Vocês sabiam que há no Brasil uma revista com os mesmos moldes da Shonen Jump, revista semanal de mangás publicada pela editora Shueisha no Japão? Mensalmente, o Estúdio Armon lança na internet um novo volume da Action Hiken, revista que compila vários mangás brasileiros. Em outubro, a publicação completou 2 anos de existência e o Impulso HQ entrevistou Fabio Gesse, editor chefe da revista.

Impulso HQ: De onde surgiu a ideia de criar a Action Hiken?
Fabio Gesse: A ideia geral para a criação da revista não foi inicialmente minha. Como fã de carteirinha da Shonen Jump, sempre pensei em fazer algo do tipo, mas nunca tive os parâmetros de por onde começar. Em 2012 fundei o Estúdio Armon com o meu irmão mais novo e trabalhamos por 3 anos com quadrinhos independentes e tirinhas. A ideia de fazer uma revista permeava minha cabeça, mas colocar em prática era outra história.

Daí surgiu uma oportunidade, uma revista chamada Weekly Shonen Action! Foi uma iniciativa de um editor independente de quadrinhos que eu não conhecia, surgiu pelas redes sociais e foi meio inovador. Porém a ideia não durou muito, vindo a definhar em menos de 4 meses. Os autores que o antigo editor reuniu já me conheciam e trouxeram a ideia para nós do Estúdio Armon. Unimos nossa vontade de ter um projeto assim com a ideia pré-montada.

IHQ: Como foi montar a equipe editorial ou você é o único editor?
F.G.: Sou um pouco apegado em certas coisas e foi um pouco difícil agregar tarefas para companheiros me ajudarem, mas teria sido impossível chegar até aqui sem a equipe que fui montando aos poucos.

Logo que começamos a revista, foi feito um concurso de mangá. Um dos vencedores publicou seu mangá e quando ele foi finalizado, acabou demonstrando interesse pela edição. Este é o Eddy Fernandes. Também temos a Cristiane Armezina, que também é editora. Ela já fazia parte do Estúdio Armon.

A parte da diagramação da revista ainda é minha responsabilidade, mas a presença desses editores, e também de mais dois que entraram depois, é essencial para acompanhar a produção dos artistas, buscar parceiros, fazer divulgação e outros pormenores que ocupam tempo.

IHQ: Uma característica da Hiken é que cada mangá tem uma quantidade diferente de páginas. Há algum critério pra determinar o número de páginas por história?
F.G.: A quantidade de páginas por capítulo é bem variada de fato, pois deixamos isso em aberto. Só estipulamos que cada capítulo precisa ter no mínimo 10 páginas. Entre 10 e 5 mil, pode ter quantas páginas o autor conseguir produzir por mês. O recomendado é entre 10 e 25 páginas, mas não estipulamos número exato pra dar maior liberdade de criação para os autores.

IHQ: Como um autor pode publicar na Hiken?
F.G.: Sobre formas de publicar. Após testar várias maneiras, atualmente existem duas: a primeira é através de concurso de mangá. Já fizemos 3 concursos ao longo dos 2 anos da revista e os vencedores tem o direito de publicarem, porém, os concursos não têm periodicidade fixa.

A segunda é através de convite, de acordo com o material que recebemos ou que encontramos. Os editores estão sempre de olho e quando aparece um quadrinista muito bom, mas está sem rumo, nós oferecemos esse rumo a ele.

Também recebemos muitos mangás por e-mail, então analisamos cada caso individualmente e dentre os que achamos que tem mais potencial, conversamos com o autor para conhecê-lo. Hoje, para entrar na Action, não é de “sopetão”. Primeiro precisamos conhecer o autor, saber se ele é ponta firme, para só então confiar uma série a ele.

IHQ: Parece uma mistura do editorial japonês com os caça-talentos do teatro. Quais critérios vocês avaliam na hora de aceitar um autor na revista?
F.G.: Exato! Como no Brasil, o histórico é de autores que começam obras infinitas e nunca terminam, não podemos simplesmente usar o método japonês por inteiro. É necessário moldar o artista ao público brasileiro antes. Dentre os critérios de avaliação das obras, estão roteiro, narrativa, traço, edição/arte-final, criatividade e potencial. Também existem critérios para avaliar o artista quando o conhecemos que são espírito empreendedor, pró-atividade, disposição e tempo livre.

IHQ: Quando será o próximo concurso para novos mangás?
F.G.: Sobre o concurso, ainda não temos previsão. Para o próximo, queremos fazer algo bem planejado e com prêmios legais então ainda vai levar um tempo para formularmos. Como a rotina esteve bem corrida, ainda não conseguimos planejar nada a respeito.

IHQ: Do mesmo jeito que os EUA têm uma estética própria e o Japão também, qual você considera a estética dos mangás e quadrinhos brasileiros?
F.G.: Pergunta complicada, talvez um pouco polêmica também. Eu estou nesse ramo há apenas 5 anos e hoje eu ainda não vejo uma estética fixa para quadrinhos nacionais. Não existe uma identidade única no nosso mercado por enquanto. Muita gente usa a estética americana, muita gente mesmo usa a estética japonesa e aos poucos elas estão se mesclando.

Mesmo que eu ainda não veja uma estética brasileira de fato, as coisas estão encaminhando pra isso muito rápido. Há 5 anos era muito mais engessado na estética japonesa. Hoje muitos autores arriscam coisas novas e assim logo a estética nacional será descoberta, com certeza.

IHQ: Como foi a parceria com a Craft Comic Books para a versão impressa da Hiken?
F.G.: Eles entraram em contato para fazermos uma parceria: publicar nossos mangás na plataforma deles. Enviamos alguns e até tinha visto que eles ofereciam uma edição impressa artesanal para os mangás, mas sabe quando a ficha não cai? Precisou o Bruno da Craft chegar e falar "Hey, acorda! Action impressa já!", e aí um "boom" de possibilidades apareceu! Foi de supetão e foi incrível poder oferecer isso aos leitores que nos pediam desde o começo da revista.

IHQ: Vocês mantém o controle das vendas das edições impressas?
F.G.: O controle fica todo com a Craft Comic Books, às vezes o Bruno vem comentando sobre quais edições venderam e tal. Pelas informações que ele me traz, as vendas estão super bem! É bom ver que a galera curtiu! A ideia é fazer as pessoas se acostumarem a comprar mensalmente para sentirem o que os japoneses sentem com a Shonen Jump. Estamos até com planos de assinatura através do Apoia-se. Vamos ver se sai no começo do ano que vem.

IHQ: Quais as maiores diferenças entre a publicação online e a impressa?
F.G.: O único fator que pesou foi em relação a direitos autorais. Uma vez que a publicação é gratuita na internet, é tudo feito com acordos verbais e tal. Porém na edição impressa, que gera lucros sobre a arte dessa galera, foi necessário um mega apanhado de cessão de direitos autorais.

Até então, nunca tínhamos nos preocupado com isso, mas pra não dar problemas jurídicos futuros, acabamos por pedir permissão a cada autor que já passou por aqui e formulamos contratos de cessão de direitos. O lucro das vendas é pouco e é para melhoria da revista em si e para investir nos próprios autores. Nem todos os autores concordaram que vendêssemos suas artes e por isso tivemos que fazer uma reestruturação em 11 edições antigas, para retirar as obras. Foi dureza, mas é o jeito certo a se fazer.

IHQ: Os autores ganham algum percentual em relação às vendas da edição impressa?
F.G.: A respeito das edições físicas da revista em si, não. O preço da física gera lucro, porém é algo tão baixo que não compensaria distribuir para os autores, então todos concordaram em ceder esses lucros para ir acumulando. Conforme suas séries forem indo bem, é possível a publicação de encadernados das séries em formato de banca comum. E aí sim, o lucro das vendas dos encadernados são dos artistas. Já aconteceu com Sing e O Som da Coragem.

IHQ: Como funciona a produção dos encadernados? Todos os exemplares são produzidos de forma artesanal?
F.G.: O esquema dos encadernados não acontece através de parceria. Fizemos muitas cotações em gráficas e descobrimos algumas sob demanda que facilitam a impressão. Já testamos muitas qualidades, papéis e acabamos chegando num formato muito parecido com o de banca e que pode ser vendido a um preço praticamente igual também.

Exato, todas as edições são feitas de forma artesanal e sob demanda! Por isso acho que o esquema de edição impressa agora pode dar certo. Vamos tentar consolidar essa estrutura em 2018 após vários testes em 2017.

IHQ: Há planos para futuramente a revista ser distribuída nas bancas?
F.G.: Nenhum plano para distribuição em bancas. Recentemente a única e maior distribuidora de publicações em bancas está mal das pernas e está inviável até para grandes editoras como JBC e Panini fazerem distribuição em bancas, imagine para um grupo independente.

Outras editoras como a NewPop já saíram desse tipo de abordagem e isso gera um grande receio. Infelizmente, quem espera por publicação em bancas, não vai ver isso acontecer tão cedo, mas em compensação, as vendas pela internet são com frete grátis.

IHQ: Como é a experiência de trabalhar com edição de mangás? Quais as maiores dificuldades, além de ter começado tudo sozinho?
F.G.: Editar mangás é algo que me diverte, mas passa longe de ser algo tranquilo. Uma das maiores dificuldades é quando você planeja toda uma estratégia que leva semanas e algo sai do esperado, que acaba afetando todo o resto, tipo efeito dominó. É dureza quando algum artista atrasa as entregas de material, seja por motivos convincentes ou não, porque acaba atrapalhando todo o planejamento. Muitas vezes acontece isso e me vejo tendo que diagramar a revista toda de novo faltando menos de 24 horas para a publicação sair.

IHQ: Gêneros de mangás como Yaoi e Yuri são considerados nicho do nicho pelas grandes editoras, a JBC por exemplo. Qual a sua opinião?
F.G.: Eu não colocaria como "nicho do nicho", mas não tem como negar que esses gêneros têm menos apelo e popularidade. O mercado vem se abrindo aos poucos e acredito que em breve esses gêneros serão tratados com mais igualdade. Por enquanto, concordo que são nicho, mas isso não quer dizer que eu não investiria se eu fosse editor de uma grande editora.

IHQ: Qual o potencial dos quadrinhos e mangás brasileiros?
F.G.: Como eu acompanho muita coisa nacional eu posso dizer que temos potencial além do que a grande maioria dos próprios autores acreditam que temos. É verdade que muitos autores ficam presos a clichês, estrutura japonesa e coisas do tipo, mas acredito que falta apenas orientação pra essa galera.

O que impede hoje o destaque dos nacionais é a falta de uma cultura de consumo. Como temos muita coisa estrangeira, muito mais do que temos nacional, é mais fácil a pessoa comprar um Naruto ou um One Piece, que são obras que ela já conhece da internet por serem populares. O que precisamos e estamos fazendo é gerar cultura de consumo.

Muita gente quer comparar a qualidade dos mangás brasileiros com os japoneses e se esquecem que o mangá começou a ser feito pra valer mesmo no Japão na década de 60 com Osamu Tezuka. No Brasil, estamos engatinhando ainda, começamos a fazer quadrinhos pra valer, da década de 90 para os anos 2000 e isso é só 40 anos de diferença.

Acredito que se o pai não ajudar o bebê a dar os primeiros passos, ele será um adulto que engatinha então todos os dias, tento convencer os pais (leitores) a ajudarem os bebês (mercado brasileiro de quadrinhos) a aprenderem a andar. Como fazer isso? Mostrando que queremos andar, continuando na batalha, convencendo um por dia e por aí vai. Não é fácil, mas não é impossível. Já ganhamos um bom destaque na última década e isso só tende a melhorar.

IHQ: Algum último conselho / dica / critica pra quem estiver lendo?
F.G.: Se você é autor, tenha certeza de que você realmente ama fazer isso... Caso a resposta seja positiva, levante a cabeça e produza! Não perca tempo com coisas que não vão te levar adiante. Estude e produza o máximo que puder e se baseie nos feedbacks para melhorar cada vez mais.

Se você é leitor, espero que ao ler essa entrevista, entenda que nós damos o sangue para criar esses quadrinhos que a maioria das pessoas diz que são feitos nas coxas. Se hoje não somos bons, nós seremos. Se somos bons, seremos melhores. Se somos melhores, seremos melhores ainda. Entenda que nos esforçamos para chegar no nível do Japão, nem que seja daqui a 40 anos, então que tal dar uma chance para algum quadrinho nacional hoje, para termos um mercado evoluído no futuro?

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E você impulsivo, tem algum mangá que quer serializar, mas nunca soube como? Gosta muito de Quack, mas achava que só tinha ele de representante de mangá brasileiro? Fique atento na Action Hiken para ler outras histórias em mangás produzidas por artistas brasileiros.

Todas as edições da Action Hiken podem ser lidas online gratuitamente aqui. A versão impressa pode ser adquirida por R$15,00 e frete grátis na Craft Comic Book, clicando aqui.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/12/Action-Hiken.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/12/Action-Hiken-150x150.jpgMatheus ZucaentrevistasmanganimequadrinhosAction Hiken,Estúdio Armon,Fabio Gesse,Shonen Jump,ShueishaVocês sabiam que há no Brasil uma revista com os mesmos moldes da Shonen Jump, revista semanal de mangás publicada pela editora Shueisha no Japão? Mensalmente, o Estúdio Armon lança na internet um novo volume da...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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