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Lorena Kaz

O post de agora também poderia se chamar “Relato de uma amadora brasileira na Sérvia”, como a própria Lorena Kaz, ou simplesmente Lokaz, descreve.

Para quem não sabe Lokaz mantém um site blog aonde posta as suas tiras, baseadas em situações do seu cotidiano, e as suas tiras também já foram publicadas na revista independente Subversos três vezes.

Mas quem acha que a quadrinhista tem apenas essas experiências com quadrinhos se engana. Lokaz que atualmente mora no Rio de Janeiro, já teve passagens pelos E.U.A, Equador, Índia, Espanha e Sérvia, é a esse último país que iremos direcionar a entrevista!

A quadrinhista inicia a entrevista com um breve histórico da Sérvia para entendermos os temas recorrente nas HQs Sérvias:

Lokaz: A Sérvia é um país situado no leste europeu, considerado o estado sucessor da republica federal da Iugoslávia.

A Iugoslávia foi uma união de diversas repúblicas que durou a maior parte do século XX e começou se dissolver em 1991, pois as repúblicas que a formavam começaram a declarar suas independências.

Em 2006 as últimas duas repúblicas (Sérvia e Montenegro) que, então, formavam a república federal da Iugoslávia, se separaram. Em fevereiro de 2008, a província do Kosovo, ao sul da Sérvia, declarou sua independência unilateral, mas a Sérvia ainda não a reconhece.

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Prédio destruido na Sérvia

O cenário atual da Sérvia é de conflitos, tradicionalismo, disputa de territórios e intolerância religiosa no sul, envolvendo o Kosovo, enquanto o norte é menos tradicional e mais europeizado, vive em paz e aspira à entrada na união européia.

Posso dizer que para a sociedade Sérvia em geral (e não para as pessoas que vivem em regiões de conflito no sul) o fato mais marcante de sua história foram os bombardeios da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 1998*, digo isso porque, toda a população da Sérvia que tem hoje pelo menos 15 anos de idade vivenciou pessoalmente os medos da guerra, os bombardeios aéreos, a experiência dos bunkers, a falta de comida e a restrição de bens em geral.

*Em 1998 os albaneses do Kosovo fizeram um movimento de separação da Iugoslávia e foram violentamente repreendidos pelo exercito, esse conflito gerou um bombardeio liderado pela OTAN que causou grandes destruições a Iugoslávia. Desde então o Kosovo foi administrado pela ONU.

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Sendo assim, o tema da guerra e dos bombardeios é recorrente nas estórias em quadrinhos Sérvias. Creio que, para alguns, as estórias em quadrinhos foram um meio de relatar para o mundo como se vivia na Sérvia ou de demonstrar tristeza pelas destruições em suas cidades.

Entre as estórias que li sobre o bombardeio da OTAN estão algumas estórias de Zograf, a pessoas que me apresentou aos quadrinhos Sérvios.

Quando li a estória de seu trabalho no site http://www.aleksandarzograf.com/ tive a impressão de que foi justamente seu relato sobre a vida na Sérvia durante os bombardeios da OTAN que chamaram a atenção internacional e o ajudaram a fazer sua fama em vários paises da Europa.

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Lokaz no meio de trabalhadores fazendo asfalto (umas daquelas “situacoes engracadas/interessantes” de viagem)

Enquanto estive na Sérvia tive a oportunidade de ver uma publicação que continha uma estória que Zograf fizera em forma de diário na época dos bombardeios da OTAN.

Não vejo o tema da guerra como sendo político, até porque, devido à delicada situação de intolerância política e religiosa na Sérvia acho que os quadrinhistas evitam ao máximo defender seu ponto de vista e não falam da situação ímpar da Sérvia em relação aos presos e procurados políticos de 1998.

Acho que a guerra, para eles, entra no tema cotidiano e das experiências pessoais, há muita crítica social e outros temas recorrentes são amor e a família, que tem muita importância, sendo a ainda a base da sociedade Sérvia.

IHQ: Como você chegou até os quadrinhos na servia?
Lokaz:
Eu estava morando em Madrid, na Espanha, entre 2007 e 2008. Tinha um namorado Sérvio que conheci na época que estava vivendo na Índia em 2006.

Estava pensando em ir morar  com ele na Sérvia mas não tinha contatos de trabalho por lá. Um dia, conversando com uma amiga brasileira que também morava em Madrid ela me disse que seu marido tinha um conhecido Sérvio da área de quadrinhos.

O marido dela é um estudioso dos desenhos animados da Disney World e conhecia um quadrinista famoso na Sérvia chamado Aleksandar Zograf. Agradeci o contato do Zograf e imaginei que seria muita sorte se ele tivesse tempo e se desse ao trabalho de me responder.

Sendo assim contactei Zograf, ele me respondeu todas as vezes em que lhe escrevi, foi muito amável e solícito, me pareceu uma pessoa muito humilde.

Me contou que tinha um projeto chamado “Kuhinja” (que significa “cozinha”) onde todos desenhavam em conjunto (“todos” significava: cartunistas famosos, amadores, crianças e quem mais se interessasse) e me convidou à Pancevo (cidade onde ele mora, perto da capital, Belgrado), eu adorei a idéia, independente do que meu namorado dizia sobre Pancevo ser a cidade mais poluída da Sérvia.

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Lokaz no projeto Cozinha na Sérvia

IHQ: Como é o cenário de histórias quadrinhos na Sérvia? Existe algum mercado editorial ou a produção é independente?
Lokaz:
O cenário na Sérvia provavelmente se equivale em muitos aspectos à qualquer pais em desenvolvimento, há coisas mais importantes com o que se preocupar, quem pensa em popularizar os quadrinhos ou em publicar edições de qualidade enquanto não se tem comida nas prateleiras dos supermercados?

Falo de falta de comida nas prateleiras porque além de ter passado por conflitos, temos que pensar que a Iugoslávia foi uma federação comunista de 1946 a 1963 e socialista de 1963 a 1992.

E no socialismo era mais ou menos assim, não faltava o básico para ninguém mas também não tinha gente rica e não tinha nada de supérfluo.

Hoje em dia o mercado de quadrinhos na Sérvia é muito pequeno, a Sérvia também é muito pequena e não tem muito público para quadrinhos nacionais ou internacionais.
Os quadrinhos que se vê por lá são em maioria os europeus clássicos, os franceses famosos…Tintin, Asterix.

Também quando um quadrinhista Sérvio fica famoso começa a publicar na França, talvez na Alemanha, a Europa está, em todos os sentidos, mais perto do que a América do Norte.

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IHQ: Um dos grandes expoentes dos quadrinhos na Sérvia é Aleksandar Zograf. Qual o papel dele nos quadrinhos sérvios?
Lokaz:
O Zograf tem muitos amigos que fazem zines independentes e algumas vezes se arranjam pequenos patrocinadores ou editores para publicar os projetos. Sei que além do “cozinha” que é um projeto exclusivo do Zograf, tem um outro projeto chamado GRRR! Em que o Zograf participa e que consiste em edições ilustradas divulgando os trabalhos de quadrinhistas Sérvios e de outras nacionalidades também.

O Zograf tem muitos contatos no exterior e de Sérvios que foram morar fora, volta e meia eles fazem projetos em conjunto, estórias desenhadas em colaboração, de várias formas, um que está na Sérvia faz metade o outro em outro pais faz outra ou cada um faz um quadro da estória ou várias pessoas desenham simultaneamente ou fazem colaboração pela internet…

É incrível a infinidade de projetos diferentes e como Zograf e seus parceiros conseguem realiza-las. Mesmo o Zograf sendo super ocupado, publicando semanalmente em uma conceituada revista Sérvia e publicando livros em vários países, dando palestras, viajando, arranja tempo pra divulgar a produção nacional Sérvia, incentiva os novos artistas, faz os eventos em sua própria galeria (galeria Elektra, em Pancevo), banca as produções dos zines, organiza os eventos, chama a tv, publica nos jornais.

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IHQ: Como funcionam os projetos de Zograf?
Lokaz:
Quando cheguei à Sérvia fui para Pancevo participar da tal “cozinha”. O Zograf começou essa coisa de cozinha nos anos 80 na cozinha da casa dele, ele e amigos se juntavam pra cozinhar, comer e desenhar, muitos anos depois ele reativou o projeto e foi de um desses eventos que eu participei.

Foi um dia muito legal, estavam lá um grupo de sérvios, eu e um grupo da Áustria com uma convidada japonesa e outros ilustradores de lugares diferentes.

Ilustramos em conjunto um roteiro chamado “cascading comets” de Paul Scheerbart, que mais tarde veio a ser lançado na Sérvia e na Áustria. Vimos vídeo-animações de artistas locais e no fim do dia apresentamos nossa produção em forma de exposição, veio a TVentrevistar o Zograf e nosso evento saiu no jornal.

As produções da “cozinha” assim como outros projetos do Zograf são sempre documentados e publicados em forma de livrinhos ou zines.

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IHQ: Quais são as principais diferenças entre o nosso mercado de HQ para o mercado de quadrinhos na Sérvia?
Lokaz:
Tive a sorte de conhecer gente que estava empenhada em divulgar os quadrinhos na Sérvia, então vi bastante iniciativa independente, mas não encontrei esses quadrinhos nas livrarias, tudo era muito underground.

Também conheci gente interessada em divulgar os quadrinhos em Novi Sad, cidade onde eu morava, em editor em colaboração com uma escola de arte dava um curso de quadrinhos de graça para todos os interessados, tinha palestras, aulas práticas e teóricas.

Isso em uma cidade de 300.000 habilitantes me fez pensar que a Sérvia tem boas chances de crescer muito nessa área, talvez também, porque a população lê mais, pela proximidade com a Europa, onde os quadrinhos são mais valorizados e também pela vontade desinteressada de gente que se empenha para isso;

Me impressionaram as iniciativas que vi na Sérvia e como fui bem recebida, como tudo parecia tão fácil e simples e como as pessoas faziam e divulgavam os quadrinhos com amor.

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Lokaz no encontro de cartunistas no Rio de Janeiro em 2009

No Brasil vejo as pessoas sempre muito ocupadas, muita gente e muita disputa em todas as áreas, vejo também todas as iniciativas visando a questão financeira.

Estou tentando formar um grupo ao estilo cozinha, até agora não foi possivel, mas seria maravilhoso ter um núcleo no Rio como existe em Pancevo, um lugar para quem quisesse desenhar e um grupo legal de pessoas que o frequentassem…
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Claro que não poderíamos deixar a oportunidade e direcionar algumas entrevistas para a quadrinhista Lokaz:

IHQ: Você mantém o seu blog com tiras que são experiências suas correto?
Lokaz:
Sim, as tiras são baseadas na minha vida e em experiências que vivo ou que acontecem com meus conhecidos, as vezes retrato coisas que vejo na rua também…

Minhas tiras não são sobre minhas desilusões amorosas, muitas vezes eu falo disso, pois elas são em  uns 90% dos casos, situações que aconteceram comigo mesma.

Teve uma época que um ex terminou comigo e escrevi bastante sobre desilusões, teve uma época que morei na espanha dividindo a casa com 3 caras e eram sobre convivencia, outra época eu estava andando muito de patins e eram todas sobre patinação, também tenho muitas sobre música, amigos, sobre a sérvia , espanha e a índia.

IHQ: Você não sente algum receio por se expor?
Lokaz:
Eu não me sinto mal em retratar minha vida…Acho que estou muito acostumada a falar dela abertamente. Sei que tem pessoas mais tímidas e mais reservadas, sempre quando eu contava da minha vida na escola as amigas falavam pra eu não me expor tanto, mas sou assim, não me incomoda, gosto de falar do que acontece e em tudo o que penso.

O que talvez tenha aprendido um pouco com o tempo é em prestar atenção com quem falo e talvez maneirar um pouco, dependendo da pessoa.

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Lokaz desenha ela mesma

IHQ: Alguma vez você já teve algum problema por publicar as suas tiras?
Lokaz:
Nunca tive problemas, no começo tive um pouquinho de medo que alguns amigos da Espanha se reconhecessem, até porque, mesmo querendo mudar a cara das pessoas, as vezes não consigo e retrato elas como são. Hehe. Mesmo assim, ou meus amigos não viram ou simplesmente não se deram ao trabalho de comentar.

IHQ: Alguém próximo a você já pediu para retirar alguma?
Lokaz:
Não nunca, algumas pessoas vêem as tiras e perguntam se são elas lá retratadas, algumas vezes é sim, mas normalmente eu digo que não. As vezes pessoas que não estão retratadas também me perguntam se fiz a tira por causa delas, eu as chamo de egocêntricas (mas de brincadeirinha).

IHQ: Como você decide que momento desenhar e como sabe que aquela situação vai gerar uma tira?
Lokaz:
Normalmente se uma situação fica muito tempo na minha cabeça resolvo desenha-la. Se é uma divagação que persiste…gasto tempo imaginando situações ao redor daquilo e se alguma me parecer interessante para os outros ou comum à outras pessoas, resolvo desenhar.

Muitas vezes tenho idéias de tiras muito particulares sobre minha vida, se achar que não é uma idéia comum à outras pessoas, não desenho. Normalmente desenho situações que contamos na mesa com amigos onde sei que outras pessoas também acham graça.

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Lokaz na Índia

IHQ: Além das tiras onde você concentra a sua produção?
Lokaz:
Meu hobby são as tiras e as ilustrações artísticas que publico no www.lokaz-tirinhas.blogspot.com  e no www.lokaz-artes.blogspot.com .Fora esses blogs, trabalho ilustrando o site de neurociência http://www.cerebronosso.bio.br e como designer gráfica na GPS www.gpsdirecaografica.com.br

Na verdade também participo de outros blogs, www.tirasnacionais.blogspot, www.tiranduma.blogspot, www.artafacta.org…

IHQ: Você está preparando outra viajem para conhecer mais sobre os quadrinhos no exterior?
Lokaz:
Hahaha adoraria! Mas por enquanto não tenho nada em vista…Tenho muita vontade de voltar para a Sérvia, mas tem tantos países na fila de espera!

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