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Antonio Krisnas,vulgo Antonio Carlos Gomes, é Carioca nato, nascido em 1948 no Rio de Janeiro, no dia de São João, cresceu no Largo do Machado, além de desenhista, é músico, programador visual, estudioso da Cultura Negra, rubronegro e salgueirense.

Após descocobrir o trabalho de Getúlio Delphin, iniciou sua carreira nas editoras Vecchi e Bloch, nessa última trabalha por mais de 10 anos.

Atualmente ainda produz quadrinhos, por exemplo o álbum Zumbi, tiras do Meenguito, um urubu torcedor fanático pelo Flamengo e toca baixo profissionalmente na banda do cantor Luiz Meodia.
Com vocês: Krisnas!

Rod Gonzalez: Como começou a curtir quadrinhos?
Krisnas:
Ainda pequeno, descobri alguns livros ilustrados pertencentes ao meu pai, de todos era “Carlos Magno e seus Cavaleiros”, o meu preferido, suas ilustrações seqüenciadas reproduziam a saga daquele rei francês e seus heróicos paladinos, numa Idade Média repleta de mistérios e magia.

Ficava horas rabiscando nos espaços vazios das páginas do livro, criando histórias e seqüências para aquelas aventuras. Creio que à partir daí comecei a curtir o desenho seqüenciado mesmo sem entender bem aquilo que mais tarde se transformaria na minha paixão pelos quadrinhos.

R.G.: Quando descobriu que tinha talento para o desenho?
Krisnas:
Essa descoberta começou cedo também, minha mais remota lembrança vem lá pelos idos de 1955, quando vi pela primeira vez as histórias em quadrinhos do “Fantasma” impressas em preto e branco num formatinho de bolso, tomei gosto pelo traço tosco e cru do desenhista Wilson McCoy, começando então à copiá-lo e à inserir algumas cenas nas minhas próprias histórias.

Mais tarde, a catarse aflorou quando assisti com meus pais a estréia do épico cinematográfico “Ben-Hur”, aquele melodrama me tocou de tal forma, que ao voltar para casa fui direto desenhar  seqüências do filme, aquelas que mais me impressionaram.

Afinal, estas historietas acabaram se tornando meu primeiro gibi e por tabela me fizeram entender que tinha talento para contar e desenhar histórias.

R.G.: Fez algum curso?
Krisnas:
Não, sou um autodidata renascentista, sempre estudando e me reciclando constantemente, devorando dezenas de publicações de arte, antenado com o mundo, procurando sempre que possível formar parcerias com meus amigos desenhistas.

Porém, meu maior aprendizado, foi ter o prazer e o privilégio de trabalhar e ser amigo de grandes mestres das HQs nacionais como Fortuna, Edmundo Rodrigues, Flávio Colin, Ivan Wasth Rodrigues, Alan Alex e o meu “Mad” amigo o Ota.

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R.G.: Qual seu primeiro trabalho publicado?
Krisnas:
Meu primeiro trabalho foi como roteirista no início dos anos 70, criando roteiros de quadrinhos para a revista “Sítio do Picapau Amarelo” da antiga Rio Gráfica Editora (hoje Editora Globo).

Minha estréia como desenhista foi com a história “Masmorra”, publicada em novembro de 1976, n`O Bicho nº 8, uma revista criada pelo cartunista Fortuna, um dos fundadores d`O Pasquim. A publicação era um veículo para que novos desenhistas mostrassem seus trabalhos, também  homenageando os grandes mestres.

O Bicho durou 9 números, mas deixou sua marca por sua postura, representando um libelo contra a repressão da época.

R.G.: Como entrou pra equipe da editora Bloch?
Krisnas:
Publicava histórias de terror para a Editora Vecchi, o editor era o Ota. Foi uma época extremamente criativa, após publicar algumas histórias comuns de terror, lancei a série “Mistérios da Scotland Yard”, contos policiais de suspense e mistério narrados por Sir Douglas Death, antigo inspetor chefe do Departamento de Casos Fantásticos da Scotland Yard. Lancei também uma trilogia sobre lobisomens dividida por épocas distintas :

• Passado : “O Lobo”, um drama de horror medieval
• Presente : “Sexto Sentido”, realismo fantástico narrando as peripécias de Rudi Cascalho, um malandro da Lapa nos anos 40 e seu encontro casual com alienígenas, uma amante mortal e um exu insatisfeito.
• Futuro : “Sêde” , ficção científica apocalíptica envolvendo mutações, misticismo e terror.

A Editora Vecchi ficava numa ruela esquecida no centro do Rio, era um prédio antigo, cinzento e meio sombrio. Ao se chegar na redação dos quadrinhos, o ambiente se iluminava pela agitação de tantos roteiristas e desenhistas produzindo idéias criativas, além, é claro, do humor sarcástico do Ota sempre cáustico em seus comentários.

Certa ocasião, fui apresentado ao Edmundo Rodrigues que colaborava com a revista, devo confidenciar que fiquei emocionado na ocasião, afinal, Edmundo era um dos meus ídolos de infância, o desenhista do clássico em HQ – “Jerônimo, O Herói do Sertão” e de tantas outras histórias e personagens.

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Semanas depois, Edmundo me convidou para conhecer o departamento de quadrinhos da Bloch, pois queria conversar à respeito dos meus roteiros.

Ao chegar ao imponente prédio da Editora Bloch na Praia do Russel, fiquei impactado… tudo ali era grandioso… parecia que naquele lugar se podia ousar qualquer coisa ! … Mas na realidade, as coisas não eram bem assim.

Edmundo era supercentrado e mantinha o universo dos quadrinhos Bloch sob estrito controle, seu planejamento era perfeito, sob sua direção os quadrinhos Bloch assumiram por anos uma liderança de vendas, pois, além de publicar alguns bons títulos da Marvel, publicava também títulos nacionais como : “Didi e os Trapalhões”, “Angélica”, “Drácula”, “Jerônimo, Herói do Sertão”,“Capitão Mistério”, “Lobisomem”, “Clássicos das Artes Marciais”, “Mestre Kim”, entre tantos.

Comecei na “Capitão Mistério” com a republicação do primeiro conto dos “Segredos da Scotland Yard” (publicada antes na Vecchi em p/b e na Bloch à cores)

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R.G.: Você conheceu o finado quadrinhista Bartolomeu Vaz? Ele me disse que trabalhou na Bloch também, e que um trabalho dele que seria publicado, um gibi com aventuras do super-herói brasileiro da TV, o Capitão Aza, chegou a ser produzido mas foi cancelado. Sabe algo dessa história?
Krisnas:
Lembro que foram cancelados dois gibis nacionais na Bloch, esse do Capitão Aza e outro dos Abas Largas, do Getúlio Delphin. Não conheci pessoalmente a maioria dos artistas que trabalhavam na Bloch, mas o Getúlio com certeza pode te falar melhor sobre isso.

Inclusive foi quando vi uma foto do Getúlio Delphin numa revista que tive a certeza que poderia trabalhar no mercado profissional: ele era o único negro que trabalhava com quadrinhos na época!

R.G.: Quais trabalhos você publicou?
Krisnas:
A lista é razoável. Dei continuidade à série “Segredos da Scotland Yard” e desta vez criava um storyboard à lápis e o editor escolhia um desenhista que se integrasse ao enredo, sendo assim tive o imenso prazer de ver minha hq artefinalizada por ninguém menos que Marcelo Gaú !

Criei em parceria com o Edmundo uma variante da série, contando as aventuras do intrépido Sargento York, uma espécie de discípulo de Douglas Death, nesta história tive como artefinalista o fantástico Alan Alex, meu amigo e parceiro até hoje!

Bom, foi mais ou menos assim…colaborei direto nas revistas “Capitão Mistério”, “Lobisomem”, “Clássicos das Artes Marciais” e “Mestre Kim”.

Me adaptei melhor às duas últimas citadas, aquilo vinha de encontro ao meu desejo de criar um universo para estas revistas. Acredito ter sido bem sucedido, pois pude criar histórias e personagens coadjuvantes marcantes.

Em “Mestre Kim”, comecei à criar uma origem para o herói (diga-se de passagem que a revista era na realidade uma homenagem de um dos diretores da Bloch ao seu instrutor de tae-kwon-do  …Mestre Kim !). Como nos quadrinhos podemos nos valer da “licença poética”, criei fatos na juventude do mestre que vieram acarretar no surgimento de figuras como Mestre Kong, amigo e ao mesmo tempo antagonista nas artes marciais, criei o seu arquiinimigo Mestre Sombra e como não poderia deixar de ser, inseri também um interesse romântico : a bela Pyong Yang, filha de Madame Púrpura a rainha do cartel de drogas em Hong Kong.

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Fiz surgir também outra bela mulher cruzando o caminho do herói, a capitã Surabaya Jane, comandante da Patrulha da Selva, numa aventura de Mestre Kim pelas selvas de Sumatra lutando contra os Selvagens Cães de Guerra, nestas histórias tive como arte finalistas os mestres Antonino Homobono Balieiro e Eugene Colonesse.

Na revista “Clássicos das Artes Marciais”, pude “viajar” na criação de um universo para as histórias de Bruce Ling, o personagem ícone da revista. Ao inserir novos personagens na trama, criei “As Feiticeiras Xaolin”!

Foi após um papo com Edmundo, onde conversávamos sobre filmes de artes marciais chineses, que surgiu a idéia de um culto secreto de sacerdotisas que praticavam artes marciais das trevas para combater o Mal, personificado pelo Conde Drácula, pai do nosso herói Bruce Ling! Estas histórias foram artefinalizadas pelo próprio Edmundo Rodrigues!

Nossa parceria rendeu frutos, pois em fins da década de 80, lançamos uma revista totalmente produzida por nós dentro do universo “Clássicos das Artes Marciais”.

Foi um inesperado sucesso de vendas! A revista “Space Ninja”, mostrava as aventuras do personagem-título:  Space Ninja, um super ciborgue, além de ilustrações de armas e golpes do Ninjutsu,  completando com um autêntico conto de artes marciais “Bushido, A Honra do Samurai”.

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Na seqüência, produzi o número seguinte da revista “Artes Marciais”, desta vez com os demais personagens daquele universo: Bruce Ling, Feiticeiras Xaolin, Bonzo Secreto, aquele com o poder do punho de pedra e o filosófico Velho da Montanha.
Bem, do que tenho registro aí vai:

Revista : “Clássicos das Artes Marciais”
Nº 2 – “Feiticeiras Xaolin” – 1987
Nº 3 – “Yakim : Os 3 Cavaleiros do Mal”
“Feiticeiras Xaolin : Vingança da Deusa”
Nº5 –   “Mestre Kim e os Dragões de Bali”
“Feiticeiras Xaolin : Espada Renegada”
Nº 6-  “Space Ninja” – Criação & Storyboard : Krisnas / Artefinalização e
Editoração : Edmundo Rodrigues
1 – “Space Ninja”
2 – “Os Lendários Ninjas”
3 – “Bushido, A Honra do Samurai”
4-  “ Armas e Táticas Ninja”
5 – “ Técnica do Shuriken”
6 – “ Ninjutsu”

Nº 7 –1 –  “Mestre Kim contra Mestre Sombra”
2 – “Mestre Kim enfrenta os Selvagens Cães de Guerra”
3-  “Bruce Ling encontra as Feiticeiras Xaolin”
4 – “Bonzo Secreto e o Faquista de Sumatra”

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R.G.: A época nacional na Bloch é pouco divulgada e comentada, mas foi um período muito importante pro quadrinho brasileiro. Conte para nós sobre as pessoas que trabalhavam, histórias de bastidores, curiosidades, os amigos que você fez lá. O que você pode nos falar sobre essa época?
Krisnas:
Como já contei, a política editorial na Bloch era diferente da exercida pela Vecchi, pelo menos na minha época era difícil para desenhistas e roteiristas se conhecerem, pois nossas visitas eram individuais e agendadas, somente nos reportando ao editor, sendo raro quando nos esbarrávamos pelos corredores, casualmente na própria redação ou no final do mês, na fila do pagamento, (em algumas destas ocasiões conheci o Ofeliano, o Menezes e o Alan Alex).

O início da década de 90 trouxe uma época efervescente para a cultura como um todo, como músico participava de shows acompanhando inúmeros artistas da MPB, resolvi fundar na época com outros músicos a banda afropop “Bambamoleque”, e saí tocando pelo país afora.

Por conta disto fiquei um tempo afastado dos quadrinhos, mas acompanhando o que acontecia no mercado, vislumbrei que as HQs estavam sofrendo uma reformulação editorial e artística pelo mundo com reflexos no mercado brasileiro, cada vez mais desenhistas despontavam, um grande número de publicações surgiram,trazendo algo novo para o público.

Mesmo a Bloch Infanto Juvenil funcionando como uma máquina bem azeitada, não resistiu às mudanças, pouco evoluiu, estacionando em suas boas vendagens, com o tempo, suas revistas de terror, cômicas e de aventuras , gêneros com títulos regulares, já pelo início da década de 90 foram sumindo das bancas.

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R.G.: Como e por que acabou a produção de HQs da Bloch?
Krisnas:
Na época, não tinha muita noção do lado comercial dos quadrinhos ou o que acontecia nos bastidores da empresa, minha “curtição” era criar quadrinhos e ter a satisfação de vê-los publicados, mas, para responder à tua pergunta, pesquisei sobre o assunto e fiz este pequeno resumo:

“Em 1975 Adolfo Bloch adquiriu os direitos de publicação da Marvel Comics, com uma proposta inovadora:  títulos individuais para cada um dos personagens, mesmo para os menos populares e expressivos; e todas as revistas coloridas, ao contrário da EBAL, que publicava em preto-e-branco.

Foram feitas chamadas para o lançamento das histórias do Homem Aranha e Capitão América através de um encarte chamativo nas revistas Manchete, Fatos & Fotos e Amiga – além de chamadas no programa infantil do Capitão Aza, transmitido pela TV Tupi.

Mas se no marketing vinha dando um banho de competência, a Bloch derrapou – e feio – em várias medidas editoriais. Foi imperdoável a decisão da editora em republicar as histórias de vários personagens que já haviam saído pela EBAL, ocasionando o cancelamento precoce de Namor (#10), Homem de Ferro (#15), Hulk (#16) e Thor (#17). Apesar dessa argumentação, o gibi do Aranha, também repleto de reprises, tornou-se de fato, o título de maior duração, com 33 edições lançadas.

Outro problema apontado como “vilão” eram as cores berrantes que davam um aspecto feio às revistas. Dizem que a editora rodava edições de meses futuros tudo de uma vez só, mas as distribuía apenas no tempo devido e também que a impressão das revistas servia para “limpar” o cilindro da máquina após a impressão de uma Manchete que, por sinal, era semanal.

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Assim, em meados de 1976, uma nova onda surgiu mundo afora, era a época do “gênero terror”, filmes como o “Exorcista”e bandas de rock pesado como “Black Sabath”, influenciaram o mercado dos quadrinhos.

A Marvel Comics investiu bastante em revistas de terror,o que resultou em titulos como: Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider), A Tumba de Drácula (The tomb of Dracula), Lobisomem (Werewolf by Night), Frankenstein, além do aparecimento de muitos personagens do gênero, tais como : Irmão Vodu, Morbius , Homem-Coisa, Blade e muitos outros, sem esquecer do super herói místico Stephen Strange, o Doutor Estranho (Doctor Strange)
A Bloch adquiriu os direitos de publicação da Marvel Comics, criando o selo Capitão Mistério para especificar as revistas de terror da editora.

Foram lançados títulos “sugestivos” como Aventuras Macabras, Sexta-Feira 13, A Tumba de Drácula, Lobisomem, Clássicos do Pavor, Histórias Fantásticas,entre outros.

Com o tempo a maioria dos títulos de super-heróis foi cancelada, ficando apenas os títulos de terror, a Bloch também colocava nestas publicações, algumas histórias feitas por artistas brasileiros como Edmundo Rodrigues e Júlio Shimamoto.

Por causa destas decisões, em 1978 a Marvel rescindiria o contrato com a Bloch, e as revistas com o selo Capitão Mistério tiveram todo seu material produzido por artistas nacionais e por muitos anos foram sua principal linha de quadrinhos.

Outro grande fenômeno de vendas foi a revista Os Trapalhões, com  83 edições publicadas até 1986. Durante esse tempo, outros títulos dos personagens foram lançados e formaram uma família com almanaques, superalmanaques e o spin-off  Aventuras do Didi, título mensal que apresentava somente histórias do trapalhão mais destacado da trupe.

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Um álbum com 210 figurinhas autocolantes, lançado pela Bloch em 1982, também fez parte dessa fase de multiplicação de títulos. Em 1987, a revista aposentou o formatinho, cresceu para o formato americano e virou Super Trapalhões, que em cada edição trazia histórias sobre um único tema, a maioria envolvendo super-heróis, porém, este foi o último ano da revista na editora, pois em 1988, após a não renovação do licenciamento, o título foi aportar na Editora Abril em novo formato com os Trapalhões transformados em crianças em aventuras infantis, o que resultou em uma enxurrada de embalagens dos mais variados produtos de diversos segmentos do varejo, condição nunca imaginada por sua encarnação anterior, que não gozava desse apelo, afinal, as revistas publicadas na Bloch seguiam o padrão non sense do programa televisivo.

Os pequenos trapalhões sobreviveram na Abril até 1994. Dois anos depois, a Bloch ensaiou a volta dos personagens adultos em As Aventuras do Didi, que não trazia as versões de Mussum e Zacarias – os humoristas haviam falecido no início daquela década.

Sem o mesmo estilo gráfico e conceitual da fase áurea que consagrou o gibi dos Trapalhões, a tentativa de revivê-la durou apenas três edições.
A Bloch teve sua falência decretada em agosto de 2000. Em dezembro de 2002, os principais títulos das revistas da Bloch Editores – Manchete, Pais&Filhos, Ele&Ela e Fatos& Fotos – foram leiloados.”

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R.G.: Você ainda desenha?
Krisnas:
Atualmente estou mais ligado à área de programação visual e conceituação para a web, desenvolvendo projetos para o selo musical “Guitarra Brasileira”. Também atuo e desenvolvo peças de criação visual para eventos culturais, peças e filmes.

Em 2005 lancei a grafic novel “Zumbi e a Saga de Palmares”, criei uma super equipe para a produção de arte, o que resultou numa das minhas principais obras.

Faziam parte da equipe :
• Pesquisa Histórica : Krisnas & Togo Ioruba
• Criação e Layout inicial : Krisnas
• Capa, Layout & Lápis : Allan Alex
• Arte Final : Fernando Miller
• Cores : Lilith
• Letreiramento e Tratamento de Imagem : Leônidas França e Bola
• Projeto gráfico e fechamento de arquivo : Luiz Eugenio

Também criei o personagem “Meenguito” inicialmente suas tirinhas saiam na revista do Flamengo e mais tarde foram veiculadas em outros meios de comunicação.

R.G.: Acompanha a cena atual do quadrinho nacional?
Krisnas:
Procuro saber tudo que está “rolando”, estou muito empolgado com as possibilidades que a tecnologia nos traz. Se não vejamos, lá se vai o tempo das peregrinações pelas editoras, (bem, talvez ainda exista esta “pratica”), você pode publicar suas HQs, desenhos e ilustrações, através de fanzines, via web (sites específicos, blogs e outros), com toda tecnologia à teu favor, semelhante ao músico que hoje coloca suas composições e vídeos on-line.

Hoje, o quadrinho nacional já lança um material com nível de obra literária… e isto é muuuuito bom!

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R.G.: O que falta para a HQ nacional estourar?
Krisnas:
Faltam bons roteiros e algo mais que possa nos caracterizar com um “estilo Brasil” de fazer quadrinhos, como se nota nos estilos japonês, francês e outros. Acredito, que estejamos seguindo na direção correta, contudo, percebo que poucos são aqueles que entendem que o “fazer quadrinho” equivale à produzir um filme, seja curta ou longa metragem.

Já pensaram? Criação ou adaptação de um roteiro, escolha das locações, cenários, figurino, o diálogo e principalmente o elenco e suas interpretações…. tudo igual, fazer quadrinhos é produzir um filme! No entanto, é bom que se esclareça que mesmo um bom filme carece de um roteiro e um bom diretor…

R.G.: Acredita no super-herói brasileiro? Conhece ou aprecia algum?
Krisnas:
Novamente volto à enfatizar a carência de bons roteiros e ousadia, ainda estamos impregnados de uma espécie de ranço provinciano que impede que o gênero super-herói floresça por aqui… e a solução é tão simples…basta acreditar e “embarcar” na fantasia!

È preciso acreditar no herói, torná-lo real, criando um contexto plausível em sua espetacularidade (não custa assistir algumas temporadas de “Heroes”), é só relativizar, se existem deuses no Olimpo ou no Valhala, por que não no universo mágico e mitológico brasileiro?

Bom voltando à sua pergunta, sim, acredito no super-herói brasileiro (se atentarmos ao fato, que além dos nossos desenhistas, estilistas e artistas , temos também 2 super-heróis brasileiros dando expediente nos EUA, são eles : Beatriz Da Costa, a esmeraldina beldade flamejante da Liga da Justiça  e o jovem Roberto Costa (parentes ???) integrante dos Novos Mutantes da Escola Xavier.

Se acordarmos  para este fato,  porque não criar boas histórias com estes personagens ? Afinal são brasileiros, ninguém melhor do que nós para retratarmos uma aventura em nosso país ou na América Latina. Não é mesmo?

R.G.: Quais os quadrinhistas brasileiros que mais admira?
Krisnas:
Ainda seguindo na esteira da pergunta anterior, posso listar um série de heróis nacionais que com ou sem poderes me impressionaram, entre tantos destaco:

Os mais antigos (heróis e criadores): “Jerônimo, O Herói do Sertão” criação imortal de Moysés Weltman e Edmundo Rodrigues, “As Aventuras do Anjo” clássico de Álvaro Aguiar e Flávio Colin, “Vigilante Rodoviário” mais um sucesso de Flávio Colin, “Raio Negro” de Gedeone Malagola, todas as histórias de samurais do mestre Shimamoto e desenhistas aos quais não me recordo o nome, criadores de personagens como : “Capitão 7”, “Scorpio”, “Falcão Negro” e “Fantomas”

Da média geração (roteiristas/desenhistas) posso citar : Laerte, Angeli, Watson Portela, Alan Alex, Luis Ge, Paulo e Chico Caruso, Ofeliano e Mozart Couto.

Da “nova” geração, acompanho o trabalho do Ed Benes, Ivan Reis e os irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá.

A produção nacional atualmente está à todo vapor, mesmo em tempos de crise, podemos notar o aumento de editoras e o seu investimento em quadrinhos, a qualidade cada vez mais profissional dos fanzines e o material via web

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R.G.: Tenho uma teoria que vários personagens brasileiros foram criados antes de personagens similares estrangeiros, e incluí na minha lista as Feiticeiras Xaolim, que foram publicadas antes da versão oriental de uma personagem famosa dos X-Men. Acha possível que isso tenha acontecido?
Krisnas:
Li na web um artigo seu sobre plágio dos nossos heróis pelos gringos, tem tudo à haver, concordo em gênero, número e grau ! Parabéns!

R.G.: Possui trabalhos inéditos?
Krisnas:
Sim, tenho várias histórias inéditas que pretendo lançar via web, e estou pensando também em reeditar com uma nova roupagem algumas das minhas histórias publicadas na Bloch.

Valeu pela lembrança meu amigo, obrigado pelo carinho.

R.G.: Eu que agradeço sua esclarecedora entrevista sobre um dos períodos mais fascinantes da HQ nacional! Grande abraço, amigão!

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O Impulso HQ agradece mais uma vez a Rod Gonzalez por sua gentileza em enviar a entrevista e permitir que ela seja publicada.

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