A seguir a sexta parte da entrevista.

Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista.
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Pergunto então, como foi a produção de La Nuit, um de seus álbuns mais pesados e simbólicos.

“Eu sou um desenhista lírico, faço meus roteiros como se fossem partituras musicais. La Nuité a história da morte de minha mulher.Trabalhei dia e noite, escutando Doors, Stones e Jimi Hendrix, completamente drogado. Escutava ópera também.

Por isso em meus álbuns como Salammbôe La Nuit costumo citar minhas influências musicais. Isso é muito importante para mim. Foi um momento muito pesado para pois perdi minha primeira mulher, e eu achei que seria meu último álbum, pois era sobre o fim do relacionamento com a pessoa com a qual eu construí essa época da minha vida, e real. Os meus primeiros seis álbuns eram minha adolescência meu começo e ele para com a morte da pessoa com a qual transcrevi essa parte da minha vida, ente parei por alguns anos.

Só voltei com GAIL. La Nuit acabou se tornando um álbum Cult, pela primeira vez coloquei a idéia da morte em um álbum de quadrinhos, no mundo da banda desenhada, o que era impossível antes. Fiz um álbum totalmente destrutivo, que foi abraçado por “hardrockers”, quando o grupo de metal ProtonBurst fez a sua apresentação de La Nuit, com projeções do álbum, tocando músicas tiradas dele, e eu me vi cercado de 1500 cabeludos tatuados, cheios de pregos, olhei ao redor e pensei “Eu criei isso!” (risos).

Ver esses cabeludos era ver meu quadrinho vivo. Fiquei com eles a madrugada inteira, bem, se colhe o que se semeia (risos). Acho que é meu álbum mais importante, e eu sabia que havia um público para esse tipo de trabalho. Em 1976 quando o álbum foi lançado, não vendeu praticamente nada.

E eu me disse “estou perdido”. Mas no quinto mês, por motivos os quais eu nunca vou saber, o álbum começou a vender e vender e chegou perto de 500.000 exemplares. É um álbum difícil, duro de lidar com… Mas muitos pintores do século XVIII, XIX, escultores, músicos, passaram por muita dor e expressaram isso em sua arte.

E eu pensei “por que não fazer isso em uma história em quadrinhos?” e me disseram “você está louco, insensato, isso é horrível, não vai vender nada” e foi uma explosão total. Eu estava falando de uma verdade humana, de algo que me é essencial, e eu estava com grande sofrimento, mas transmutei minha dor, como numa alquimia, em algo positivo, uma homenagem a minha mulher perdida. E houve um eco em cima disso.

Eu estava em tal estágio de depressão e desespero que fiz uma reação violenta em relação a sociedade. Não era um ódio a morte definitiva. Os protagonistas de La Nuit são niilistas, drogados, vivem num mundo sem escapatória, é o que os SexPistols depois chamaram de No Future. De repente, escrevendo aquilo, me vi preso a realidade do horror. E daquilo tentei fazer algo, sublimar.

Queria mostrar que nascemos e vamos morrer, e que os personagens vivem em um mundo que não foi feito para eles. É um universo perdido. Fiz esse álbum quase sob hipnose, eu só trabalhava à noite, acordava no fim da tarde e o fazia, o fiz em um estado secundário. É o pior álbum da minha vida, mas ao mesmo tempo o mais poderoso. Me liguei a um tema que diz respeito a algo que afeta a todos nós, a morte.

Li artigos elogiando, e outros falando que era ruim, mas isso é parte do jogo. Tenho um amor profundo por esse livro já que ele representa a pessoa com quem construí minha primeira vida. Foi com ela que construí minha vida, meu começo, eu devia isso a ela. Foi como uma missão e eu fiz isso do meu jeito. Fiz ele como uma ópera trágica, um réquiem moderno. Ah, que bonito (risos)”

Ainda sobre os outros artistas da Hurlant: sua arte é carregada de sexo e violência. Trata-se de uma ficção científica contestadora, anti-clerical, carregada de cenas chocantes, ultrajantes, agressivas, desagradáveis e simbólicas. Quais são suas idéias de por que sua arte é deste jeito? O que você quer passar com isso?
“Prefiro o sexo (risos). Estávamos saindo de 68, havia uma necessidade de liberdade, e havia uma discussão na França sobre liberdade sexual, entre 68, 69, 70 até o começo dos anos 80. Sexo deve ser visto como uma coisa normal, tínhamos que falar disso. A violência é um caso à parte. Eu sou profundamente contra a violência, sou um pacifista total. Quando tenho problemas eu leio TinTin e isso me acalma (Risos).

Sou contra a violência mas tenho um tipo de energia que deve ser expressada, ainda bem que eu descobri a criação, o desenho, para poder viver na sociedade onde estou, tendo em vista minha origem no subúrbio, na pobreza, o caminho natural é que eu virasse mecânico, algo assim, ou caísse na delinqüência. Tive uma adolescência difícil, fui levado para postos de polícia e tudo mais.

Pra mim o quadrinho serviu como psicanálise, pude por o que sentia para fora, e com meu trabalho pude me posicionar na sociedade, ser ouvido pelos outros, ser recebido. Nesse sentido a violência de minhas imagens é uma maneira de expectorar algo e ser uma pessoa normal. É uma liberação de energia.

Por exemplo, voltando ao álbumLa Nuit, muitas pessoas que escrevem histórias de delinqüentes usam suásticas, eu, nunca. Em todo álbum eu coloquei caveiras, tatuagens, mas nunca quis colocar isso, mesmo em se tratando de algo de ficção, tenho uma rejeição total por isso. Minha violência em quadrinhos é violência mas ao mesmo tempo não é violência.

Já me disseram que meus álbuns são extremamente violentos, e é clichê dizer isso, mas quando eu assisto televisão à noite vejo uma violência muito pior do que dos meus álbuns. Eu conto histórias que se passam no futuro e no passado, se você vê a história grega ou a história romana, a idade média elas são repletas de cenas de violência.

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,Philippe DruilletA seguir a sexta parte da entrevista. Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista. ______________________________________________________________ Pergunto então, como foi a produção de La Nuit, um de seus álbuns mais pesados e simbólicos. “Eu sou um desenhista lírico, faço meus roteiros como se fossem partituras musicais. La Nuité a história da morte de minha...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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