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Sábado passado, dia 1º de Maio, foi dia do trabalhador e também dia de muito trabalho para Paulo Ramos, no lançamento de seu mais recente livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, na HQMix Livraria.

Por quê digo muito trabalho? Por causa da imensa fila de fã, alunos, amigos e parceiros do jornalista e pesquisador sobre quadrinhos, que como está virando tradição, lotaram a livraria para garantir o seu exemplar do livro que revela a produção de HQ da Argentina.

Se você acha que a produção do país vizinho se resume a Mafalda e as tiras de Macanudo, Bienvenido, publicado pela editora Zarabatana, mostra autores e a produção editorial de lá, tanto as do presente quanto as do passado e não é a toa que já está sendo considerado a obra mais expressiva sobre os quadrinhos argentinos já publicada no Brasil.

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O Impulso HQ esteve presente na HQMix Livraria para conferir toda a movimentação que desde as 19h30 foi intensa e só veio se acalmar as 22:30. Durante quase 3 horas seguidas o autor autografou e agradeceu os presentes que foram prestigiá-lo, entre eles quadrinhistas consagrados como Eloar Guazzelli, Laudo Ferreira Jr., Will, Alex Mir, Gonçalo Junior, André Diniz, João Montanaro, Gustavo Duarte, Gabriel Bá, Rafael Grampá e muitos outros. Além dos pesquisadores acadêmicos de quadrinhos como Waldomiro Vergueiro e Nobu Chimen.

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Já prevendo a grande movimentação, o Impulso HQ já havia preparado uma entrevista com Paulo Ramos sobre Bienvenido, onde ele fala sobre a obra, o que o motivou a pesquisar sobre quadrinhos argentinos, quais foram às dificuldades e as surpresas durante o processo de pesquisa e quais são os seus próximos projetos.

Mas antes de colocaremos dois depoimentos. Primeiro de Claudio Martini, editor da Zarabatana, que fala um pouco do porquê publicar Bienvenido e sobre os próximos lançamentos da editora. E m seguida de Eloar Guazzelli, quadrinhista que também possui forte conhecimento sobre a produção de quadrinhos na Argentina, fala da importância de uma publicação abordar os quadrinhos argentinos.


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Claudio Martini:

Impulso HQ: O que levou a editora Zarabatana publicar uma obra sobre quadrinhos Argentinos? Existiu alguma referência de mercado?
Claudio Martini:
Na verdade não. Não foi uma decisão baseada em mercado. Os quadrinhos argentinos são muito ricos e quando o Paulo apresentou o projeto vi que era um trabalho muito interessante.

Muitas pessoas falam de quadrinhos argentinos, mas infelizmente não os conhecem. O livro mostra justamente isso, obras excelentes tanto atuais como antigas, que valem a pena os leitores de quadrinhos conhecerem melhor esses títulos.

E a Zarabatana já publica outros títulos de autoria de quadrinhistas argentinos, como Macanudo do Liniers, logo a obra combina com o nosso acervo.

Impulso HQ: Quais os próximos lançamentos da Zarabatana? Mais algum título teórico?
Claudio Martini:
Não. A nossa prioridade agora é lançar quadrinhos. Estamos em andamento com Macanudo 3, o Bando de 2, de Danilo Beiruth e também uma reedição de Saino a percurá, do Lelis. Essas obras devem estar prontas entre Julho e Agosto.

Temos nos planos também uma graphic novel de Emmanuel Guibert, autor de O Fotógrafo, a obra se chama A Guerra de Alan. Um soldado da Segunda Guerra Mundial, que conta a sua história para Guibert. È uma graphic novel biográfica.
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Em seguida a declaração de Eloar Guazzelli, sobre Bienvenido. O quadrinhista gaúcho também adiantou para o Impulso HQ que sua versão de Isaura e Os Demônios da Garoa, estão previstos para o segundo semestre pela Editora Peirópolis.

Impulso HQ: Qual a importância da obra Bienvenido?
Eloar Guazzelli:
A obra é essencial. Estava demorando para sair uma publicação como essa. Nós gaúchos temos mais proximidades com os quadrinhos argentinos, mas isso é porque estamos na fronteira. Fiquei muito feliz quando soube de uma publicação teórica desse tipo porque ela assumiu uma missão, de demonstrar a produção Argentina, que tem uma escola muito forte de quadrinhos. A obra é motivo para comemorar.

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Depois de enfrentar fila para comprar o livro e depois encarar uma outra fila para garantir o seu autógrafo, quem esteve presente na HQMix, não se arrependeu de comparecer, pois era possível ver alguns leitores já descobrindo mais um pouco sobre os quadrinhos argentinos lá mesmo, lendo as páginas de Bienvenido.

Foi uma espera boa, pois a casa cheia possibilitou muita conversa, rever amigos e é claro como já observado anteriormente, teve gente devorando a páginas enquanto estavam na fila.

Tá curioso sobre Bienvenido? Quer saber mais sobre o livro?

Então vamos direto para a entrevista com  Paulo Ramos, que como sempre foi muito gentil e atencioso com o Impulso HQ, e nos concedeu a entrevista a seguir:

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Entrevista Paulo Ramos:

Impulso HQ: Ano passado em no Blog dos Quadrinhos você publicou uma série de textos intitulados “Muito Além de Mafalda”. Pode-se dizer que foi a partir daí que surgiu a ideia do livro, ou esses textos já foram um primeiro ensaio?
Paulo Ramos:
Revendo hoje, fica claro para mim que a ideia do livro começou a ser gestada na primeira viagem que fiz a Buenos Aires, em 2007, embora na época não tivesse me dado conta disso. Mas foi mesmo depois da série “Muito Além de Mafalda” – nisso você está certíssimo – que o livro começou a ficar mais claro para mim.

Várias pessoas próximas e leitores do blog me alertaram que havia ali o esboço de uma obra maior. Quando amadureci a ideia de escrever o livro, passei a escrever e pesquisar tudo de novo, do zero. Fiz outras duas viagens a Buenos Aires, em agosto e dezembro de 2009, para novas apurações e para fazer entrevistas, algo que não havia realizado na série do blog.

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IHQ: O que te motivou a escrever sobre os quadrinhos argentinos? O que chamou mais a sua atenção para se dedicar a esse tema?
P.R.:
Sempre me incomodou saber mais sobre os quadrinhos dos Estados Unidos, da Europa e até do Japão e quase nada sobre a produção de um país vizinho, tão próximo de nós. A motivação inicial foi essa, entender melhor como é a produção argentina.

Descobri um histórico riquíssimo de obras e autores, inexplicavelmente desconhecidos dos brasileiros. Um dos fatos que me chamaram a atenção quase imediatamente foi eles produzirem histórias adultas, de aventura, já na década de 1950, bem antes da Europa.

IHQ: Que tipo de visão do mercado argentino de quadrinhos o livro dará ao leitor brasileiro?
P.R.:
A proposta é apresentar a produção Argentina de quadrinhos, de ontem e de hoje, ao leitor brasileiro. Como se conhece muito pouco sobre o que é feito por lá, acredito que quase tudo será novidade. Penso que esse ar de ineditismo do tema seja o que mais vai chamar a atenção de quem for ler o livro.

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IHQ: Como é o mercado de quadrinhos na Argentina? Quais são os pontos em comum e os que diferem do nosso?
P.R.:
Há muitos pontos convergentes e divergentes. Temos em comum a tradição de publicar tiras cômicas em jornais, os quadrinhos independentes, a migração para as livrarias, o uso do humor como forma de resistência política. Mas eles tendem a dar mais destaque a alguns desses pontos: os jornais dedicam um espaço de destaque às tiras – todas nacionais -, a produção independente tentou se articular ainda no fim do século passado, as lojas de quadrinhos existem em número muito maior do aqui.

Entre as divergências, chama a atenção a tradição de criar histórias de aventura, que vem desde a década de 1930, e o destaque que os jornais dão aos quadrinhos, tanto nas tiras como nas coleções de obras do gênero vendidas com os diários. Atualmente, o grupo do jornal Clarín publica duas coleções, uma com volumes de Homem-Aranha e outra com toda a produção de Corto Maltese, de Hugo Pratt. Essa tradição inexiste no Brasil.

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IHQ: Os quadrinhos argentinos na Argentina são muito fortes, ou eles sofrem influências de outros países, como no caso do Brasil com os títulos de super-heróis americanos?
P.R.: A produção de lá enfrenta hoje problemas semelhantes ao Brasil. Os principais autores publicam no exterior – em particular na Europa -, há editoras pequenas, os mangás se tornaram febre no país, muito mais do que os super-heróis.

Mas há uma preocupação e um interesse em manter a produção nacional, mesmo que a duras penas. O caso mais evidente é a revista “Fierro”, editada desde 2006 e vendida junto com o jornal “Página / 12”. A publicação traz histórias dos principais quadrinistas do país. E de um brasileiro, que adotou a Argentina como morada: Adão Iturrusgarai.

IHQ: Após as suas viagens e entrevistas, você acha que teremos mais obras argentinas no Brasil e vice-versa?
P.R.:
Há boas chances de isso acontecer, sim, principalmente a vinda de produções de lá.

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IHQ: Qual foi a sua maior dificuldade em relação às pesquisas? Houve algum impedimento ou barreira?
P.R.:
A maior dificuldade foi mesmo a distância. O computador ajudou em muitos dos contatos com autores, mas as idas a Buenos Aires foram essenciais. Foi lá que pude ter um contato contínuo com o que foi publicado no país de 2007 para cá. Foi lá também que pude comprar a produção local, nova e de décadas anteriores.

Cada ida à cidade significava malas cheias de quadrinhos na volta. Na primeira viagem, precisei até comprar uma outra mala para trazer tudo o que havia comprado. A leitura das revistas ajudou muito no processo de pesquisa e de escrita do livro.

IHQ: Em todo o seu processo de pesquisa e entrevistas, o que mais surpreendeu?
P.R.:
Uma surpresa eu já citei: a presença de quadrinhos de aventura, voltados a um leitor adulto, já na década de 1950. Costuma-se dizer que foi a Europa que inaugurou esse diálogo com um leitor mais maduro. Vemos que não foi.

O segundo ponto que me surpreendeu foi a história de Héctor Germán Oesterheld, autor de “El Eternauta” e da biografia de Che Guevara e tido como um dos principais roteiristas da história do país. Ele foi sequestrado, torturado e morto pela ditatura argentina da segunda metade da década de 1970.

Ele, as quatro filhas – duas delas grávidas – e os dois genros. Sobraram apenas dois netos e a esposa, Elsa. Fiz uma longa entrevista com ela, um dos relatos mais fortes que tive oportunidade de reportar em meus quase 20 anos de jornalismo. Ela teve a família assassinada num prazo de dois anos. Foi tão forte que dedico o último capítulo do livro especialmente para relatar a história dela.

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IHQ: Sobre a rivalidade Brasil x Argentina, isso também acontece nos quadrinhos?
P.R.:
Não senti isso por lá na área de quadrinhos. Ao contrário, senti um profundo respeito à produção brasileira, e vice-versa. Relatos de Adão Iturrusgarai e Fabio Zimbres, nas entrevistas que fiz com eles para a obra, casam com essa minha leitura.

IHQ: A arte da capa é de Liners. Você esperava por isso? Como foi que você recebeu a notícia?
P.R.:
Foi uma grata surpresa. A ideia é toda do Claudio Martini, publisher da Zarabatana, a editora da obra. Foi ele quem fez o contato e o convite ao Liniers. O Claudio me disse que o Liniers havia topado e ficamos os dois na expectativa de como ficaria a capa. Como disse, foi uma grata surpresa, o resultado superou todas as nossas expectativas. Acredito que outro ponto alto do livro seja a apresentação do Adão Iturrusgarai, um dos melhores prefácios que tive a oportunidade de ler.

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IHQ: Alguma programação para lançar Bienvenido também na Argentina?
P.R.:
É outra ideia que estamos amadurecendo, Claudio e eu. De início, achei que apresentar os quadrinhos argentinos ao leitor de lá seria algo redundante. Mas depois, com o livro pronto, comecei a reavaliar isso: talvez o diferencial seria justamente esse, como os quadrinhos de lá são vistos por alguém de fora.

O que reforça essa minha leitura foi o fato de alguns blogs argentinos da área terem noticiado o lançamento do livro, com visível interesse. Mas, como disse, é algo que estamos amadurecendo, não há nada concreto até o momento.

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IHQ: Quais são os seus próximos projetos? Mais algum livro em andamento?
P.R.:
Tem sim. Participo de um livro sobre a revista “Gibi”, criada em 1939. A obra é organizada por Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos e será publicada pela Via Lettera. Os originais já estão com a editora e a edição já começou. Acredito que não tarde a ser publicado. Paralelamente, organizo dois livros teóricos sobre a área e preparo um outro, também jornalístico, que terei de ser econômico nas palavras por ainda não ter o contrato assinado.
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Foi uma noite que mais uma vez os quadrinhos saíram ganhando com mais um lançamento, aliás, foi uma noite de autógrafos de sucesso. Se Paulo Ramos já tinha o maior número de público em um lançamento na HQMix Livraria, acredito, que no último sábado ele tenha quebrado o seu próprio recorde.

Agora é aguardar e conferir o próximo lançamento. E o Impulso HQ encerra essa cobertura por aqui.

Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos
Autor: Paulo Ramos
Editora: Zarabatana
176 páginas
R$ 36,00

HQMix Livraria
Praça Roosevelt  nº 142 – Centro
São Paulo – SP
(11) 3258 7740

Renato LebeauentrevistasAlex Mir,André Diniz,Bienvenido,Claudio Martini,Eloar Guazzelli,Gabriel Bá,Gonçalo Junior,Gustavo Duarte,hqmix,João Montanaro,Laudo Ferreira Jr,Nobu Chimen,Paulo Ramos,Rafael Grampá,Waldomiro Vergueiro,Will,ZarabatanaSábado passado, dia 1º de Maio, foi dia do trabalhador e também dia de muito trabalho para Paulo Ramos, no lançamento de seu mais recente livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos, na HQMix Livraria. Por quê digo muito trabalho? Por causa da imensa fila de fã, alunos, amigos...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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