É com grande orgulho que a equipe do Impulso Hq publica esse post.

Essa edição da entrevista na íntegra é EXCLUSIVIDADE, online, no Impulso HQ, mas parte dela já saiu no + SOMA.

Eu agradeço imensamente a Joaquim Ghirotti, que fez a entrevista e disponibilizou-a para o blog.

Na entrevista com Philippe Druillet, um dos maiores quadrinhistas Franceses vivos, o leitor poderá saber mais sobre esse grande artista, que é um dos ícones da Revista Heavy Metal, e como está a sua atual produção.

Eu dividi a entrevistas em partes, devido ao material ser de grande qualidade, e ter fotos do ateliê e de algumas obras.

Para entrar em contato com Joquim Ghirotti entre em contato pelo e-mail ou acessem o blog.

Então sem mais delongas fiquem com a entrevista na íntegra.

Entrevista – Primeira Parte

Agradecimentos especiais a Camila Caligari e Pierre de Kerchove no seu indispensável auxílio na realização dessa entrevista. Muito obrigado!

Philippe Druillet é um dos mais importantes quadrinhistas Franceses vivos, mas curiosamente sua carreira é alvo de pouco destaque fora da França.

Junto com Moebius e Jean-Pierre Dionnet, Druillet fundou a revista METAL HURLANT em 1975. A revista foi levada dois anos depois para os Estados Unidos com o nome de Heavy Metal, chegando inclusive a ter uma edição Brasileira, que durou alguns anos.

O exercício feito por esses franceses levou ao surgimento de toda uma geração de quadrinhos feitos para adultos, que se espalhou pelo mundo, misturando-se ao Underground Norte Americano e resultando em revistas como EPIC, 1984, FANTAGOR, FEVER DREAM, ANDROMEDA, SKULL, SLOW DEATH e muitas outras.

No Brasil, tivemos publicações como as revistas PORRADA, CIRCO, CHICLETE COM BANANA e ANIMAL que procuraram explorar exatamente o espírito iniciado pela Hurlant. É possível dizer que não teríamos o trabalho da editora Conrad, hoje em dia, exceção feita aos mangás, se não fosse por Druillet, Dionnet e Moebius.

Druillet é acima de tudo um artista multimídia. Fez séries de animação em 3D como Nosferatu e Xcalibur, vídeo games como Ring, baseado no ciclo dos anéis de Richard Wagner, desenha móveis objetos de decoração para os Bancos Benjamin e Edmond de Rothschild, de Lugano e Genébra. George Lucas lhe pediu pessoalmente que fizesse uma ilustração de um cartaz para Star Wars.

Fez desenhos animados e filmes, seu álbum La Nuit foi musicado e transformado em uma ópera rock pelo grupo ProtonBurst. Em 1985 fez o projeto do Metro La Villette, a pedido de Jack Lang, ministro da cultura.
E acima de tudo, Druillet publicou dezenas e dezenas de histórias em quadrinhos.

Mas ele sempre foi menos internacional, menos celebrado e requisitado do que Moebius, talvez seu irmão gêmeo “negativado”, no sentido de que Druillet é muito menos comercial e sua arte é mais específica, presa as suas próprias características e ao seu estilo, tão pessoal.

Se Moebius conseguiu fazer ilustrações do Surfista Prateado e outros heróis da Marvel, Druillet jamais demonstrou interesse por esse tipo de trabalho, imagino que jamais queira fazê-lo. Não condeno Moebius por trabalhar para a Marvel, adoro os quadrinhos da editora e acho louvável que Moebius tenha combinado seu estilo Europeu, extremamente pessoal e de certa forma sexual, violento e surreal, com os heróis Norte Americanos. Mas a arte de Druillet vai mais fundo na sexualidade, na violência e principalmente no surreal, no místico, no simbólico e no fantástico, temas comuns a ele e a Moebius.

É comum ver acusações a Druillet sobre o fato de que seus desenhos não respeitam as proporções da forma humana, mas é justamente a característica expressionista de seus trabalhos que chama à atenção.
Meu primeiro contato com sua obra se deu em 1988. Eu tinha onze anos, e estava na escola, mais precisamente no canto esquerdo da quadra de futebol, sentado com as pernas cruzadas, no intervalo, lendo a descrição de uma de suas criações mais curiosas num dicionário de quadrinhos Brasileiro dos anos 70, O Mundo dos Quadrinhos, escrito por Ionaldo A. Cavalcanti.

A descrição é do curioso personagem Vuzz:

“Vuzz é sem dúvida, a mais estranha de todas as histórias em quadrinhos, Vuzz foi extraído da série LoneSloane, de Phillip Druillet, em 1972..Druillet conta com poucas palavras (balões) e muito desenho, a saga de um monstro, a vagar entre vilas medievais e florestas fantasmagóricas, espalhando o terror. Vuzz, de cuja espada sempre escorre o sangue de indefesos, ataca, estupra, destrói, para depois matar a fome com cadáveres. É publicado em capítulos pela revista Phenix e em álbum, pela Dargaud.”
Ao lado, havia uma pequena ilustração de Vuzz.

Li isso quando tinha 11 anos de idade, e a descrição me causou uma impressão duradoura. Uma mistura de repulsa pela idéia absolutamente vil, degradante, violenta, escatológica e niilista que eu havia acabado de ler, mas uma profunda curiosidade, e uma grande vontade de ler algo mais.

Onde eu poderia ler aquilo, nos anos 80, no Brasil?

Como o próprio Druillet me disse, a arte do horror e do fantástico é a do tipo que quando você entra em contato com, algo deve acontecer: ou você rejeita aquilo, ou abraça com sua alma.
Escolhi abraçar.

O fato de que eu estava também descobrindo os filmes de horror, o punk rock e o heavy metal se combinaram ao poder da descrição que li neste livro. A idéia de uma história voltada aparentemente exclusivamente, para algo tão extremo e perturbador me chocou profundamente. Como podia alguém dedicar a sua arte apenas a sexo e violência? Claro, quando finalmente fui ler os álbuns de Vuzz, a coisa não era exatamente assim.

Vuzz é, segundo o próprio Druillet, muito inspirado no Expressionismo Alemão, que marcou o cinema silencioso germânico. Por isso à atenção aos cenários distorcidos, e talvez por isso mesmo a pequena quantidade de diálogos, apesar de essa não ser essencialmente uma característica expressionista, mas Vuzz tem muito de Caligari sim, e foi interessante ouvir isso da boca do criador do personagem, cerca de 20 anos depois de ter sido chocado pela primeira menção a ele, nesse livro que eu havia pego na biblioteca, ainda uma criança.

Provavelmente a mais importante criação de Druillet é a revista Metal Hurlant.

Segundo editorial do primeiro número da mesma, “No dia 19 de dezembro de 1974, as quatro horas da manhã, nos limites de Livry-Gargan e da floresta de Clichy enfim se reuniam Moebius, Druillet, Dionnet e Farkas, que à partir de agora iriam responder apenas pelo nome coletivo de Humanoides Associes.”

Dionnet passa a descrever cada um dos projetos do grupo, que inclui, é claro “Produzir, a cada três meses, uma revista em quadrinhos de ficção científica, espalhando suas fantasias pútridas nesta que você segura com suas mãos calejadas ou manicuradas”.

O fato é que Metal Hurlant foi efetivamente a primeira revista em quadrinhos que usou dessa mídia para fazer histórias para adultos, no ocidente. Por mais que falemos em Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman e tantos outros, os temas adultos, o questionamento político, a narrativa complexa e o foco exacerbado (mas com um objetivo) em sexo e violência, vem da Hurlant.

Nunca antes os quadrinhos ocidentais haviam sido usados em grande escala (exceção feita aos pioneiros dounderground norte americano, de poucos anos antes, que muito inspiraram os artistas da Hurlant) para se dirigir a adultos.

A revolução causada pelas histórias, fantasias delirantes, sexuais, agressivas, retratando com esmero técnico mundos distantes e deuses profanos, é pouquíssima apreciada fora da Europa continental, onde a Metal Hurlant foi publicada em edições diferentes de diversos países (Grécia, Alemanha, Espanha, Itália, etc).

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,METAL HURLANT,Philippe DruilletÉ com grande orgulho que a equipe do Impulso Hq publica esse post. Essa edição da entrevista na íntegra é EXCLUSIVIDADE, online, no Impulso HQ, mas parte dela já saiu no + SOMA. Eu agradeço imensamente a Joaquim Ghirotti, que fez a entrevista e disponibilizou-a para o blog. Na entrevista com Philippe...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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