A seguir a terceira parte da entrevista.
Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista.

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Pergunto a Philippe como ele descobriu que queria ser um artista, e como percebeu que essa era, por assim dizer, sua vocação.

“Bem, venho de uma família extremamente pobre, preferia ter vindo de uma rica. Eu comecei a trabalhar cedo, com 16 anos, mas sempre tive paixão pelo desenho. Cheguei a Espanha com um ano, e meu pai morreu quando eu tinha oito anos”, ele diz.

“Morei esses oito anos em Figueiras, antes de voltar da França, pois meu pai havia apoiado o nazismo durante a ocupação Francesa, era um dos colaboradores, não podíamos voltar. Figueiras é a cidade de Salvador Dalí, quando eu era pequeno desenhava e as pessoas me falavam “mais tarde você vai ser como o Salvador Dalí, um bom começo” (risos).

E a imagem sempre foi algo muito forte para mim, sempre teve um poder muito grande, a imagem tinha uma força muito grande sobre nós. As crianças de hoje estão o tempo todo na internet, em vídeo games, um desenho não diz muito a elas.

Nunca me esqueço dos dois primeiros filmes que vi e o poder de sua imagem sobre mim. Um deles foi “O Sepulcro Indiano” de Fritz Lang, outro, uma adaptação de Shakespeare que jamais consegui identificar. Essas imagens me deixaram impressionado. Fiquei fascinado com a idéia de desenhar algo.

Uma vez, quando eu tinha seis anos, na escola, misturaram minha classe com alunos mais velhos. Eu fiquei ao lado de um menino que tinha quinze ou dezesseis anos e esse rapaz, com uma folha de papel e um lápis começou a desenhar um porto, um barco, gaivotas e ondas.

Quando eu percebi que com um lápis um ser humano pode representar imagens, eu disse “É isso!”, e decidi que era isso que eu queria fazer, para outros pode ser a música, ou a escrita, mas para mim, foi isso.

Depois voltamos à Paris em 52, e eu fui para essas escolas horríveis do subúrbio, mas tinha isso na minha cabeça. A Espanha foi a primeira fecundação, foi uma formação da minha primeira infância, com uma fascinação pela imagem e depois pela imagem desenhada.

Também fiz teatro mais tarde, quando era adolescente, eu queria ser ator, mas tive que escolher e larguei o teatro. Com 16 anos eu trabalhava como fotógrafo, mas sempre li quadrinhos. Tínhamos os quadrinhos Americanos, os Belgas, e os quadrinhos Franceses, claro. Já nos anos 60 nós percebíamos que algo deveria ser feito para reinventar os quadrinhos Franceses.

Antes de 1968 as coisas eram muito difíceis, o país era subdesenvolvido culturalmente, hoje em dia chamamos isso de país emergente, você sabe muito bem disso, pois vem da América do Sul.
Portanto a Espanha é a primera marca, com a marca de Dalí, a primeira emoção com cinema, e a percepção com esse menino de 14 anos que desenhou e me marcou.

Essa vontade de mudar aparece mais fortemente nos anos 70, ela vinha de uma mistura das HQs Underground Americanas (Crumb, Corben, Vaughn Bode, Gilbert Shelton) da música pop e do cinema. Minha escola foi a literatura americana, Lovecraft…. O cinema Expressionista Alemão, Caligari, Nosferatu… Eu ia muito aos museus e ao cinema, e pensamos que poderíamos misturar tudo isso.

Como eu era pobre, essas foram as impressões de um homem jovem, que estava começando na vida, tinha uma fome enorme por cultura, mas não tive escola ou formação formal e tive que me ensinar as coisas. Na arte nada se cria, apenas nos atualizamos.

Nos inspiramos no mundo em que vivemos, e o atualizamos. GustaveDoré e Goya, Bosch, Bacon, me inspiraram muito, todo cinema fantástico. Os reis magos que eu tinha em cima do meu berço eram Drácula, Frankenstein e o Lobisomem (risos). Comecei a trabalhar juntando toda essa cultura. Lia Lovecraft e isso me fascinou muito, assim como Michael Moorcock. Comecei a desenhar muito cedo e muito mal, e olhando-se para os meus primeiros desenhos é possível ver que eu era louco”

Druillet levanta-se e pega seu primeiro álbum, “Le mystere dês abimes”, a aventura inaugural de LoneSloane.
“Não é bom, mas da para ver que eu era insano” ele diz, rindo.

“Eu tinha 20 anos e tive um percurso antes de 1968, onde já tinha feito muita coisa, mas antes de 68 tudo que fiz nenhum editor queria tocar. Mas aí veio o milagre de 68, que minha geração fez, e o mundo editorial se abriu. E aí pude fazer a Metal Hurlant com Moebius e Dionnet.

Pude fazer uma pesquisa do conhecimento, a aprender, eu ia ao Louvre, adorava a arte egípcia, e disso fiz uma mistura geral de literatura, pintura, cinema e livros. Eu tinha certeza que era possível fazer na França um novo tipo de quadrinhos. Os quadrinhos tinham que ter uma nova “miséenpage”, por assim dizer, e fico muito lisonjeado quando dizem que existe, nas Histórias em Quadrinhos Francesas, um “antes do Druillet” e um “depois do Druillet”, principalmente no que diz respeito a organização de elementos numa página de quadrinhos. Não é pretensão, está publicado por aí. Isso não me deixou mais rico mas me deixa muito feliz. (risos)

Eu sempre acreditei em pesquisar. É muito importante.

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,Philippe DruilletA seguir a terceira parte da entrevista. Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista. ______________________________________________________________ Pergunto a Philippe como ele descobriu que queria ser um artista, e como percebeu que essa era, por assim dizer, sua vocação. “Bem, venho de uma família extremamente pobre, preferia ter vindo de uma rica. Eu comecei...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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