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Recentemente Hector Lima lançou de maneira impressa as hqs O Major e Escritório Noturno, (veja as resenhas aqui e aqui), e o quadrinhista que já é conhecido por publicar lá fora e webcomics (quadrinhos na Internet), deu uma entrevista via e-mail para o Impulso HQ e conversou sobre o fato de publicar impresso e a transposição do papel para a tela, falou sobre as suas influências, seu método de produção e de quebra você ainda pode conferir nas imagens um passo a passo do processo da arte da capa.

Entrevista: Hector Lima

Impulso HQ: Depois de alguns anos publicando O Major em forma de webcomic, publicá-la de forma impressa no Brasil causa algum friozinho na barriga?
Hector Lima:
Um pouco porque como ainda estamos nessa fase de transição em que o webcomic ainda não é totalmente aceito como publicação válida, muita gente – uma parte da imprensa inclusive – vai ter seu primeiro contato com a HQ só agora.

Antes eu tinha o conforto da distância do computador que me “protegia”, hoje eu posso ouvir em pessoa a opinião na hora de alguém que nunca tinha visto a HQ antes. Mas mais que frio na barriga me dá um alívio porque eu queria fazer a versão impressa faz muito tempo pra que os veículos ainda fora da onda dos webcomics considerassem as HQs lançadas “oficialmente”.

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IHQ: Com a mudança de suporte de O Major, web para impresso, você acredita que o público alvo mudaria?
H.L.:
Um pouco, mas não muito. Ainda tem gente sem paciência pra ler HQ no computador, mas isso muda rápido agora. Talvez agora o pessoal mais das antigas tenha contato com o Major justamente por isso.

Só que temos agora mais de uma geração que já nasceu jogando videogame e acessando a internet com naturalidade, como parte de suas vidas.
Quem não gosta de ler na tela é um dinossauro em extinção. Se você discorda a ironia é que você lendo isso numa tela nesse momento.

Com certeza o alcance do webcomic é maior. Toda semana pelo menos uma ou duas pessoas lêem a história no site; pelo menos é o que me diz o contador de visitas. Já teve gente da Holanda e Portugal que comprou a versão impressa em inglês, mas pessoas de muitos outros países, em todos os continentes, já tiverem contato com o webcomic.

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IHQ: Você tem uma grande relação com a musica, como ela te influencia no seu traço e em relação as suas HQs? E falando de influências, quais são as suas em HQ?
H.L.:
Sim, além de discotecar na noite, música me influencia muito pra escrever.
Não sei direito como é com o Irapuan que fez a arte, mas muitas vezes música me ajuda a entrar no espírito certo pra cada cena que preciso escrever.

Para escrever essa aventura do Major no Brasil que eu me lembre ouvi muito funk carioca e rock, alguma coisa de metal; mas a constante eram as músicas que o compositor Keiichi Suzuki usou na trilha do filme ZATOICHI do Takeshi Kitano. Toda hora eu imaginava o Major correndo a ladeira do
morro com tambores taiko de fundo e os cartuchos de bala voando.

Minhas influências em HQ como roteirista são basicamente os caras mais manjados da Invasão Britânica no fim dos anos 80 como Alan Moore, Grant Morrison, além de caras um pouco mais recentes como Warren Ellis – mas principalmente o Morrison mesmo que é meu ídalo pessoal.

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Rockstars da música nunca me disseram muito como figuras a se admirar, mas o careca escocês sempre foi pra mim um John Lennon pessoal, ou um Kurt Cobain particular. Adolescência nerd lendo gibi é fogo.

No caso do Major tem também muita influência norte-americana de caras como Steve Englehart, Mark Gruenwald, Steven Grant e o argentino Fabian Nicieza – que levaram um pouco de discussão política destilada pro imaginário pop dos heróis de colante na figura de personagens solitários meio perdidos combatendo um sistema opressor.

IHQ: Como surgiu o Major, e a descrição “Capitão América com guaraná, Comandos e Ação com feijoada, Jack Bauer com caipirinha e Counter Strike com churrasco”, demonstra a sua influência em publicar a um certo tempo para o publico norte americano?
H.L.:
Essa frase foi uma tentativa de fazer aquelas taglines que usam em Hollywood pra tentar explicar um conceito de forma bem simplificada. Na verdade ela diz mais respeito à primeira aventura, mas o espírito do resto da HQ é meio isso. Sim, o Major foi pensado pra fora, mas também pro Brasil.

Por mais que o personagem não seja brasileiro eu queria mtentar acabar com o preconceito contra super-heróis feitos por autores daqui. No nosso sangue existe mais chanchada e paródia do que épicos de ação [mais Macunaíma do que Flash Gordon], mas a Mitologia do Herói é universal e pode ser adaptada pra qualquer contexto.

O Major é minha tentativa de reavaliar a mitologia dos personagens patrióticos sob a ótica mais irônica e decadente da Era Bush-Cheney.

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Sem querer me comparar com os autores em questão, quero com essa HQ tentar desmontar e recontar o mito – quase da mesma forma que o Alan Moore fez com o Supreme [uma visão pós-moderna do Super-Homem] ou o que os produtores do ’24h’ fizeram, que foi praticamente o Capitão América reimaginado pros tempos modernos sem roupa colorida na figura do Jack Bauer [a UCT sendo a SHIELD e assim por diante].

O Major é pra ser mais do que uma HQ de porrada e tiros; se fosse um filme esse número #1 seria só a cena de abertura. Aquela conspiração de espionagem que está rolando de fundo diz respeito a algo muito maior, de proporções globais, que se eu tiver a chance de continuar vai discutir política e a relação do indivíduo com o bem-estar coletivo.

IHQ: Por que a iniciativa de se autopublicar no norte-americano com a revista de terror Zombingo/(In)Version? E valeu a pena?
H.L.:
Aquela foi uma primeira tentativa de me embrenhar nesse mundo da impressão por demanda. Foi bom porque chegou em lugares que eu nunca imaginaria, como o Japão, e pra ver como é um pequeno parto editar uma revista.

A gráfica americana que usei na época era muito enrolada – o oposto da Ka-Blam que usei agora – e ao invés de manter aquela revista impressa resolvi juntar mais HQs pra publicar nessa edição atual do Escritório Noturno.

Quase tudo que eu faço em HQ priorizo publicar em inglês porque tenho mais chance de um dia ter uma carreira sustentável por editoras de lá.

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Primeira imagem da ilustração de capa

IHQ: Você espera com a sua iniciativa influenciar outros autores nacionais? E quais seriam as dicas que você poderia indicar para quem está pensando em seguir os seus passos?
H.L.:
Seria legal e muita gente já se vira. Essa mini-revolução da impressão por demanda já está virando algo maior. Antes a gente fazia zine xerocado – foi onde comecei a fazer HQ muito esporadicamente no fim dos anos 90 – hoje você joga a HQ num blog seu conforme ela é produzida e depois coleciona em uma revista ou álbum. Tem gráficas tanto no Brasil como no exterior que fazem edições encadernadas de lombada quadrada muito bem. A Ka-Blam.com por enquanto é minha melhor dica; mesmo com a alta dólar pra mim compensou em termos de divulgação fazer essas revistas lá, porque rodei tiragens muito pequenas [que inclusive já estão no fim].

Mesmo as gráficas por demanda daqui ainda estavam pedindo uma quantidade mínima que eu não podia bancar na ocasião. Mas a melhor coisa mesmo é se auto-publicar na internet, qualquer um pode abrir um blog de graça e espalhar o link pra todo mundo. Depois se você tiver uma graninha manda rodar uma pequena tiragem.

Nem precisa entender de diagramação e impressão num primeiro momento: no caso da Ka-Blam você manda .jpgs em alta que eles montam, imprimem e te mandam de volta.

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Ilustração da capa em grafite

IHQ: Como analisa o atual momento do mercado de quadrinhos nacionais? Por quê publicar O Major e Escritório Noturno de maneira impressa agora?
H.L.:
Por causa dessas ferramentas todas a produção independente aumentou, e dela vão sair os próximos Maurícios, Angelis, os próximos Gabriéis Bás e Fábios Moonzis [ok, rolou um mussuneitor aqui].

Essas duas revistas ficaram prontas em Dezembro de 2008; minha intenção era lançar antes que o ano acabasse mas como fim de ano é a pior época pra se lidar com correio acabei recebendo elas entre Natal e Ano-Novo, daí segurei o lançamento pra agora.

Na verdade eu não tinha por que fazer essas revistas, talvez nem fizesse; online estava bom. Mas o legal dessa história é você estar em todos os suportes possíveis. O Major por um tempo também foi um arquivo de download remunerado pela Smashout Comics que disponibilizava seus títulos na Wowio antes deste ser comprada por uma empresa nebulosa.

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Ilustração da capa arte finalizada com nanquin

IHQ: Qual é o seu processo de produção para O Major, tratando-se de uma séria de muita ação existe alguma diferença entre se produzir para o impresso? Você considera as proporções das páginas em pixels e outros quesitos técnicos que são próprios da Internet?
H.L.:
Está se consolidando cada vez mais o formato paisagem [deitado] e suas variações, por causa da tela deitada dos computadores e alguns celulares. Mas a gente produziu o Major em A3, o formato americano tradicional dos comics, facilitaria exibir tanto na internet como no impresso.

É simplesmente uma página tradicional escaneada. Como eu mesmo cuidei do blog do Major em português ele não é dos mais bonitos, mas foi funcional até agora. A hq continuando vou pedir que alguém mais qualificado remodele ele. Mas no site da Komikwerks, que serializou aversão em inglês, a coisa ficou perfeita.

Em geral se pensam as surpresas do roteiro de uma HQ pra aparecerem nas páginas pares; assim você vira a folha e algo inesperado acontece. Foi mais ou menos assim que eu pensei, mas no webcomic você pode fazer uma surpresa a cada página, já que o leitor só vê uma de cada vez.

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Ilustração da capa arte finalizada com nanquin e com as primeiras cores bases

IHQ: Depois de algum tempo publicando webcomics, como você vê o futuro dessa mídia? Na sua opinião ela pode acabar com o impresso?
H.L.:
Antes o webcomic era o refúgio do zineiro e tão mal visto quanto um punhado de sulfite xerocado – hoje já se pode dizer que é um formato praticamente estabelecido inclusive como modelo comercial.

Só ver iniciativas como a Zuda, os coletivos Transmission X, Act-I-Vate, a nova versão da Dark Horse Presents, os Malvados, o Homem-Grilo, todo mundo que está online.

E é irônico que nesses tempos de crise econômica e de energia foi pra internet que todos se voltaram, ainda que meio tarde. A Indústria de HQ foi uma das última no mundo do Entretenimento a começar a entender o potencial dos scans distribuídos como downloads, do webcomic sustentado por anúncios e merchandising, do stream pago com assinatura.

A Marvel – o exemplo mais pop – cancelou recentemente suas coletâneas de histórias curtas e as publica em seu site mesmo, pagando os autores pra criar histórias com personagens menores e ver pela audiência se vale a pena derrubar árvores e queimar gasolina pra levar aquilo às lojas.

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Ilustração da capa no layout com design gráfico

Não acho que o impresso vá sumir, mas que vai conviver com o online.

O que talvez sumam ou diminuam bastante são as revistas com grampo, porque cada vez mais vale a pena serializar uma HQ online e imprimir direto a versão encadernada em formato de livro.

Mas mesmo os álbuns ainda penam pra ir um pouco mais longe. Um webcomic até onde eu sei usa menos energia, sai mais barato e chega em todos os cantos do mundo simultaneamente.

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Capa Finalizada com cor, luz e sombra e efeitos

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A equipe do Impulso HQ agradece a Hector Lima pela colaboração e envio das respostas e imagens!

Renato LebeauEscritório Noturno,Hector Lima,O MajorRecentemente Hector Lima lançou de maneira impressa as hqs O Major e Escritório Noturno, (veja as resenhas aqui e aqui), e o quadrinhista que já é conhecido por publicar lá fora e webcomics (quadrinhos na Internet), deu uma entrevista via e-mail para o Impulso HQ e conversou sobre o...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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