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Está confirmado para o mês de dezembro o lançamento de Yeshuah – assim em cima assim embaixo, com roteiro e desenhos de Laudo Ferreira Junior e arte-final de Omar Viñole, pela Devir.

O lançamento que será o próximo dia 04 de Dezembro na Livraria HQ Mix aqui em São Paulo, confirma os planos da editora de lançar o álbum para esse ano de acordo com Douglas Quintas Reis, diretor editorial da Devir, como dito para o Impulso HQ (confira essa entrevista aqui).

Yeshuah (palavra hebraica que significa salvação) é um projeto que Laudo desenvolve nos últimos 9 anos que ao todo serão aproximadamente 500 páginas divididas em três volumes, conta a história de Jesus Cristo dentro de uma visão pessoal do quadrinhista.

Durante a entrevista Laudo fala sobre a mudança de editora, a dificuldade em produzir um álbum por quase dez anos, se ele tem receio de provocar alguma polêmica ao retratar a sua visão pessoal de Cristo, como foi a construção gráfica dos personagens e muito mais.

E o quadrinhista deixa o recado para os leitores:

“Espero que o carinho e a sinceridade com que fiz “Yeshuah- assim em cima assim em baixo” se estenda aos leitores, obviamente, nessa edição e nas futuras duas próximas. Há reflexão ali, mas há entretenimento. E se divertir é também uma iluminação”.

Laudo Ferreira Jr.

Entrevista:

Impulso HQ: O álbum originalmente iria ser publicado pela editora HQM e agora será pela Devir, por que dessa mudança?
Laudo Ferreira Jr.:
Quanto conversei pela primeira vez com o Carlos da HQM tivemos um bom entrosamento à respeito da publicação, isso há mais de um ano atrás. Porém com o passar do tempo, creio que houve uma falta de comunicação entre a gente e acredito que na editora houve um período que passou por um reestruturamento, tudo isso acarretou uma falta de comunicação maior o que ocasionou minha mudança de casa, digamos assim.

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IHQ: Você tem uma história bem longa com o álbum, foram anos de pesquisa e estudos (quase 10 anos certo?). O que não te fez desistir do álbum?
L.F.:
Comecei a fazer meus primeiros estudos, tanto de desenho quanto em livros a serem pesquisados logo após eu ter lançado “Subversivos: companheiro Germano” isso em 2.000. Li muita coisa e de vários seguimentos. Conversei com alguns estudiosos, filósofos (um deles, a Júlia Bárány prefaciou esta edição) e essa soma de vertentes, digamos assim, só solidificou coisas que já tinha em mente sobre o assunto.

Quanto comecei a desenhar a HQ tinha a certeza que não colocaria barreiras em situações desenvolvidas e assim foi e assim ainda é, pois atualmente trabalho na última parte. Um dos pontos centrais do processo criativo foi que estava produzindo algo em que expunha completamente a minha verdade tanto na parte gráfica, como disse, não impondo barreiras, pois elas às vezes inconscientemente existem, como também no roteiro.

Há uma idéia sobre a questão humana e “espiritual” que permeia toda a saga sem grandiloquências intelectulóides, mais simples, mas está lá. Com todo esse amor pelo trabalho vivo em mim, pude ter a certeza, ou fé, que é a mesma coisa, do que queria e quero para esse trabalho.

Por outro lado há uma longa, muito longa história de passagens dessa HQ por várias editoras e consequentemente de várias decepções, que obviamente muito ferem o lado criador, o lado artista. A maturidade e o “tempo de janela” me fizeram compreender tudo o que aconteceu é passado, o que vale é tocar adiante.

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IHQ: Relatar a vida de Jesus Cristo sob um outro olhar que foge da visão tradicional ocidental, não te causa algum receio de gerar alguma polêmica indesejada?
L.F.:
Não. Todos têm sua visão de Jesus, acreditando demais ou não acreditando. Não é a minha função nesse quadrinho bater contra tantos os crentes quanto os descrentes, pois se trata da minha visão sobre o assunto e consequentemente se não agradar, não posso fazer nada, pois não posso ir contra a minha verdade para agradar a verdade de alguns outros, crentes ou descrentes, como disse.

Já há algum tempo venho comentando em tom de ironia que “Yeshuah” não foi concebido para agradar os que gostam de chutar o pau da barraca e nem muito menos para os carolas de plantão. Cair na piada em cima de Jesus, ironiza-lo, debochar de sua figura, claro que atrás disso vem a questão igreja católica, é comum, já não atrai novidade.

Veja, recentemente foi feito um musical nos EUA (acho que é isso, não me recordo ao certo) onde mostravam Jesus como um transformista. Irônico. Para mim, nem tanto, Jesus já foi colocado até como usuário de maconha em um trabalho lançado há alguns anos atrás, portanto, como disse, polemizar sobre esse assunto não é novidade.

De certa forma, você acaba fazendo parte do “mesmo saco” que os demasiadamente crentes estão, aquela coisa óbvia, bem e o mal, está na mesma fornada.

Por outro lado, dizer “não acredito em Jesus ou Deus…” não importa, isso não vai acrescentar nada hoje em dia. Tanto um quanto o outro são complementos. Você não precisa ser “temente a Deus” para fazer o bem, já que ao longo da história da humanidade muita coisa ruim foi feita em nome dele. Portanto, crer ou não, é uma questão humana e a essência real, divina, está fora desse entendimentozinho “aclichezado”.

O “meu” Jesus nessa HQ, ou melhor, o meu Yeshu, é o herói dessa grande história, não pelo lado crente, religioso, mas pelo homem que entende, aceita sua transformação espiritual e o caminho a ser percorrido. Por outro lado ele é muito humano, pois só tendo esse entendimento é que se pode chegar a algum lugar.

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IHQ: Recentemente foi lançado Gênesis do Crumb que tem como proposta de se manter fiel ao que está escrito nos textos bíblicos e isso gerou certa repercussão. Qual é a proposta de Yeshuah? Quais textos você tomou como base?
L.F.:
A base de “Yeshuah” são os evangelhos canônicos, não quis “inventar” um “evangelho segundo Laudo”, nada disso. Sua mitologia, digamos assim, é por demais interessante e poderosa, só por aí já valeria contar sua história e a partir disso dar a minha reflexão sobre o que é contado.

Exemplo, nesse primeiro volume, que basicamente conta a história do nascimento de Jesus, Maria (ou Miriam na HQ) o concebe virgem como contam os evangelhos. Porém a partir desse fato, entra o meu pensar em como a personagem lida com esse mistério, por que disso? E o ápice ocorre justamente na seqüência em que sozinha numa gruta no meio do nada, questiona Deus (ou Adonai no hebraico) o por que da concepção fora dos padrões normais e o por que então de ter as terríveis dores do parto que a jogam num momento de completo pânico, ante o mistério divino e o mistério da vida que ali está chegando, se fazendo presente.

Em “assim em cima assim em baixo”, Maria/Miriam é a personagem central de história. O leitor irá acompanhar seu amadurecimento diante da vida, com e sem o mistério divino.

A proposta de “Yeshuah” é contar uma grande aventura espiritual e humana, independente de se preocupar se a mensagem é católica ou não. Antes de mais nada é uma aventura humana no divino e isso independente de religião. Os textos que tomei como base foram, conforme disse, papos com estudiosos do assunto, livros com textos apócrifos (e são muitos) que apontam na maioria, uma visão diferente de Jesus, às vezes bem humana, livros de pesquisas, ensaios e conforme disse de vários seguimentos: islâmicos, budistas, hinduístas.

Estudei por mais de um ano a Cabalah com dois rabinos aqui de São Paulo e que muito me ajudou a ver sobre outra ótica alguns pontos. Por fim veio o Xamanismo, que trouxe uma visão definitiva sobre várias questões e mesmo que a princípio aparentemente não fazendo parte do universo da história, espiritualmente tem tudo a ver.

Curiosamente me aprofundei dentro do Xamanismo por buscas pessoais e que curiosamente acabei entendendo muita outras coisas que deveriam ser contadas nesse trabalho.

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IHQ: A obra completa é uma saga com cerca de 500 páginas que será dividida em três álbuns. Esse projeto se mantém? E até que ponto a história irá acompanhar os passos de Jesus?
L.F.:
Sim, aproximadamente isso. Veja que curioso, quando pensei a HQ em 2.000, originalmente imaginei uma edição única com 500 ou 600 páginas, porém logo mudei de idéia devido ao volume muito grande para uma HQ e isso, claro, tornaria a obra de um valor muito alto.

Em tempos de HQs como “Retalhos” e “Umbigo sem fundo” e mesmo “Cachalote” do Rafael Coutinho, percebe-se que os tempos são outros. Por outro lado dividi-la em três volumes a torna interessante.

No primeiro volume, temos histórias de nascimentos: vai inicialmente da história de Hanah, a mãe de Miriam/Maria e termina na seqüência do batismo de Yeshu e seu momento de descoberta, de revelação. O foco desse primeiro volume, conforme disse é a história da menina Miriam, de jovem virgem e predileta dos sacerdotes, passando pela provação de ter que vivenciar algo imposto e maior que seu entendimento.

Esse primeiro volume é feminino, digamos assim, e não há outra possibilidade, pois, conforme disse, fala de “nascimentos”. Na última parte ainda desse volume, cabe a Miriam de Magdala (ou Maria Madalena), uma seguidora do batista, ter a percepção daquele outro seguidor do batista, Yeshu, justamente no momento do seu “segundo nascimento”.

O segundo volume, que já está pronto, mostrará sua provação no deserto, onde confronta com seu ego, o grande inimigo de todos, muitas vezes o demônio pessoal, passando pela formação dos seguidores, a personalidade forte de muitos e pelas suas peregrinações aonde bate de frente com os conceitos enraizados de sua própria religião, até o incômodo que gera com os governantes da Palestina.

O terceiro volume basicamente mostrará todo o momento final de sua história. Importante dizer que não há uma intenção de perpetuar a questão do Jesus morrendo na cruz, mostrar uma agonia humana em quadrinhos, um Jesus sofredor, nada disso. Isso, óbvio é um ponto importante da saga, mas não o central. O que realmente fica de tudo isso é o que vale.

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IHQ: O primeiro álbum tem um nome ligado à alquimia “Assim em cima assim em baixo”, o por que desse título? E quais serão os próximos?
L.F.:
Esse título é baseado numa máxima do Hermes Trismegistus: “o que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima” e faz parte do seu “A tábua de Esmeralda”. Um conceito profundo e simples por outro lado e de difícil aceitação e pratica do ser humano. Não é preciso buscar em lugar algum, em templo algum, em céu algum, em homem de barba branca algum. Tá tudo aqui dentro agora e sempre, basta aceitá-lo como algo seu irreversível.

A vida é algo divino, independente, falo novamente, de se crer em Deus ou não. O fato de uma mulher gerar uma nova vida dentro de si e ela crescer e gerar o seu próprio caminho e seu próprio amor, isso é divino. E isso é “de cima” e é “aqui de baixo”, é o “elevado” e o “terreno”. Tudo é uma coisa só. Pecar, não é uma questão “católica”, mas fazer algo que vai contra qualquer natureza divina é um pecado.

Há uma idéia para o segundo título que estou trabalhando e isso vou precisar parir logo, pois começo a montar o segundo volume breve. Já para a parte três há também um título pensado e que fecha o ciclo, porém tá cedo para falar disso.

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IHQ: Você escreveu e desenhou toda a história. Qual foi o mais difícil em todo esse processo de construção de personagem que já foram tão explorados graficamente e textualmente?
L.F.:
Existia uma visão definida de como seriam apresentados os cenários, personagens e figurinos. A idéia sempre foi tirar o glamour, digamos assim, de ilustrações religiosas e mesmo de muitos filmes. Algo mais verdadeiro e mais próximo do que pode ter sido.

Obviamente não dá para pensar na imagem de Jesus, loiro de olhos azuis, isso nem em sonho passou pela minha cabeça. Durante o processo de desenho dessa primeira parte, ainda na história do nascimento, algo que levei por volta de um ano pra fazer, estudei muito os vários tipos de rostos para Jesus e constatei o quanto à imagem do homem de barbas e cabelos longos está enraizado em nosso DNA. Difícil. Foram muitos rostos estudados, mas muitos mesmo.

Por fim, a base de algo que me agradou veio do filme “Evangelho segundo São Matheus” do Pasolini, de quem sou grande fã de sua obra. Embora não tenha feito em cima do Jesus que ele apresenta no filme, serviu como algo que definiu a idéia de como conceber o meu Jesus.

IHQ: Para finalizar, depois de Yeshuah, quais são os seus próximos projetos?
L.F.:
Bom, ainda devo levar um bom tempinho pra finalizar e lançar toda essa história. Mas o que vier depois provavelmente será diferente, e muito provavelmente não tão grande assim.

E mesmo que algumas questões que estão presentes nesse trabalho estejam presentes no próximo, com certeza o enredo, a história caminhará por outros lados. Mas está muito cedo para falar.
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O Impulso HQ agradece a Laudo Ferreira Jr. pela entrevista concedida.

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