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Franco de Rosa é quadrinhista, pois desenha e escreve HQs desde 1971, quando começou aos 15 anos. Já publicou em diversas editoras brasileiras (Ebal, Saber, GRAFIPAR, Press, etc) e a partir dos anos 80 também se tornou editor e crítico de quadrinhos.

Também é um dos fundadores da editora Opera Graphica, que infelizmente encerrou atividades em 2009. Essa entrevista foi concedida ao também quadrinhista e divulgador da HQ Brasileira, Rod Gonzalez, que gentilmente enviou o texto para o Impulso HQ.

Entrevista:

Rod Gonzalez: Como foi que você começou a gostar das histórias em quadrinhos?
Franco de Rosa:
Minha mãe lia para mim, antes de eu dormir. Nada de contos de fadas…Luluzinha, Mickey. Eu escolhia na banca.

R.G.: E como foi o seu começo profissional nesse meio das histórias em quadrinhos?
F.R.:
Comecei fazendo as tiras do Capitão Caatinga com o Seabra, depois as tiras do Chucrutz, e uma novela em capítulos diários. Cada novela durava uns tres meses. Nós publicávamos no Noticia Populares da São Paulo. Depois passei a fazer O Praça Atrapalhado, Klik, Zorro e Quadrinhos Eróticos, para a Grafipar de Curitiba.

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Capa de As aventuras de Zorro

R.G.: Como foi que você começou a escrever HQs?
F.R.:
Estudei bastante o roteiro. Escrevi primeiro as tiras do Capitão, as novelas e o Zorro. Estudei Lee Falk e Ziraldo. A turma do Pererê da Abril, foi minha escola para roteiros. Depois descobri que muitas das histórias forma escritas pelo Ruy Perotti (Sujismundo, Satanésio). Mas o jeitão do Ziraldo escrever me cativa até hoje. Também li muito o Spirit e estudei a técnica narrativa do Eisner. Dei algumas aulas de roteiro no Sesc e Senac.

R.G.: Os roteiros seus que eu li são muito bons. Como faz pra ser um bom roteirista?
F.R.:
Agradeço suas palavras. É preciso ler bastante e estudar as técnicas de narrativa. Não infromar muita coisa no mesmo quadro. Tenho o cinema na cabeça, quando escrevo. Mas a HQ exige economia de informação e impacto.

Muitas das HQs que escrevi nos anos 80 fiz rascunhando e escrevendo quadrinho a quadrinho. Divido uma folha de sulfite A4 em quatro partes. Corto a folha. E vou fazendo cena por cena. Rascunhando os personagens e o cenario e escrevendo os diálogos. Jogo fora o que não gosto. Substituo a sequencia.

Depois deixo a história descançar uns dias. Volto a ler e completar algumas cenas. Substituir ou acrescentar.

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Capa de A Última Missão

R.G.: Sou fã especialmente do álbum “Última Missão”, uma história sua com arte do Watson. É um dos “xodós” da minha coleção, conte mais sobre essa grande produção da HQ nacional!
F.R.:
Esta história foi apenas uma sugestão minha. Não me recordo até que ponto do argumento eu realmente concebi. Creio que foi só um assunto de uma conversa com Watson, ele gentilmente creditou-me o enredo por amizade.

Ele escreveu minuciosamente. E fez os lay-outs. Era apenas um rascunho para o Colonnese desenhar. Mas o trabalho estava tão bem feito que bastou a arte-final do Silvio Spotti para ficar pronto.

R.G.: Uma época surgiu um boato na internet (acho que foi o Sandro Marcelo que disse isso) de que não teria sido o Watson verdadeiramente o autor dos desenhos do álbum. Ele até deu um nome, que não me recordo agora.
F.R.:
Ultima Missão é de Watson Portela. O desenho, composição e narrativa tem todas as marcas dele. Ocorre que naquele período ele estava ocupado demais com outros trabalhos para poder fazer a arte-final. Mesmo assim é uma obra prima. O arte-finalista se esmerou.

R.G.: Lembro de já ter visto algumas HQs desenhadas pelo sr., mas atualmente, não. Não desenha mais?
F.R.:
Desenho muita revista infantil de passatempos para a Editora Escala. Também faço ilustrações para o publico feminino. Livros didáticos. Artes para publicidade e roteiros.

Estou fazendo uma HQ histórica lentamennnnnnnnnnnnnnnte. Atuo mais como editor e produtor editorial. Em poucos meses um curso de desenhos meus estará nas bancas. Assim como um Grande Livro de Quadrinhos (teórico).

R.G.: Durante muitos anos você desenhou, e principalmente escreveu, muitas vezes com arte do grande Seabra, HQs do Zorro, primeiro pela Ebal e depois já na Press.Conte um pouco sobre esse período e essas HQs.
F.R.:
Foi um período fabuloso. Nos preocupávamos apenas em fazer quadrinhos. Em aprender a desenhar e escrever. Havia muito espaço para se divulgar nossos trabalhos. Tínhamos muita energia e não precisávamos de tanto dinheiro, pois não precisávamos sustentar uma família com filhos na escola e pagar convenio médico e etc e tal.

Foi uma era romântica. Vivíamos com pilhas de gibis impostados diante dos olhos, e conversávamos muito sobre criação, arte, literatura e cinema. Vivemos aventuras deliciosas. As boas lembranças são muitas. Tínhamos uma vantagem quanto aos argumentos de nosso Zorro, quanto ao do Disney, podíamos fazer histórias mais adultas.

Mas o Zorro criado na Editora Abril é maravilhoso. Tem textos de Primaggio, Saidenberg e artes de Rodolfo Zalla, Rubens Cordeiro e do grande Walmir Amaral. Eu e o Seabra estávamos aprendendo. Tivemos a sorte de nos aceitarem.

Porém os enredos de nossas histórias eram mais audaciosos. Cheguei a adaptar um fato real. O atentado militar da policia secreta que houve no Rio Centro no inicio dos anos 80. Virou uma história curta do Zorro. Nosso Zorro era um ativista de esquerda. Como já disse antes. Foram tempos românticos.

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Página de Ultraboy, desenhado por Franco de Rosa

R.G.: Lembro também do Ultraboy, que você desenhou e criou e foi publicado na Grafipar. Teve outras hqs além daquela publicada na Robô Gigante?
F.R.:
O Ultraboy foi feito em dois dias. O Watson precisava fechar a revista e o prazo estava apertando. Então ajudei a complementar a edição com aquela HQ. Uma homenagem total ao meu ídolo da infancia Ultramen.

Mas além de tê-la publicado tive a honra e o privilégio de poder mostrá-la pessoalmente a Osamu Tezuka (Astro Boy, Kimba, A Princesa e O Cavaleiro) o Disney japonês, quando ele esteve no Brasil. E alguns originais do Ultraboy foram expostos no Masp, naquele ano…Creio que foi em 1983.

Curioso é que uma repórter da Folha de São Paulo na época reuniu alguns desenhistas de quadrinhso para uma entrevista no Masp, no dia da inauguração da mostra. Eu estava com o Luiz Gê.

A repórter era muito bonita e muito interessada no Gê, na época um chargista respeitado. Quando eu falei que fazia mangá e mostrei o Ultra Boy ela simplesmente, virando as costas disse, vai mentir pra outra. Mangá só existe no Japão.

R.G.: O sr. já criou outros super-heróis?
F.R.:
Ainda tinjo meus cabelos brancos…Senhor não. Ocê!…Bolei uma legião. Antes de fazer meu primeiro fanzine em 1971 eu ficava desenhando caras uniformizados com podres clonados dos conhecidos e até uns diferentes. No meu fanzine cheguei a fazer um eles em HQ curta.

Foi O Mocho. Era uma versão paulistana do Batman. Muito, mas muito parecido com o Coruja de Watchmen. Cor de uniforme, a capa em gomos, e parafernália mecânica. Foi uma antecipação de mais de 20 anos. Mas é um personagem óbvio. Porém o Mocho tem garras nos pés como uma ave de rapina.

Um pequeno e importante diferencial, escrevi algumas histórias com super-heróis que foram desenhadas pelo Mozart Couto que permanecem inéditas. Também escrevi uma para o Colonnese reunindo Mylar, X-Man, Superargo e Pele de Cobra, que são os super-herois dele que alegraram minha infância, espero poder publicar tudo isso um dia.

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Logo da Editora Opera Graphica

R.G.: Recentemente você foi um dos responsáveis pela editora Opera Graphica, que foi muito importante na redescoberta de grandes nomes do quadrinho nacional, publicou Colonnese, Emir, Zalla, Gedeone, Shima, Colin, Seabra etc e etc. O que aconteceu com a editora?
F.R.:
Cumprimos nossa missão com a Opera Graphica. Completamos 10 anos. Melhor parar quando se está saudável.

R.G.: O Erick Lustosa me disse que havia possibilidade da HQ “Eclipse”, um grande encontro de super-heróis brasileiros clássicos na linha do “Última Missão” ser publicado na Opera-Graphica.
F.R.:
Sim. Seria uma possibilidade. Mas recebemos uma quantidade enorme de projetos que não pudemos lançar. O mercado não consegue absorver tantas obras. Obras que não conhecidas pelo grande público precisam de muita divulgação. O comprador de quadrinhos precisa decidir se compra um Batman novo, um mangá novo ou um herói brasileiro novo.

R.G.: Recentemente perdemos nomes importantes da HQ brasileira, já estão chamando 2008 de o “ano negro da HQ nacional” porque perdemos Joacy Jamis, Mark Novoselic, Oscar Kern, Eugenio Colonnese, Gedeone Malagola, Claudio Seto e Bartolomeu Vaz. O sr. conhecia eles? Podia nos contar histórias de bastidores sobre eles?
F.R.:
Conheci pessolamente Gedeone, Colonnese e Seto. Tenho histórias divertidas de todos. Mas precisaria de muito tempo. Posso dizer que comi excelentes macarronadas e bebi bons vinhos com Colonnese em Vinhedo. Convivemos com muita proximidade. Sinto muito falta dele.

Era meu pai artístico. Ele me tratava como filho. Gedeone foi o primeiro profissional de quadrinhos que conheci. Muito carinhoso com agente. Atencioso e divertido. Ficou rabugento e brigamos várias vezes. Mas o considero um dos pilares do quadrinho brasileiro. Ótimo escritor. Adorava desenhar. E foi dono de uma técnica insuperável no incio dos anos 60. Um ídolo para os leitores.

Seto foi meu mestre editorial. Foi quem mais incentivou toda uma geração de artistas. Um desbravador. O Borba Gato dos quadrinhos. Com quem brindei meu primeiro sakê e dividi o primeiro Iakisoba.

Eu cultuava os desenhos e as histórias psíquicas dele muito antes de conhecê-lo. E quando tive o prazer de encontrá-lo ele me deixou tão a vontade que fiquei tagarelando por mais de hora. E ele sempre foi monossilábico. Era um gonzo. Uma espécie de monge. Que ensina através de sorrisos e gargalhadas.

R.G.: Qual o seu super-herói brasileiro preferido?
F.R.:
Fykon, de Fernandi Ikoma é o melhor e mais original. Mas gosto muito do Escorpião da fase Rodolfo Zalla, Pabeyma de Nelson Cunha e Paulo Fukue e Zhor, o Atlanta, de Francisco de Assis e Walmir Amaral.

R.G.: Os super-heróis brasileiros clássicos são restritos a um número pequeno de colecionadores ricos. Existe grande curiosidade minha e de muitos outros leitores de gibis sobre esse vasto e obscuro material. Será que ainda veremos republicações de luxo dos nossos queridos super-heróis brasileiros antigos?
F.R.:
Quando eu comecei a colecionar gibis, tratei de guardar as obras brasileiras, porque a total maioria dos colecionadores não juntavam quadrinhos brasileiros. Por isso são dificeis de encontrar. Perderam-se com o tempo. Espero que alguém seja atrevido o suficiente. Quase consegui reunir todos os do Colonnese em uma única edição. E essa idéia não me sai da cabeça.

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Capa do albúm Fantasma, publicação organizado por Franco de Rosa

R.G.: Atualmente há uma grande movimentação de jovens desenhistas, roteiristas e criadores de super-heróis brasileiros. Inicialmente restrito na Internet, esse movimento já está dando seus primeiros passos fora da rede. Você já ouviu falar desse pessoal?
F.R.:
Meu filho Pedro G. de Rosa faz parte dessa nova geração. Mas ele é muito novo. Tem apenas 14 anos. Acompanho o que posso. Na Internet encontram-se muitos autores novos bons.

E também acredito que esta é uma mídia excepcional. Contém obras que não precisam ser impressas. Funcional no monitor. E obtém um retorno e audiência muito maior de uma edição impressa. Minha sugestão para quem quer ver seu trabalho impresso é usar uma impressora jato de tinta. Ou, reunir-se em grupos, como fazíamos nos anos 70 e 80, e fazer edições coletivas.

R.G.: Existe um louco da Internet que persegue a mim e a todos os artistas que gostam dos super-heróis brasileiros antigos e fazem HQs com seus próprios personagens, super-heróis e criações (que diz até que é seu amigo – José Roberto Pereira), diz ele que os super-heróis brasileiros antigos não possuem registro e que ele vai se juntar com um outro maluco aí e vão roubar todos pra eles.
F.R.:
O José Roberto não é louco. É um tremendo gozador e provocador.

R.G.: Com toda sua experiência no meio editorial o tem algum conselho para quem trabalhar com quadrinhos?
F.R.:
Organizem-se em grupos. Façam edições coletivas. Façam blogs. Mostrem seus trabalhos. Participem de eventos. Tem que ir a luta, sem esquecer que estará competindo com o colega. Que é preciso estudar a vida toda e superar-se sempre.

R.G.: Qual considera seu melhor trabalho? Existe algum sonho nos quadrinhos não realizado e que ainda gostaria de realizar?
F.R.:
Gosto de muitas histórias de quadrinhos eróticos que fiz, tanto em texto quanto desenhos. Das tiras. Das revistinhas do Barnabé e Wagnel que fiz com o Wanderley Felipe. Gosto do Zorro. Da Klik. De minhas revistas infantis e teen atuais. Se tivesse que escolher um único trabalho seria “Cacos do Espelho”, que fiz para a Grafipar e espero relançar em uma antologia ainda este ano.

R.G.: Você já leu o zine Heróis Brazucas? Se aquilo fosse um gibi no formato desses da Press e Sampa com os heróis clássicos seria perfeito, alguém podia lançar um gibi de clássicos dos super-heróis brasileiros coletando todo esse material perdido pelo tempo. Não faria mal a ninguém esse resgate histórico não acha?
F.R.:
O CLUQ fez uma edição pequena do Mylar. Ficou encalhado. A questão é que há muito pouco interesse por quadrinhos brasileiros, mesmo os clássicos. Na Opera descobrimos isso, pois a maioria das obras brasileiras vende menos de 300 exemplares.
Conheço o Heróis Brazuca. É importante que exista. E apresenta trabalhos fabulosos.

R.G.: Obrigado pela entrevista, grande Franco de Rosa, muito sucesso pra você em 2009! Um forte abraço.
F.R.:
Obrigado a você e a quem agüentou ler até aqui. Abraço. Sucesso, Rod.

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O Impulso HQ agradece mais uma vez a Rod Gonzalez por sua gentileza em enviar a entrevista e permitir que ela seja publicada.

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