gabriel-ba-fabio-moonReportagem: Alexandre D´Assumpção | Edição: Liana Pires

Imagine conhecer mais detalhes sobre o processo criativo e de três artistas consagrados do mundo dos quadrinhos. Agora, pense que você está muito perto de saber os “segredos” de Mike Deodato, Fabio Moon e Gabriel Bá. O Impulso HQ entrevistou os três experts sobre o processo criativo de cada um e a transição do lápis para a caneta digital. Confira a entrevista exclusiva!

Impulso HQ: Comentem sobre a trajetória de vocês nos quadrinhos e sobre como eram os trabalhos antes do uso dos tablets.
Gabriel: Começamos a fazer quadrinhos na década de 1990, com fanzines fotocopiados e vendidos de mão em mão. Na faculdade, continuamos a produzir fanzines e criamos o “10 Pãezinhos”, que nos colocou no cenário nacional. Nessa época, a gente tinha uma mesa digitalizadora da Wacom, daqueles modelos antigos, beges. Agilizava bastante na hora de fazer os balões.
Fábio: Na época dos fanzines, desenhávamos com lápis e nanquim no papel A4, mas, nos “10 Pãezinhos”, começamos a usar o computador para fazer os balões e a letras, especificamente quando contamos a história “O Girassol e a Lua”. Havíamos comprado as fontes da Comicraft, e isso dava uma cara “profissional” ao nosso fanzine. O único problema é que a fonte não tinha acentos. Então, a gente imprimia as páginas e acentuava à mão os balões.
Mike: Comecei amadorísticamante em 1978, fazendo fanzines que eram vendidos pelos Correios e em bancas. As vendas mal pagavam os custos, mas foram importantes para a minha evolução como autor. Em 1985, fiz meu primeiro trabalho pago e, em 1991, comecei a trabalhar para o mercado americano, o qual trabalho até hoje. Desenhei com lápis e papel até 2011, quando decidi experimentar a Cintiq, display interativo da Wacom.

mike-deodatoImpulso HQ: Quando começaram a publicar os seus trabalhos?
Fábio: A partir de 2000, começamos a publicar com editoras. Com a Via Lettera, publicamos “O Girassol e a Lua” (2000) e “Meu Coração, Não Sei Por Quê.” (2001). Com a Devir, publicamos “CRÍTICA!” (2004), “Mesa para Dois” (2006) e “FANZINE” (2007). Também fizemos algumas revistas independentes neste período: “Feliz Aniversário, Meu Amigo!” (2003), “ROCK’N’ROLL!” (2004), “Um Dia, Uma Noite” (2006), “5” (2007) e “ATELIER” (2010).
Gabriel: Em 1999, publicamos nossa primeira HQ nos EUA, a minissérie “ROLAND: Days of Wrath!”, escrita por Shane Amaya. Depois disso, publicamos uma história curta numa antologia da Dark Horse, “Autobiographix” (2003). No ano seguinte, publicamos “URSULA” com uma editora pequena, AiT/Planet Lar, que em 2005 publicou a história “Smoke and Guns”, que o Fábio desenhou. Esse trabalho nos rendeu o convite para desenhar a série “Casanova” em 2006, que levou ao “Umbrella Academy” e ao Sugarshock!”, em 2007.

gabriel-ba-fabio-moon-1Impulso HQ: O que influenciou vocês a mudarem do lápis para a caneta digital?
Fábio: Nos quadrinhos, o desenho passa por várias etapas. Quando recebemos o roteiro de uma HQ, primeiro, fazemos um “layout” (“thumbnail”), ou um rascunho de cada página para mostrar para o editor. Depois de aprovado, chega a hora de desenhar à lápis, para depois passar arte-final com nanquim. Toda comunicação com o editor é feita por e-mail, telefone ou Skype, e as páginas finais são enviadas digitalmente. Não somos da época que você precisava enviar as páginas físicas para a editora. Já começamos a trabalhar na era digital.
Gabriel: Depois de tantos anos, acreditamos que poderíamos agilizar algumas destas etapas com a ajuda de uma Cintiq, display interativo da Wacom, pela facilidade que o ambiente digital oferece na hora de modificar os desenhos, além da praticidade de não precisar escanear as imagens para enviar ao editor. Ainda fazemos a arte-final, etapa que é a nossa favorita, no papel, mas para os rascunhos e para o lápis, a Cintiq tem ajudado muito.
Fábio: Outro motivo importante para testar a Cintiq, principalmente a Companion, foi a mobilidade. Viajamos muito para convenções e eventos, e não conseguimos levar as páginas e o material, resultando em atrasos nos projetos. Vimos muitos colegas usando a Companion e decidimos tentar. Além das viagens, podemos trabalhar em rascunhos sem ter que nos preocupar com as folhas de papel, pastas e matérias de desenho. Tem sido muito prático.
Mike: Sempre fui fascinado por tecnologia, mas foi Joe Quesada que me influenciou sobre as maravilhas de se trabalhar digitalmente. Saber que Brian Bolland havia migrado para o digital também foi decisivo.

gabriel-ba-fabio-moon-2Impulso HQ: Qual foi o primeiro trabalho com a caneta digital?
Gabriel: Quando compramos nosso primeiro Mac, em 1992 (um LC-II), compramos também uma mesa digitalizadora da Wacom. Já fizemos trabalhos com o mouse, mas a caneta sempre esteve presente nas ferramentas digitais. Fiz o layout de uma edição inteira do “Umbrella Academy” logo que a Cintiq chegou, para começar a me acostumar com a relação do desenho direto na tela. Depois, fiz um pôster para a CCXP quase todo (fiz o rascunho e o lápis na Cintiq, imprimi para passar arte-final, escaneei e colori novamente no computador usando o display interativo).
Fábio: A Cintiq está conosco desde outubro de 2015. Apesar de fazermos uma parte de todos os trabalhos nela, ainda estamos nos acostumando. Estou fazendo o lápis da edição atual do “Casanova” de maneira digital, e, no Carnaval fiz uma capa para uma edição francesa de um dos nossos livros, quase toda de maneira digital, só fazendo a arte-final com pincel sobre o lápis digital, e depois colorindo no computador.
Mike: Meu primeiro trabalho com uma Cintiq foi em “Dark Avengers #10”, mas já havia alguns anos que eu vinha usando um dispositivo digital menor para pequenas correções.

mike-deodato-1Impulso HQ: Qual foi a maior dificuldade que enfrentaram na transição lápis para caneta digital?
Gabriel: Uma das dificuldades é se acostumar com as dimensões da tela e do desenho. Achar o “zoom” certo para trabalhar nos rascunhos e para trabalhar o lápis mais detalhadamente.
Fábio: Também é difícil encontrar a ferramenta (ou o “brush”) certo para cada etapa. Da mesma forma que gostamos de desenhar com lápis 2B ou com lapiseira, na hora de desenhar digitalmente, precisamos achar um “brush” no Photoshop para trabalhar. Ainda estamos testando e nos adaptando.
Mike: O uso da caneta digital não é mais difícil do que se adaptar a qualquer outro instrumento. Pincel, pena, lápis… Todos têm diferenças no manuseio.

fabio-moonImpulso HQ: Atualmente, a Cintiq é a principal ferramenta de trabalho de vocês?
Gabriel: Estamos fazendo quase todos os rascunhos e lápis básico das nossas páginas com a Cintiq, mas, depois, ainda imprimimos as páginas para fazer a arte-final no papel.
Fábio: Também usamos a Cintiq para colorir alguns trabalhos.
Mike: Hoje, 95% de minha produçāo é digital. Fiquei três vezes mais rápido, pois consigo pular etapas, como escaneamento e acesso de ferramentas como zoom, ctrl-z e camadas.

Impulso HQ: Vocês consideram que têm os mesmos resultados?
Fábio: Com a Cintiq, não temos a mesma agilidade ou o mesmo domínio que temos com lápis, mas é uma questão de costume e tempo.
Mike: Atualmente, posso escolher entre replicar o mesmo resultado na arte-final que eu tinha quando trabalhava no papel ou de explorar todas as possibilidades que trabalhar digitalmente me apresenta.

mike-deodato-2Impulso HQ: Vocês acreditam que o traço a lápis irá acabar na indústria profissional de quadrinhos?
Fábio: Não tem como prever isso. Acho que estamos em num processo de inclusão de ferramentas, e não de exclusão.
Gabriel: Nós crescemos desenhando em papel, com giz-de-cera, lápis-de-cor e canetinhas. Depois, veio o nanquim, o pincel. Daqui para frente, as pessoas vão crescer usando ferramentas digitais. Não dá para dizer qual será a relação destes artistas com o digital e com o papel. De repente, somente os profissionais saberão usar papel e ferramentas como lápis e tinta.
Mike: Acredito que não. A diversidade de estilos e meios faz parte da diversão em se fazer quadrinhos.

Impulso HQ: Fora do Brasil, há um mercado de originais, principalmente, em convenções de quadrinhos. Com a caneta digital, essa fatia do mercado corre risco?
Fábio: Com certeza. Existem muitos artistas que ganham muito dinheiro vendendo originais.
Mike: A quantidade deve diminuir naturalmente, mas não vai acabar. O resultado vai ser positivo porque aumentará o valor das páginas, o que é bom para o artista e para o colecionador, que terá itens mais valiosos em sua coleção.

mike-deodato-3Impulso HQ: Vocês indicam a caneta digital para quem está começando?
Gabriel: Acho importante um artista iniciante começar usando ferramentas básicas e analógicas, como lápis e papel. A Cintiq oferece mil possibilidades, o que pode confundir um iniciante. Da mesma forma, não aconselho um artista iniciante a fazer arte-final com um pincel caro e nanquim. Ele precisa testar outras maneiras e entender o que cada uma delas têm para oferecer. Por enquanto, o ambiente digital ainda funciona em cima de uma metáfora do mundo analógico, desde o sistema operacional (com a mesa, as pastas, os arquivos) até os programas, como Photoshop, Painter ou Manga Studio. Lápis, canetas, pincéis, texturas, tintas, tipos de papel… Se você entende do assunto, das ferramentas e técnicas, entenderá melhor esta metáfora.
Fábio: Os iniciantes tendem a acreditar que a tecnologia vai solucionar todos seus problemas e torná-los em profissionais instantaneamente. Nada disso é verdade. Desenhar com lápis e papel traz problemas e soluções importantes para todo artista. Se você já os conhece e domina, vai se adaptar muito melhor ao ambiente digital. Por outro lado, trabalhar digitalmente trará outros problemas que o papel não tinha.
Mike: Sim, eu recomendo. Diferentemente de mim, que precisei me adaptar ao mundo virtual, a nova geração já nasceu com os computadores, tablets, celulares e laptops como parte do dia a dia. A caneta digital é um passo natural.

wacom-Cintiq-13HDPara saber mais
Durante a entrevista, os artistas falaram muito sobre a Cintiq, da Wacom. O novo modelo da tablet, a Cintiq 13HD touch, foi lançado em março de 2015, no Japão. Além de tela com qualidade HD, o equipamento oferece 2048 níveis de sensibilidade à pressão e reconhecimento de inclinação, e sua integração multitouch permite que o usuário navegue pelo o tato. Para mais informações, visite: www.wacom.com.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/05/fabio-moon-gabriel-ba-mike-deodato.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2016/05/fabio-moon-gabriel-ba-mike-deodato-300x300.jpgAlexandre DassumpcaoentrevistasCintiq,Fábio Moon,Gabriel Bá,Mike Deodato,WacomReportagem: Alexandre D´Assumpção | Edição: Liana Pires Imagine conhecer mais detalhes sobre o processo criativo e de três artistas consagrados do mundo dos quadrinhos. Agora, pense que você está muito perto de saber os “segredos” de Mike Deodato, Fabio Moon e Gabriel Bá. O Impulso HQ entrevistou os três experts...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe