A seguir a sétima parte da entrevista.

Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista.
______________________________________________________________

O trabalho de Druillet é tomado por imagens místicas, figuras religiosas profanas e deuses antigos. Tanto Yragael como Vuzz e LoneSloane são personagens cercados de simbolismos herméticos, as histórias populadas por “padres loucos” (Yragael) magos doentios, homossexuais e violentos (Vuzz) e deuses negros (LoneSloane). sua arte transmite uma sensação grandiosa, remetendo a símbolos místicos, magia, cabala, magia do caos. Ídolos enterrados no tempo ao lado de grandiosas e assustadoras estatuas povoam seus mundos, tomados por bárbaros e magos.

Eu já havia escutado que o próprio Druillet colocava o que Austin Osman Spare chamou de “sigils”, símbolos mágicos que devem ser carregados de poder através de rituais, em meio aos detalhes barrocos e complexos de seus quadros. Assim, a intenção do “sigil” iria se espalhar no inconsciente de quem lesse seus livros, tendo a magia carregada por centenas de milhares de leitores. Era hora de confirmar se o boato era verdade.

Pergunto a Druillet se ele tem alguma visão metafísica do mundo, se ele tem uma visão espiritual de sua existência e se já praticou magia, como tenho ouvido por rumores, há anos.

“Não sou religioso, ao menos não da maneira vista tradicionalmente. Não sou também contra a religião, mas sim contra os fanáticos, sejam eles católicos, judeus ou muçulmanos. Eu respeito as pessoas que tem uma crença, como algo pessoal, mas quando as pessoas tentam fazer disso um instrumento de poder, é terrível. Na Bíblia há uma frase que é terrível, “Crescei e multiplicai-vos”, isso quer dizer “O quão mais forte vocês forem, o quão maiores vocês forem, mais vocês irão destruir as outras religiões e os que forem diferentes de vocês”.

Agora, há um aspecto no meu trabalho que é sim místico e esotérico. Sobre Deus… sim, eu acho que houve algo, no começo. Não sei o que é, mas acredito em uma organização, ou um organizador.

Hoje em dia, pesquisadores cada vez mais avançam com a tecnologia moderna, e estão cada vez menos sectários do que eram há 20 ou 30 anos. Veja a física quântica. Eles pensam mais na questão do mistério. E esses pesquisadores ficam anos e anos estudando e acabam dizendo “Não é possível, tem algum filho da puta que inventou essa merda!” (risos) Então não é um imbecil com sua barba branca em cima de uma nuvem, mas acho que houve uma organização inicial. Essa é a minha crença. Não sou religioso.

Mas, se vou pra Roma, entro na São Pedro, eu vejo a Pietá de Michelangelo, que é uma escultura sublime e aí posso acreditar na mágica divina, pois aquilo é genial. Mas você vai na Catedral e aquilo parece um banco Suíço, é ouro para todos os lados, eles só querem se exibir, mostrar que são milionários, isso é arrogante, nisso eu não entro.

Eu sou um místico republicano, à francesa (risos). Há esoterismo no meu trabalho, mas é curioso, por que esse esoterismo vem de leituras que eu fiz, já fui chamado várias vezes não por seitas mas por organizações esotéricas, que me chamavam para se juntar a elas, por que encontravam em meus desenhos o que eles diziam ser códigos de uma pessoa que pesquisa nessa área, mas são desenhos que inventei de maneira totalmente inconsciente.

Eu sou, sem pretensão alguma, um herdeiro não dos pintores do XVIII, mas dos homens das cavernas das cavernas de Lascaux. Pra mim isso é a tomada direta, a humanidade nunca fez nada melhor do que aquilo, e eu no meu trabalho – e por isso retomo o que falamos sobre ficção cientifica e sobre explorar o futuro e o passado – eu não cortei a ligação (com os homens de Lascaux) de maneira inconsciente. Tenho a coisa implícita em mim e isso saí naturalmente em meu trabalho.

Eu não cortei esse fio. Todo esse trabalho inconsciente, talvez seja xamânico, eu não sei, eu tenho essa lembrança inconsciente em mim, não estou brincando, isso foi o que regeu e gerou todo o meu trabalho. Eu não cortei a ponte. Eu poderia ter sido um guru, não sei da onde isso vem, esse afinal é o mistério da vida, mesmo que você explique por que faz a mesma coisa há 20 ou 30 anos existe um mistério, eu crio mundos e não sei por que, algo sai e você fala “Merda! Como eu fiz isso?” e você não sabe. É surpreendente, é o inconsciente ancestral… Eu faço parte da “Guerra do fogo”, hahaha! (risos).

Eu faço parte de uma civilização judaico-cristã, e isso me influencia, claro. O Judaísmo é muito importante, tem símbolos, preceitos, códigos, uma noção milenar, mas estou mais para o lado Xamânico.

Quando começo a trabalhar, nunca começo frio, sempre bebo um pouco antes. Tenho algo cerimonial, que passa pelo álcool, não é durante horas, não fico bêbado, nada disso, mas tenho um ritual, coloco música e bebo, e aí entro no meu trabalho. Mas não posso começar a frio.

Preciso de um ritual para começar a trabalhar. Cada um se vira do seu jeito. Para me cortar totalmente e entrar em um mundo à parte, faço isso. Eu adoro o GustavMeyrink, o Golem, a palavra escrita dá vida a matéria inerte. Esoterismo sim, ciência cabalística sim, metafísica sim.”

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,Philippe DruilletA seguir a sétima parte da entrevista. Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista. ______________________________________________________________ O trabalho de Druillet é tomado por imagens místicas, figuras religiosas profanas e deuses antigos. Tanto Yragael como Vuzz e LoneSloane são personagens cercados de simbolismos herméticos, as histórias populadas por “padres loucos” (Yragael) magos doentios, homossexuais...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe