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Estava uma tarde chuvosa e fria em Curitiba, mas parece que nem isso é capaz de tirar o humor de Pryscila Vieira, cartunista indicada ao Troféu HQMIX na categoria Melhor Tira Nacional com a personagem Amely, que preferiu marcar a entrevista em um café na região central da cidade chamado Hacienda Café.

Em um ambiente aconchegante Pryscila ficou bem à vontade e mostrou todo o local, e aceitou fazer a seção de fotos que ilustram este post nesse mesmo dia, onde muitos risos e conversas animadas não deixaram de estar presentes, e a curitibana com muito humor, não deixou de indicar os pontos turísticos da cidade e apontar com felicidade ao ver em um ônibus que passou e circula a capital, os personagens que ela criou para uma campanha de reciclagem do lixo.

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Alegre e comunicativa, entre um café e outro, Pryscila revelou para o Impulso HQ um pouco sobre a sua carreira, como é ser mulher em uma área dominada por homens, se ela já sofreu com machismo, qual seu processo de produção com a tira Amely e se ela já causou alguma reação inesperada no público ao longo de sua carreira, explicou sobre o grupo de desenhistas de Curitiba que ela faz parte e é claro não poderíamos deixar de perguntar sobre a indicação no Troféu HQMIX.

Finalizando a entrevista, Pryscila Vieira revela os seus planos para um álbum impresso para a personagem Amely e uma prévia do seu próximo projeto com personagens que segundo ela terá uma abrangência de público maior que Amely, e para quem não sabe, em breve será lançada uma linha de produtos eróticos da personagem pela empresa Sextoy, mas a cartunista avisa: nada de boneca inflável de verdade da Amely.

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O Impulso HQ agradece imensamente a Pryscila Vieira pela sua colaboração e por ter se deslocado em uma tarde chuvosa para nos encontrar e com muita alegria responder as nossas perguntas que você leitor pode conferir a seguir.

Entrevista:

Impulso HQ: Aos 14 anos você já era chargista de um jornal de Curitiba, da onde veio a sua veia artística para ter tanta inspiração desde cedo?
Pryscila Vieira:
Eu acho que veio antes dos 14 anos até. Sempre tive o espírito muito critico e sempre gostava muito de desenhar, eu não lembro da Pryscila brincando. Eu lembro da Pryscila desenhando, desenhando, desenhando em série.

Até que um dia minha mãe, eu morava em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba, uma cidade pequena, e disse que o dono do jornal sabe que você desenha bastante, porque eu desenhava na bobina de papel dela, eu desenhava por metro, e ele me ofereceu um estágio com o chargista.

Eu pensei “nossa eu vou ganhar para desenhar, eu não acredito”, daí eu fui.

Mas antes disso eu já fazia fanzine, já tinha alguns personagens, o jornal foi o começo mais profissional que eu tive.

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IHQ: Então você se consideraria um prodígio na área?
P.V.:
Sabe que eu encontrei um desenho meu de quando eu tinha 6 anos, e eu desenha bem melhor do que eu desenho hoje. (risos)

IHQ: Você está conseguindo notoriedade em uma carreira que não possui muitas mulheres, no começo você sentiu algum impedimento ou resistência?
P.V.:
O humor sempre foi machista, vide Pasquim década de 60, você via eles fazendo entrevista com mulheres que passava peladas em cima da mesa, e eram as gostosonas e o motivo da piada sempre foi a mulher. Acho que até por isso a mulher não se dedicou ao humor desde então, ela falou “poxa pra que vou fazer piada sendo que eu sou o objeto da piada?”

Mas eu participo de salão do humor, que eu freqüento salões de humor, desde os meus 17 anos, tanto é que me chamavam de “Pryscilolita”, um apelido que já se foi. E eu não entendia, depois que eu fui ver o filme, que eu pensei “poxa que safado isso”. Hoje esse apelido não me cabe mais obviamente, acho que cabe “Pryscilolite” (risos).

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Mas machismo, machismo mesmo, a pior coisa que eu já ouvi, foi de um cartunista a 10 anos atrás, e eu não vou revelar de quem foi: “se eu tivesse um corpinho como o seu eu não ia trabalhar, eu ia arrumar um coronel por dia”.

Eu respondi “você está pensando que eu sou o quê?” e ele respondeu: “Você não vai agüentar, tanto homem chato barbudo e fedido contando as mesmas piadas pela madrugada afora”.

Dez anos depois eu o reencontrei e ele me disse parabéns, você conseguiu você ainda está ai e ainda é cartunista, e vou continuar sendo!

Mas essa foi à única manifestação de machismo que encontrei, porque sempre fui bem tratada.

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IHQ: Então já emendando na próxima pergunta, como é ser mulher nesse ramo dominado por homens?
P.V.:
Na relação com eles é natural. Aqui em Curitiba a gente tem um grupo de 10 desenhistas, que chamamos de “Dezenhistas”, eu que acabo agregando todos eles, porque se um marca, o outro não vai e fica meio sozinho no bar e tal, e quando eu marco, eu ligo e falo que estou aqui no bar sozinha, só que já tem os outro nove comigo.

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Quanto ao público, como eu tenho esse personagem que é uma boneca inflável que pensa e fala, ou seja, ela vem com esses dois erros de fabricação, a mulher sente como se a Amely fosse porta voz dela. Porta voz das conquistas das mulheres que foram traídas pelas próprias conquistas.

Recebo muita carta de mulheres, falando poxa gostaria de ter respondido isso para o meu marido, vou recortar a tirinha e colar na geladeira para ele ver, já os homens já vêem como se fosse mais a boneca inflável, e perguntam quando vai sair a boneca inflável de verdade da Amely, quero comer (risos).

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Eles se sentem muitas vezes observados, e isso surpreende o homem, porque ele nunca foi observado no humor, então eles falam “poxa como pode uma mulher conhecer tanto da alma masculina”, mas não é isso, é só observar. Qualquer mulher pode fazer isso, só que eu faço com humor.

IHQ: Você tem a intenção de ser uma porta voz das mulheres com a Amely?
P.V.:
Assim, muita gente me pergunta se a Amely é o meu alterego, ela não é o meu alterego. Ela surgiu da junção de duas coisas: a primeira foi uma decepção amorosa que eu queria discutir a relação, a famosa DR, e a pessoa não queria. Homens não gostam de discutir relação e eu adoro, eu sou comunicativa.

Daí nós terminamos, isso era um fim de ano, e eu detesto Natal. Fiquei sozinha eu e o meu blog, tentando escrever alguma coisa e isso é engraçado porque os períodos depressivos são os mais produtivos, para o humorista, a gente tem que mergulhar o inferno pra catar um foguinho e trazer pra cima, pra satisfazer luz.

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Então eu estava sem saber o que escrever no blog, então pesquisei sobre aquelas bonecas real dolls, aquelas bonecas belíssimas, que parecem de verdade são bem feitas parecem até top models, daí eu pensei: “se uma mulher dessa viesse com dois defeitos terríveis: falar e pensar”, o cara abre a caixa, boneca inflável é um produto que não se devolve, está lá no direito do consumidor, não se pode devolver, tanto que em sua primeira tira, o cara abre a caixa e pensa “poxa por um preço módico uma mulher que não fala e pensar, quer sexo sem envolvimento”, ele fica feliz, e ele é verde e embolorado já cansado de todos os relacionamentos com as mulheres, que remete ao meu ex, e no fim ele abre a caixa e ela diz: “também não lavo, não passo, não cozinho e penduro calcinha no chuveiro”.

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Ela já chega com defeito de fabricação, e ele liga para o serviço de defesa do consumidor e tenta devolver a boneca, mas não consegue, a partir daí é que começam as tirinhas.

Se ela é a minha porta voz, ela é no que diz respeito naquilo que eu tinha falado agora, das conquistas da mulher e quando ela se sente traída pela própria conquista, ou seja, a gente acabou ganhando o direito de trabalhar feito homem ganhando a metade do que um homem ganha, a gente conseguiu ter dupla ou tripla jornada ganhando nada por isso, o que a gente conseguiu?

Eu sou a favor da “Amelyzação” da mulher, sou a favor do cavalheirismo do homem, não acho que pela independência da mulher o homem tenha que perder o cavalheirismo, essa bandeira realmente eu levanto com ela.

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Agora tem bobeiras que eu pego de casais que são amigos meus, fico ouvindo conversas nos botecos das pessoas, o meu próprio amoreco hoje me inspira muito hoje, ele me conta umas coisas, ai se eu fico triste eu peço para me dar uma idéia.

IHQ: As tiras de Amely já causaram alguma reação que você não esperava?
P.V.:
A reação que eu menos esperava. É assim você cria uma tirinha, você acha que é uma coisa tão descompromissada, você cria aquela coisa com o espírito tão leve, que de repente, eu recebo um e-mail de uma mulher falando assim aquela coisa que eu falei: “legal eu queria ter dito para o meu marido”.

Só que ai chega um e-mail gigante me dizendo a história da vida dela. Falando que ela apanhava do marido, que ele a agredia moralmente todos os dias, que ela lia a Amélia todos os dias, porque ali ela sentia um pouco livre, e me agradecia pelos segundos de humor que ela tinha enquanto mulher. Eu chorei quando li aquilo.

Olha aonde a coisa chega. Isso foi a coisa que mais me surpreendeu na carreira pelo menos com a Amely.

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IHQ: Como é o seu processo de produção para as tiras?
P.V.:
Hoje em dia eu trabalho em casa, tenho o meu notebook, não desenho na mão quase nada, quero dizer, no papel, eu faço direto no computador, tudo com uma tablet e a caneta.

A Amely, por exemplo, eu já a dividi em módulos, o que me facilita bastante os desenhos dela, eu tenho a carinha dela triste, brava e etc., assim como a Turma da Mônica, tem os módulos de mão fechada e mão aberta.

A Amely eu criei com a mão esquerda, eu só melhorei ela quando ela foi publicada no Publi Metro em São Paulo, eu fiz com a esquerda para relaxar mesmo de tanto que eu não aguentava mais desenhar mais para publicidade o que eles mandavam, eu precisava exorcizar a coisa.

Daí é assim, eu tenho hora pra entregar todo dia a tirinha, e não adianta, eu tenho que fazer a tirinha, eu não sei fazer esse processo, chega uma hora que ou você faz a tirinha ou você faz a tirinha. Ai tem dias que pego o notebook e vou trabalhar em outros lugares, quando estou cansada de trabalhar como meu uniforme que é pijama e pantufa em casa, eu vou para outros lugares para ver gente, escutar estórias horríveis e publicar no outro dia.

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IHQ: Algum projeto para lançar as tiras estreladas por Amely de maneira impressa no formato álbum?
P.V.: Esse ano eu estou bem determinada a isso. Quero fazer um álbum da Amely porque ela tem mais de 100 tiras, são quase quatro anos de publicação diária. Só que eu quero fazer algo bem voltado para mulher.

Eu quero ver se consigo o apoio da Maria da Penha para escrever sobre os direitos da mulher, de forma leve para que a Amely se meta no meio e faça alguma brincadeirinha, quero ver se consigo falar com o Drauzio Varella ou com algum outro médico sobre os exames que a mulher deve fazer anualmente.

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E já tenho confirmado o prefácio do Ziraldo, que é o cartunista mais machista que conheço, quero ver como ele vai dar o nó ali no prefácio. Gosto muito do Ziraldo por causa muito da versatilidade do trabalho dele. Ele vai de 8 a 80 agradando todo mundo, ele desenha o Menino Maluquinho ao mesmo tempo desenha o Mineirinho Come Quieto na Playboy, vai entender um cara desses, é um leque de possibilidades impressionantes, e o desenho dele desde de criança me dá água na boca, me dá vontade de amassar o papel e comer.11

IHQ: Você esperava a sua indicação ao Troféu HQMIX desse ano? Qual foi a sua reação quando soube?
P.V.:
Pois é, você sabia que eu não estava sabendo da indicação? Descobri via Orkut, eu tenho quase mil amigos no Orkut, mas eles são mais amigos da Amely do que meus.

Daí um cara lá de Maceió, disse que eu estava concorrendo ao HQMIX, concorrendo com o Laerte, Angeli, e etc., e eu nem liguei pensei que era brincadeira, ai no outro dia mandaram outro recado, daí que eu acessei a pagina do Troféu HQMIX indicado por melhor tira nacional.

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IHQ: O Paraná é considerado um pólo de quadrinistas, ilustradores, chargistas, desenhistas. Como são as reuniões do grupo? Vocês conversam sobre a produção, pretendem lançar álbuns?
P.V.:
A gente costuma se encontrar bastante, muitos são veteranos de guerra, então eles não bebem mais, graças a Deus, eles já ficaram internados muito tempo, então a nova geração dos trintas até que bebem bastante daí não há conversa que renda nada né!

Mas a gente pretende ter uma sede, eu já estou tentando mexer os pauzinhos com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pra ver se conseguimos uma Casa do Jornaleiro aqui, via Fundação Cultural, pra fazer um Centro Editorial de Charge e Cartum, e como gratificação nós daríamos palestras para faculdades, escolas, colégios, esse é o projeto.

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E sobre livros, o grupo já chegou a lançar algo juntos sim, cada um fez um Cartum e reunimos em um álbum, nós também já fizemos exposição coletiva em vários lugares do País, e o grupo se encontra quase toda semana.

E em Curitiba não é fácil, tem que ter muito amor, você está vendo o frio e a chuva, só por amor mesmo (risos).

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IHQ: O que os seus leitores podem esperar de novidades? Quais são os seus próximos projetos?
P.V.:
Estou com uns bichinhos chutando a minha cabeça pra nascer, ele já estão com nove meses. Só que antes eu preciso colocar o livro da Amely em prática, senão não vou parir os outros bichos.

Mas eles são bem legais, tem a ver com todo mundo, acho que eles terão uma identificação muito maior do que a própria Amely com todas as pessoas. São três personagens e tem a ver com depressão e alegria, mas de uma forma muita bem humorada.

Renato LebeauquadrinhosAmely,Cartum,cartunista,Charge,chargista,dezenhistas,hqmix,Pryscila Vieira,SextoyEstava uma tarde chuvosa e fria em Curitiba, mas parece que nem isso é capaz de tirar o humor de Pryscila Vieira, cartunista indicada ao Troféu HQMIX na categoria Melhor Tira Nacional com a personagem Amely, que preferiu marcar a entrevista em um café na região central da cidade...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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