita, muita força de vontade.

A. B.: Felinos foi criado como uma história fechada. No entanto, conforme fui criando o visual e desenhando a história, fui me apegando aos personagens e comecei a pensar que desse pequeno conto poderia sair algo mais. Acho que o Ricardo criou um conceito muito interessante que pode ser desenvolvido além dos limites dessa história. A receptividade do público também é um fator estimulante – muita gente nos diz que gostaria de saber mais sobre esses personagens!

Ou seja, é uma possibilidade para o futuro, mas não há planos no momento, até porque estou envolvido em um projeto que deve me tomar bastante tempo.

IHQ.: Existem curiosidades sobre Felinos que por ventura tenham ficado de fora da revista e que vocês poderiam contar para os leitores do Impulso HQ? Um desfecho diferente, uma cena que chegou a ser ilustrada, mas que não foi para a diagramação…
R. V.:
Realmente, o projeto ganhou velocidade após a definição de que seria lançado na Rio Comicon, no final do ano passado. O Anderson acelerou a produção das páginas e, por total falta de tempo, pediu para finalizarmos a história de maneira diferente, poupando um pouco de trabalho.

O final original era fechado e não dava muita margem para continuações. De qualquer maneira eu não estava 100% satisfeito com a forma que havia finalizado a história e precisaria trabalhar mais um pouco nela. Outra curiosidade é que a capa ficou a cargo da minha talentosa esposa e designer Fabiana Takeda.

A. B.: Da minha parte, fora ter me metido no final da história (em minha defesa, devo dizer que o número de páginas não diminuiu por causa disso! rsrsrs), fiz algumas pequenas mudanças na passagem do roteiro para o desenho. E, naturalmente, conforme fui desenhando, produzi algumas versões alternativas de cenas ou páginas. Como a maioria dessas mudanças foi feita ainda na fase de esboços iniciais, não há muitas “cenas excluídas” que sejam mais do que rabiscos, mas em alguns casos só percebi a necessidade de fazer alterações num estágio mais avançado.

Alguns desses casos serão comentados na série de posts sobre os bastidores de Felinos que tenho feito no meu blog, mas posso adiantar um deles. A “splash page” do título (onde vemos Celso, perdidamente apaixonado, observando Ana passar com o um gato no colo) chegou a ter o lápis quase finalizado antes que eu percebesse um erro dos mais primários: A ação estava contra o sentido normal de leitura, e a Ana em vez de estar “saindo” (da esquerda para a direita) estava “voltando” em direção à página anterior, que já mostrava Ana andando. Essa convergência das duas Anas criava um ruído estranhíssimo.

Resultado: tive que mudar o ângulo da “câmera”. Com isso, não só acabou aquela estranheza como o movimento da personagem em uma página reforçou o da outra, deixando toda a composição mais forte. O lado ruim é que eu preferia o cenário da primeira versão, bem mais limpo (e menos trabalhoso!) que o outro. Mas não tenho dúvidas de que a alteração era imprescindível.

IHQ.: Como vocês vêem Felinos no contexto dos quadrinhos nacionais?
R. V.:
Felinos foi um projeto muito pessoal, elaborado por pessoas que são, antes de tudo, amantes de quadrinhos. Minha única preocupação foi escrever uma história que me desse prazer na leitura. Essa independência talvez aproxime Felinos de publicações como Front e Samba, feitas com muita liberdade e com a colaboração de muitos quadrinistas amadores. Aliás, foi muito legal ver na Rio Comicon como os quadrinhos independentes estão bem produzidos e despertam tanto interesse dos leitores.

A. B.: Felinos é uma publicação despretensiosa, que tem como objetivo contar uma boa história de maneira envolvente e apresentar nosso trabalho ao público. Como HQ independente, é um produto característico do bom momento pelo qual passam os quadrinhos brasileiros. Há uma quantidade e diversidade de trabalhos sendo publicados por aqui como há muito não se via.

Foram justamente as pessoas que estão fazendo esses quadrinhos, principalmente os independentes, que fui procurar no FIQ e no Rio Comicon, para sentir esse movimento mais de perto, para sentir que realmente dá para produzir um HQ independente com qualidade profissional, pois há espaço e público – mesmo que ainda restrito – para isso.

Existem projetos em andamento? O que podemos esperar e o que podem nos contar de novidades?
R. V.:
No momento, tirei a poeira de um curta metragem que escrevi há algum tempo e que pode dar uma boa HQ. Esse projeto está contando com a arte de um casal muito talentoso, Kime e Guilherme Rodrigues. O interessante de trabalhar em Felinos foi ver como uma idéia minha se transformou em algo totalmente novo após ter passado pelas mãos do Anderson, devido a todas as outras referências que ele possui do mundo dos quadrinhos.

Cada dupla roteirista x desenhista tem sua química própria, e estou ansioso para ver o resultado da parceria com outras pessoas. Felinos também me deu vontade de escrever mais, e estou elaborando material para voltar ao teclado do computador em breve.

A. B.: Quando terminei Felinos, meu plano era fazer algumas tiras para publicar no blog, um trabalho mais experimental, onde eu pudesse explorar estilos diferentes e ter retorno mais imediato do público, e depois criar uma nova HQ para levar aos eventos de quadrinhos de 2011, dentro e fora do Brasil.

Mas surgiu a possibilidade de desenvolver um projeto irresistível, radicalmente diferente de Felinos, e estou envolvido nisso agora. Não posso dar detalhes no momento, pois ainda não há nada certo. Como o projeto é bastante longo, se ele vingar tentarei conciliá-lo com trabalhos pequenos como as tiras ou algo similar. Vamos ver o que acontece!

Há algum personagem que vocês gostariam de trabalhar?
R. V.:
Coelhos. Eu gosto de coelhos.

A. B.: Depois de ver os trabalhos maneiríssimos que o pessoal tem criado para os álbuns MSP 50, não pude evitar ficar imaginando o que eu faria se tivesse uma oportunidade dessas. É algo que eu adoraria fazer. O Leão Negro também é um personagem que adoro, e histórias de aventura sempre são legais de desenhar. Fazer algo para a Marvel ou DC também seria uma experiência interessante, mas é um tipo de trabalho que exige dedicação total, e não posso largar meu emprego.

Na opinião de vocês, como estão os quadrinhos nacionais atualmente? Há incentivo?
R. V.:
Algumas ações públicas realmente contribuem para a produção e divulgação de obras nacionais. Mas estamos no início de uma nova fase, em que o apoio institucional já não é mais tão importante. Hoje existe um público leitor maduro, interessado em explorar formatos menos tradicionais de HQs, grande o suficiente para chamar a atenção das redes de livrarias e editoras.

Os quadrinhos estão adquirindo o prestígio de literatura, recebendo resenhas em jornais de grande circulação e atraindo pessoas que ainda não tinham envolvimento com esse tipo de criação artística. A procura por quadrinhos autorais abriu espaço para a produção nacional de alta qualidade. É difícil pensar que um calhamaço como Cachalote fosse editado há cinco, seis anos atrás. O momento é bom para a produção nacional, coisas interessantes estão sendo lançadas, e a tendência é só melhorar.

A. B.: Acho que o maior incentivo tem que vir de cada um. O mercado está crescendo, as editoras – grandes, pequenas, boas, ruins – estão em plena atividade, há alguns editais que têm viabilizado a produção de HQs, todo mundo está de olho nas listas do PNBE… Não é perfeito, mas há espaço para quem quiser batalhar e tiver um trabalho de qualidade. Infelizmente, ainda são pouquíssimos os que conseguem viver de quadrinhos, mas está melhorando. Hoje não é difícil fazer uma lista de HQs brasileiras de alto nível que se pode encontrar nas livrarias, por exemplo.

O que fica claro para mim é que à medida que os espaços vão aumentando, a produção cresce de acordo e o nível de qualidade das HQs acompanha esse ritmo. Eu vi isso acontecer aqui com a animação, com o festival Anima Mundi e a popularização da internet.

A partir do momento que surgiram espaços para os animadores mostrarem seu trabalho, para encontrarem seu público, o cenário da animação no Brasil foi crescendo. Isso alimentava esse espaços, que também cresciam e, consequentemente, estimulavam mais pessoas a criarem seus próprios trabalhos. O mercado não ignorou esse desenvolvimento, cresceu e se tornou muito mais forte do que era há uns dez, quinze anos atrás. Tenho esperança de que os quadrinhos também sigam esse caminho.

O que vocês acham dos quadrinhos japoneses feitos por brasileiros?
R. V.:
Não tenho muita informação sobre os mangás brasileiros. Geralmente são feitos para uma faixa etária mais nova, e isso acaba não me chamando muita atenção. Quanto ao fato em si, acredito que esse é mais um componente que ajuda a movimentar o mercado. HQs no estilo mangá, independente da origem, são portas de entrada para um universo mais amplo.

Fazer quadrinhos no estilo europeu já foi o sonho de toda uma geração, e agora as atenções estão voltadas para a fantástica indústria japonesa. No mundo super globalizado em que vivemos isso acaba trazendo desdobramentos interessantes, quando a estética mangá se funde às influências locais. A HQ canadense Scott Pilgrim Contra o Mundo é um bom exemplo disso. No Brasil, a Turma da Mônica Jovem é estrondoso sucesso.

A. B.: Se tiver qualidade, acho válido. Tanto quanto quadrinhos de super-herois brasileiros ou quadrinhos Bonelli brasileiros (se é que existe isso…). O problema é que, na maioria dos casos, essa abordagem fica na superficialidade do “estilo” escolhido, em seus maneirismos mais batidos, no lugar-comum de um determinado tipo de traço, que, naturalmente, são os elementos que os identificam para a maior parte do público. E aí fica difícil fazer alguma coisa original e relevante dentro daquele determinado universo.

Não me entenda mal, já vi “mangás” interessantes feitos aqui e nos EUA, e sei que temos ótimos desenhistas de super-heróis (que, é claro, acabam indo para o mercado americano). Mas com muita freqüência vejo que os artistas se permitem ficarem presos, restritos aos dogmas de uma determinada maneira de fazer quadrinhos, e isso gera trabalhos que raramente são interessantes de verdade, na minha opinião. Particularmente, tendo a curtir mais artistas que tenham estilos originais, mesmo qua não tão bem resolvidos. Acho muito mais estimulante, mais inspirador.

Definam Anderson b e Ricardo Vibranovski…
R. V.:
Hm… Ricardo se tornou arquiteto porque queria exercitar sua criatividade. Está feliz em poder continuar fazendo coisas que sempre deram a ele muito prazer, como ler uma boa HQ, ver um filme legal e escutar música. De uns tempos para cá vem sentindo muita vontade de fazer sua própria arte.

A. B.: Alguém que gostaria de estar acima de definições, mas não está.
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O Impulso HQ agradece a Anderson B e Ricardo Vibranovski pela entrevista. Não esqueça de acompanhar as novidades de Felinos no blog de Anderson B., clicando aqui.

Veja a resenha HQB de Felinos, clicando aqui.

Dennis RodrigoentrevistasAnderson B,felinos,Ricardo VibranovskiNa entrevista a seguir você irá conhecer Anderson B. e Ricardo Vibranovski, os autores de Felinos, uma HQ estranha, fantástica e encantadora. A publicação independente foi lançada ano passado na Riocomicon. Ricardo é arquiteto, leitor de quadrinhos, apreciador de uma boa cerveja e escreveu o roteiro inicialmente como um conto...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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