A educação no Brasil é um dos temas mais discutidos da atualidade. Diariamente encontramos professores tentando inovar em suas aulas trazendo diversas propostas diferentes para tornar o ensino mais atrativo para os alunos. A Equipe do Impulso HQ, buscando sobre esses projetos, encontrou o “Ler Mangá na Escola”, de Maxwell da Silva Alves, professor de História no Estado do Rio de Janeiro. Convidamos o educador para uma entrevista, onde nos explica como funciona esta iniciativa e como podemos unir educação com quadrinhos e mangás.

Impulso HQ: Como começou o projeto?
Maxwell: Lendo um artigo da OCDE, através de um índice que mede o desenvolvimento da leitura e interpretação dos países ligados a ONU, verifiquei que o Brasil estava entre os últimos no ranking e isso me deixou muito incomodado. O setor da OCDE que define o letramento e leitura é o Pisa. Foi o relatório deles que li. Verifiquei que meus alunos e meus filhos gostavam muito de animes e mangás… Então decidi criar uma biblioteca de mangás na escola que trabalho do Município de Barra Mansa, Colégio Municipal Washington Luís.

A maioria dos leitores adquiriu este hábito quando crianças através dos HQs. Assim como eu! Resolvi então aproveitar o gosto que os alunos tinham pelos animes e resolvi apostar nos mangás e esta dando super certo!

Só que os preços dos mangás são super caros, então resolvi pedir doações. Através de uma amiga professora da mesma escola, Eliete Fonseca, que também é jornalista, ela fez uma matéria sobre o projeto em jornal online, então aproveitei a reportagem e comecei a pedir nos grupos do Facebook e muita gente gostou do projeto e resolveu doar. Inclusive esta professora hoje trabalha comigo no projeto. Neste ano, já temos registrado mais de 400 empréstimos de mangás. Inclusive para os alunos do primeiro ciclo do fundamental.

IHQ: Como os outros professores veem essa iniciativa? Resistência ou todos apoiam?
Max: Os professores apoiam sim, mas sabe como é que é, muitos trabalham em várias escolas e não têm tempo para estar conosco. A direção tem sido grande incentivadora e tem apoiado muito o projeto! As pessoas que se disponham à doar aqui no Rio de Janeiro, eu pego o meu carro e vou lá! Quando não posso, minha esposa ajuda. Quando é de outro estado, faço uma vaquinha entre os professores e pagamos o frete, mas alguns gostam tanto do projeto que se disponham a pagar o frete.

IHQ: Como funciona o projeto? É uma biblioteca, oficinas ou outras atividades?
Max: O projeto é composto da biblioteca, com as oficinas de história da cultura japonesa e desenho em mangá. Levamos pessoas para dar palestras sobre HQ’s ou algo ligado ao mundo mangá ou dos heróis de história em quadrinhos.

No mês de maio vamos levar um professor amigo meu da própria rede para falar de “Cultura Pop japonesa”. No final do ano teremos a culminância do projeto, onde teremos um evento cosplay na escola e queremos reunir alunos de outras escolas da rede também. O objetivo é incentivar o hábito da leitura, criar leitores e consequentemente melhorar a capacidade de interpretação.

Este mês uma mãe acompanhou um aluno do terceiro ano e nos relatou que a biblioteca o tem ajudado muito no processo de alfabetização e leitura. Segundo ela, o aluno fez dois anos de análise devido a dificuldade no letramento e principalmente leitura. Ele ficou tão empolgado com a biblioteca de ver os amiguinhos alugando, que decidiu alugar também e toda a semana ele pega emprestado um mangá e pede para os pais ler com ele as histórias. O seu desenvolvimento em sala, no aspecto da leitura tem melhorado bastante. Isso é que nós procuramos! Este é o objetivo do projeto!

IHQ: Quantos alunos aderiram ao projeto?
Max: Começamos o projeto no meio do ano passado e a escola não é grande. Temos mais ou menos cerca de duzentos alunos e acredito que temos 1/4 como leitores frequentes. Vamos divulgar mais o projeto, pois existem alunos que não conhecem os personagens mangás e queremos tentar alcançá-los.

IHQ: Tem algum título que vocês preferem entregar para os que começam no projeto ou é mais questão da escolha própria do aluno?
Max: Nós trabalhamos por faixa etária, pois há mangás muito violentos. Para o primeiro ciclo do fundamental, liberamos Dragon Ball, Naruto, Sakura Card Captors e outros nessa linha. Para os alunos do 6º ano em diante, liberamos outros, mas sempre dentro da faixa etária. O aluno escolhe, mas aí passa pelo nosso crivo na hora de liberar o aluguel. Existem mangás que o critério de faixa etária é muito estranho.

IHQ: Quais, por exemplo?
Max: Por exemplo, Death Note, a faixa etária é de 18 anos e não vejo nada demais para emprestar para alunos de 14 ou 15 anos. Temos na escola alunos de EJA com 16 e 17 que emprestamos. O nosso critério é sempre o que indica a editora, no caso do Death Note, por eu conhecer o mangá, liberamos para maiores de 16 anos.

IHQ: O fato da leitura ser oriental atrapalha os alunos que tem dificuldades na escrita, por exemplo, escrever espelhado?
Max: Não. Eles até acham muito interessante e diferente. É até um atrativo.

IHQ: Quais os planos de expansão do projeto? Tem alguma outra oficina que você queira trazer?
Max: Por enquanto estamos em poucos no projeto. Ano passado era somente eu e só tínhamos as avaliações e a biblioteca. Este ano incluímos as oficinas que abrange principalmente os alunos do primeiro ciclo do fundamental, os convidados que vamos levar no decorrer do ano e o evento cosplay como culminância. A questão é pessoas dispostas a trabalhar. Por enquanto temos poucas.

IHQ: Os alunos preferem mangás ou quadrinhos de heróis, como Marvel e DC?
Max: A maioria prefere mangás, mas tenho também alunos que procuram por heróis da DC e Marvel. Pelo que acompanho, isto está ligado à questão de hegemonia político-econômica. Os Estados Unidos neste quesito estão perdendo espaço e consequentemente isso vai resvalar na questão cultural. Para você ter uma ideia, minha esposa e filha não assistem novelas da Globo, estão assistindo Doramas, que são novelas sul-coreanas. Tenho uma vizinha que também assiste Doramas.

IHQ: Qual a sua opinião sobre o preconceito que as HQ’s e os mangás tem em relação a chamada “literatura clássica”?
Max: Não acho correto ter esta perspectiva. Claro que é cultura! Lembrando que o conceito de herói é um conceito clássico, grego. Tenho um amigo que é professor na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, onde ele criou um núcleo de estudos sobre HQ.

***
Maxwell da Silva Alves é um exemplo. Com o seu projeto de iniciativa popular que investe na educação dos alunos, ele prova que ideias e vontade não faltam para apoiar o crescimento e fortalecimento da educação, inclusive, por meio da cultura pop. O professor deixou um recado para os nosso leitores e outros professores:

“Meu intuito é que mais projetos surjam como este e em outras áreas, pois a educação pública está tão sucateada e desmoralizada que, esperarmos de iniciativas governamentais, as coisas não irão acontecer. Precisamos de mais projetos que colaborem com a educação pública.”

Caso alguém ficou interessado no projeto e quiser fazer doações, deve encaminhar os mangás e quadrinhos para:

Maxwell da Silva Alves
Rua Corina dos Santos. S/N, Bairro: Bom Pastor, CEP. 27313220 Barra Mansa.
Ou
Rua Fernanda Isabelli, 52, Bairro: Luz, CEP. 26256060, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.
Mais informações no e-mail [email protected].

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/04/ler-mangá-na-escola-3.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/04/ler-mangá-na-escola-3-150x150.jpgMatheus ZucaentrevistasquadrinhosLer Mangá na Escola,mangá,Maxwell da Silva AlvesA educação no Brasil é um dos temas mais discutidos da atualidade. Diariamente encontramos professores tentando inovar em suas aulas trazendo diversas propostas diferentes para tornar o ensino mais atrativo para os alunos. A Equipe do Impulso HQ, buscando sobre esses projetos, encontrou o “Ler Mangá na Escola”, de...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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