A seguir a oitava parte da entrevista.

Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista.
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O que você acha de AleisterCrowley? Já praticou magia?

Druillet fica sério.

“Interessei-me, mas são seitas, eu conheço, é perigoso, você pode conhecer mulheres de outra maneira (risos).

É perigoso, muito perigoso. É outro mundo, é selvagem. Eu fui pego há 30 anos. Quando perdi minha esposa, quando fiz La Nuit fui um pouco longe nesse domínio, e para falar como uma criança, me dei conta que estava perdendo minha alma, e precisava voltar ao mundo humano, à realidade.

Se eu fosse muito longe, não estaria mais no meu mundo. Foram pesquisas muito difíceis, Lovecraft fala disso. Eu conheço pessoas em Paris, é verdade. Mas não, é muito perigoso… É totalmente desestabilizante nos planos social e criativo. O mundo é feito de coisas que vemos, com nossos olhos, e o outro mundo nós não vemos.

Os dois estão lado a lado. Não temos a chave para passar para o outro, não sei se a morte é uma chave, mas quando se entra nesse domínio, você irá sentir perigo. Eu pratiquei alguns rituais na época, que me trouxeram muitos problemas, você não controla; você é comido.

Você deve ter muita força e conhecer aquilo com o que lida à fundo para se proteger. Se você chama certas coisas, essas coisas podem não te largar. E para responder a pergunta efetivamente, em 1976, 77 eu fui muito longe nesse domínio. Mas parei, decidi voltar a realidade.

Alguns anos depois me casei com outra mulher e tivemos um filho, e abandonei esse tipo de pesquisa. Fui muito longe, muito longe.”

Qual é a sua experiência com drogas?

“Muito simples, para falar bem francamente, já tomei tudo que existe no planeta, com exceção de ácido, pois vi muitas pessoas se dando mal com isso, gente se jogando por janelas e coisas assim.

É curioso pois nos EUA eu sou considerado um desenhista psicodélico, mas com ácido não há controle. Heroína, cocaína… Eu adoro cocaína por que para trabalhar com ela é muito bom. A única coisa sobre esse universo é que se você for burro pode tomar todas as drogas do mundo e você vai continuar um idiota, drogas não te fazem ser mais, mas algumas drogas podem fazer você achar que é um gênio. Com a cocaína você tem uma noite branca e trabalha rápido, só que isso nunca deu talento a uma pessoa que não o tem.

Isso é claro, nítido e preciso. Já vi pessoas tomando ácido e fazendo trabalhos ruins, uma vez um vizinho marroquino me arrumou haxixe, fumei e fiquei olhando um fundo azul que eu havia pintado, era um fundo azul como vários outros que eu já pintei, mas por causa da droga eu estava achando aquele o fundo azul mais bonito que eu já havia feito na vida.

Depois acordei as cinco e meia da tarde e pensei “O que você fez seu idiota? Não fiz nada! Fiquei a noite inteira pintando um fundo azul, achando lindo” e quando fiquei sóbrio vi o que era, apenas um fundo azul. Para mim não é possível trabalhar com haxixe e maconha.”

Li que seu trabalho foi exposto no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1971. O que pode nos contar sobre essa experiência?

“Faz muito tempo. Eu expus sim, era um museu impecável. O que me fascinou foi a arquitetura de São Paulo, assim como na Argentina, dois prédios imensos e no meio uma casinha do século XIX, ainda existe isso lá? Uma loucura, uma cidade onde ninguém dorme, gente falando em todos os lugares.”

Você trabalhou desenhando móveis, fazendo projetos arquitetônicos, vídeo games, filmes, animações, jóias, quadrinhos, livros, fotografias, esculturas, quadros sendo enfim um artista multimídia. Sente que seu trabalho é algo único que sai através de diferentes expressões? O que cada uma dessas mídias permite a você expressar que é único a elas?

“Vou lhe fazer uma citação que não é pretensiosa. Michelangelo, Leonardo Da Vinci, faziam escultura, pintura…. não faziam cinema por que ele não existia, mas se existisse, fariam. Eu sempre considerei que um artista hoje em dia tem que se interessar por todas as tecnologias que existem e que estão à serviço da arte. O interessante é se renovar, caso contrario você irá se cansar. Eu trabalho com marcenaria, faço móveis, quando tenho minha tela uso acrílico, óleo, e quando tenho madeira posso esculpi-la.

O artista deve se adaptar a todos os tipos de tecnologia, e o computador é uma ferramenta imbecil, ele só funciona com o talento humano que venha e o faça funcionar. Eu ainda escuto artistas jovens dizendo besteiras como “o computador é a morte da ilustração”.

Não, é outro tipo de criação. Você precisa se abrir para isso. Por que primeiro, isso te enriquece, no plano criativo, e em segundo, pode, na sua vida de artista, abrir um setor a ser explorado. Isso te enriquece, se algo não funciona de uma maneira, pode funcionar em outra.

Quando eu faço pintura os quadrinhistas me xingam, quando faço pinturas os colecionadores de minhas pinturas reclamam, quando faço escultura, ambos reclamam (risos).

Isso aqui é resina (Druillet levanta uma escultura que está em sua mesa) aquele é bronze (aponta). Portanto tem pessoas que só querem que eu faça quadrinhos, e outras pessoas queriam que eu apenas pintasse, mas eu estou pesquisando, descobrindo, por isso não tenho um trabalho comum.

É um desejo de experimentar, de pesquisar, de se questionar, que é muito enriquecedor. Eu sou muito mais reconhecido do que rico.”

Renato LebeauHeavy Metal,Joaquim Ghirotti,Philippe DruilletA seguir a oitava parte da entrevista. Agradecimentos a Joaquim Ghirotti, realizador da entrevista. ______________________________________________________________ O que você acha de AleisterCrowley? Já praticou magia? Druillet fica sério. “Interessei-me, mas são seitas, eu conheço, é perigoso, você pode conhecer mulheres de outra maneira (risos). É perigoso, muito perigoso. É outro mundo, é selvagem. Eu fui pego...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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