A seguir a quarta parte da entrevista.

Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista.

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O editor da minha primeira história se chamava Terre Vague, e foi o mesmo de Barbarella. Era um lançamento com tiragem limitada, para colecionadores, para uma elite, só para quem já conhecia. E eu queria fazer uma história em quadrinhos de qualidade, um trabalho em um suporte popular que fosse revolucionário.

Nessa época eu trabalhava na revista Pilote, que era líder de vendas. Vendíamos mais de 200 mil cópias por semana, e eu já desenhava. A gente era líder nas universidades, nas escolas, numa classe de 40 alunos tinham 4 que liam, e a revista passava pela classe inteira. Nós sabíamos, na época, que nós éramos lidos por entre 800 mil a um milhão de pessoas por semana.

“Culturalmente, antes de 68, a França era um país subdesenvolvido.”

Pergunto-lhe como foi conhecer a obra de Lovecraft, esse escritor norte americano que influencia tantas pessoas, não só autores, como Neil Gaiman e Alan Moore, como bandas e músicos.

“Eu tinha 14 anos quando descobri Lovecraft. Eu caí num mundo de maravilha, eu li tudo e tive o choque da minha vida. Era algo totalmente inacreditável. Conheci sua obra em livrarias, através de um grupo de pessoas que eram como que anarquistas, que gostavam de literatura fantástica, cinema e nós trocavamos informações, eles eram marginais, como as pessoas da resistance, mas agora isso se acabou.”

“Quando conheci Lovecraft foi como se uma porta se abrisse para mim” afirma Druillet.

Na França sou conhecido como o ilustrador Lovecraftiano por excelência. O universo dele me influenciou muito. Construi em cima dele o início de meu trabalho. Fiz 17 páginas do livro que ele inventou, oNecronomicon, o livro dos mortos de Alhazred, (livro imaginário com informações ocultas criado por Lovecraft, constantemente citado em suas histórias) nunca fiz mais do que isso e hoje em dia elas existem no mundo inteiro. Alguns filmes já as usaram como parte de sua abertura.

Quadrinhos americanos e italianos já as usaram. Ninguém mais sabe quem fez essas páginas, para elas é como se elas fossem o verdadeiro Necronomicon. Não me pagam os direitos…. Publicam como querem. Mas dois livros que estão sendo feitos sobre Lovecraft nos Estados Unidos agora me pediram permissão, mas tornou-se uma lenda, ninguém mais sabe quem fez, e eu acho isso extraordinário, uma aventura total.

Caiu em domínio publico praticamente. Na época eu queria fazer o Necronomicon completo, com 200 páginas, como uma enciclopédia, mas acabei só fazendo 17 e elas deram uma volta ao mundo! Eu vejo toda hora essas páginas saindo em algum lugar ou outro, todos falam “É isso que é o Necronomicon”. Lovecraft para mim foi um mestre. Como pessoa não era muito interessante, paranóico, maluquinho e racista, mas sua obra é magnífica, e devemos separar o autor da obra. O que importa é a obra, está claro.

Entrei nisso, me abriu portas. Seu melhor livro é Démonsetmerveilles. Até hoje me volto as obras dele, e acho que alguns textos envelheceram, mas como um todo é uma obra-prima. Quando se tem 14, 15 anos e se cai em cima de algo como isso, o horror das obras de Lovecraft, você tem duas soluções: ou você acha horrível e foge, ou se apaixona, abraça esse tipo de arte. Inesquecível. Lovecraft era estranho, se parecia com seus personagens, tinha as orelhas grandes (risadas). ”.

Lhe conto que senti a mesma coisa quando entrei em contato com a sua arte, que minha mãe achou seus livros horríveis, mas que eu decidi que iria adorar aquilo.

“Felizmente hoje tenho um público que gosta do meu trabalho, e ainda bem que há gente que odeia, que é normal, e há quem adore, ainda há gente que abre os meus álbuns e acha horrível, e isso é bom, importante, se não estávamos na União Soviética sob Stalin”.

Pergunto a Druillet por que suas histórias sempre lidam com o fantástico. Às vezes elas estão no futuro, às vezes no passado, mas raramente se passam nos dias de hoje. Por que a ficção científica e o fantástico?

“Bem, duas coisas. O fantástico é a definição de uma história pessoal. Alguém como Lovecraft é um exemplo típico disso, alguém que tem problemas pessoais e acaba criando um mundo para viver em. Já a ficção científica é a história de sociedades.

O que me interessa na ficção científica é que ela é a única literatura que eu conheci, mesmo com a literatura de Balzac, Zolá, e outros, a ficção científica é a única que engloba em seu espírito o passado o presente e o futuro. Não existe outra literatura que expresse isso. Eu faço ficção científica, do meu jeito, mas é ficção científica.

Não há outro gênero que misture passado, presente e futuro em algo único. As minhas histórias de LoneSloane se passam no futuro, mas alguns aspectos delas poderiam estar no passado. Eu joguei Salammbô para o futuro, Vuzz já é um personagem atemporal, tirado do expressionismo. E a ficção científica tem sua aceitação. O passado é a base para eu construir o futuro no meu trabalho. Isso é claro.

O último álbum de LoneSloane, Chaos, foi o sobre o qual eu pensei “Que merda, será que alguém vai se importar que Druillet está fazendo um novo álbum?” e sim, o álbum vendeu muito bem, com um publico majoritariamente novo, de uma nova geração, 25 a 30% das vendas foi par leitores de uma idade entre 15 e 16 anos. Meu trabalho não envelheceu.

Não vendo apenas para o público que me acompanha desde os anos 60. E por isso mesmo trabalho com a animação 3D, com arquitetura, com design de móveis. Sempre tive um trabalho precursor nessa área. O passado representa, para mim, a aquisição do conhecimento, mas meu trabalho olha para o futuro. No momento estou preparando um livro, mas não sei se ele vai virar um álbum, onde abordo o fanatismo religioso.

Portanto, mesmo sob a ficção científica, com elementos fantásticos, não escapamos da realidade, que usarei neste livro. A minha ficção científica observa o presente. Nos anos 70 escrevi uma história publicada que tinha um seqüestro. Seis meses depois hoje um famoso seqüestro na Europa, em Munique.

A ficção científica é uma escolha estética e filosófica, que lhe permite falar sobre sua época e levá-lo ao futuro. Julio Verne foi um precursor e exemplo disso. Não é um refugio de passeio, é uma realidade sobre a criatividade que o mundo no qual você vive lhe dá. É uma interpretação do mundo no qual você vive. Isso é muito importante, é assim que eu considero. Se eu conseguir terminar esse próximo álbum, que será sobre o fanatismo político e religioso, irei colocá-lo num contexto de ficção científica.

Mesmo trabalhando com ficção científica, estamos sempre presos à realidade. O papel do artista, sem pretensão, é de ir mais longe prever o futuro de sua sociedade, estar adiantado, à frente de sua época, muito importante. Ainda mais no domínio da ficção científica. É isso que eu tento fazer. Escritores que utilizaram o fantástico como Borges e H.G. Wells, que escreveu A Guerra dos Mundos, são de uma modernidade total, tendo Wells escrito também textos políticos. Ele era um socialista ferrenho, engajado, progressista, muito articulado. Entre os anos de 1890 a 1920 ele realizou coisas surpreendentes.

O personagem de Sloane vem de um romance bem especifico, dos anos 30, que é de uma modernidade absoluta, o livro é Shambleau, de Catherine Moore, uma ficção científica de uma modernidade total, ela criou um personagem chamado Northwest Smith, li isso ao mesmo tempo que li Lovecraft, e Sloane vem dele. Depois criei. Sempre tive raízes, literárias ou cinemáticas.”

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,Philippe DruilletA seguir a quarta parte da entrevista. Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista. ______________________________________________________________ O editor da minha primeira história se chamava Terre Vague, e foi o mesmo de Barbarella. Era um lançamento com tiragem limitada, para colecionadores, para uma elite, só para quem já conhecia. E eu queria fazer uma...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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