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No mês de Abril desse ano foi lançado pela editora Agir o álbum de quadrinho nacional O Pagador de Promessas, obra com o texto original de Dias Gomes, que produzido pelo quadrinhista gaúcho Eloar Guazzelli.

O Impulso HQ conversou via e-mail com o quadrinhista, que é mestre em Ciências da Comunicação pela escola de Comunicação e Arte da USP, a respeito da publicação e os desafios de adaptar uma peça que já foi tantas vezes relida em outras mídias.

Durante a entrevista Guazzelli fala sobre o peso de se adaptar uma obra desse valor cultural e de um autor consagrado, a escolha das de cores utilizadas, o esse incentiva do governo em comprar as adaptações literárias, o risco da produção de roteiros novos decair por causa dessa atitude governamental, os seus próximos projetos e muito mais.

Confira a entrevista:

Impulso HQ: Quando saiu a notícia do lançamento de O Pagador de Promessas, alguns sites noticiaram com “enfim a editora Agir lança”, remetendo a demora entre a sua entrega do material e a publicação. Por que essa lacuna de tempo?
Eloar Guazzeli:
Não poderia responder, pois não tenho nenhuma ingerência nessa parte da produção, porém acredito que existam razões operacionais (alinhamento com outras obras para efeitos de lançamento, cronogramas de vendas e editais de compras governamentais, etc).

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IHQ: O Pagador de Promessas é a obra de Dias Gomes que tem mais adaptações, entre cinema, teatro e TV. Como foi o desafio de encarar a adaptação da obra agora para HQ e gerar algo novo?
E.G.:
Foi complicado, pois uma peça de teatro tem sua dinâmica própria e a transposição de linguagens requer cuidados. Por isso privilegiei o cenário, considerando a paisagem como um personagem e fazendo com que a ambientação criasse uma dinâmica visual que os quadrinhos de certa forma exigem. Mas sempre rigorosamente fiel ao texto. Sou suspeito para falar, mas acredito que fui fiel aos princípios básicos da narrativa.

IHQ: Dias Gomes em toda a sua obra, sempre combinou a crítica social com o cuidado artístico, e em 1959 escreveu aquela que pode ser considerada a maior pérola do teatro nacional: O Pagador de Promessas. Qual é o peso em se adaptar uma obra desse valor cultural e de um autor consagrado?
E.G.:
Fui procurado pela editora e aceitei o desafio com o grande entusiasmo, pois esse trabalho consistiu igualmente uma grande honra e também um tremendo desafio, afinal este se trata de um texto maravilhoso e que ainda por cima comportou transcrições brilhantes para outras linguagens, sua versão cinematográfica, por exemplo, logrou Conquistar (Palma de Ouro em Cannes) um dos maiores prêmios de todos os tempos.

Uma grande responsabilidade, portanto. Mas acima de tudo pairava sobre mim a figura de Dias Gomes, o autor. Eu sempre admirei com fervor seu trabalho, ainda muito novo tive na novela O Bem Amado uma das maiores lições da minha vida, a constatação de que uma obra feita em moldes industriais (era um folhetim eletrônico) poderia ser uma obra-prima. Isso teve reflexos no futuro quando tive de enfrentar o preconceito contra os quadrinhos, atitude que se articulava sobre uma visão de que arte em moldes industriais era algo quase impossível.

Dias Gomes me ajudou a colocar este tipo de reflexão no lixo, sem nenhuma hesitação. Também sempre admirei sua figura de cidadão, figura cheia de coragem, sempre alerta para as covardias sociais. Acho que com isso já dá para fechar a minibiografia. Por isso mesmo, passado o susto de trabalhar sobre um texto com toda essa carga tive a exata noção também do privilégio que isto representava.

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IHQ: Como foi o processo de produção da obra? Qual foi a maior dificuldade?
E.G.:
Foi relativamente tranquilo, tive um prazo justo, porém razoável (cinco meses). Dividi nas etapas básicas, pesquisa visual e adaptação do texto para roteiro de HQ (fiz a adaptação também), esboço de páginas, arte-final (incluindo traço, cor e aplicação de balões e texto). Minha maior dificuldade ficou na parte de adaptação pelas características do texto de teatro, que acontece numa espécie de fluxo continuo o que dificulta tremendamente na hora de efetuarmos cortes.

E são necessários muitos cortes para uma adaptação, não só porque temos de nos adequar ao número de páginas, mas também porque o texto não deve ser muito pesado. Tinha também uma dificuldade extra nesse processo, até então sou o único autor a trabalhar sobre a uma obra que não está sob domínio público.

Como Dias Gomes faleceu a pouco mais de dez anos, meu trabalho teve de receber um aval positivo da sua família. No fim das contas foi bom porque sua avaliação positiva me deu uma motivação extra.

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IHQ: A utilização de cores sóbrias com traços bruscos são características marcantes durante todo o álbum. Por que dessa opção gráfica?
E.G.:
O que eu procurei foi fazer foi dar um caráter plástico pra narrativa, tendo em vista que o roteiro além de brilhante era bem conhecido e já tinha ganhado adaptações clássicas para outras linguagens. Procurei na valorização dos aspectos visuais potencializar os elementos sob os quais eu poderia acrescentar algo de novo para essa obra.

IHQ: Com as adaptações de obras literárias para as HQs começam a surgir às primeiras opiniões divergentes sobre o assunto, como o conteúdo que necessariamente não precisa ser a obra em si, mas um “aperitivo” do que se trata a obra. Em sua opinião o que é essencial conter em uma HQ que é adaptada da literatura?
E.G.:
Respeito pelo original, mas sem deixar que isso impeça a colocação de algo original, um outro enfoque. Tarefa difícil, mas que está presente em qualquer perspectiva de adaptação ou mesmo numa tradução de texto.

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IHQ: Com esse incentivo do governo que compra as adaptações literárias e leva as obras do gênero para as escolas, as editoras estão com o seu foco editorial para essa linha. Você acha que corre o risco da produção de roteiros novos e originais de HQs diminua?
E.G.:
Não acredito. Se a produção independente sobreviveu aos piores momentos econômicos (e não foram poucos) de um país com problemas editorias sérios ela justamente agora só tem a ganhar com a formação de um público em larga escala. Pelo contrário, abrira perspectivas que podem viabilizar não só uma efetiva profissionalização do quadrinista, permitindo a existência em paralelo de iniciativas independentes cada vez mais ousadas.

Nada pode ser pior para a produção autoral e independente do que um cenário editorial medíocre.

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IHQ: Você teve a missão de apresentar ao público jovem, um tema de grande complexidade ideológica e social através de uma história em quadrinho. Você acha que as HQs começam a desempenhar um papel diferente na sociedade?
E.G.:
Acho que sempre houve uma variedade de quadrinhos no Brasil, mas para públicos restritos em geral com um caráter de produção independente. O que realmente mudou é que estamos construindo uma produção em escala industrial de um tipo de quadrinho que antes estava restrito aquelas produções em escala menor.

Hoje em dia – por conta de inovações técnicas como o advento do computador pessoal e da rede mundial de computadores – estão no limiar de um grande salto qualitativo onde deixaremos de ser um país formador de profissionais qualificados para nos presentarmos como um centro de produção de conteúdo.

Ou seja, estamos no caminho – difícil e cheio de obstáculos – de construirmos uma estrutura de produção em escala industrial. Panorama onde as adaptações e conteúdos paradidáticos irão desempenhar importante papel por conta das compras em larga escala para uso na rede escolar e a realização de séries de desenhos animados produzidas no país por sua vez irão revolucionar o perfil da programação audiovisual. Tenho a felicidade de transitar com igual prazer por todas essas linguagens.

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IHQ: Quais são as novidades que você está preparando para esse ultimo trimestre do ano, e se você poderia adiantar alguma novidade para o ano que vem, inclusive sobre pesquisas sobre quadrinhos e afins?
E.G.:
No momento estou trabalhando na adaptação de Escrava Isaura para os quadrinhos,pelo selo da Editora Àtica. Acho o desafio interessante porque esse livro teve na sua adaptação para telenovelas o maior exito da teledramaturgia brasileira (a primeira versão, com Lucélia Santos foi sucesso no imenso mercado chinês) e agora tenho a oportunidade de fazer minha própria versão.

Também dentro desse momento favorável pra produção nacional eu estou desenvolvendo uma parceria com o escritor Marcelino Freire. Estamos trabalhando juntos num texto genial dele, que estou transformando também numa narrativa em quadrinhos.

Sigo com minhas colaborações para esses ótimos grupos independentes nacionais, como a Graffitti (editada pelo grupo homonimo de BH), Ragu (Pernambuco), Samba (Brasília) e Voodoo (Goiânia). Pra Graffitti fiz uma mini história em homenagem a guerrilheira Alemã Monica Ertl, que entre outras coisas matou um dos algozes do Che e morreu tentando sequestrar o criminoso de guerra Klaus Barbie.

Faço a direção de arte pro longa-metragem da Otto Desenhos Animados, Fuga em Ré para Kraunus e Pletskaya. Mas o mais importante é que no próximo ano sairá pela editora Espanhola Mediavaca o livro com as 400 páginas da minha cidade de montar, um projeto de cidade imaginária (tem 25 metros atualmente e segue sendo desenhada) que venho fazendo desde 1990.

Essa editora é bem pequena, mas tem muitos prêmios e é respeitadíssima. E são loucos o suficiente para editar um livro que será desmontado para formar um grande painel em estilo outdoor. Também não desisti da vida acadêmica, mas como recém entreguei minha dissertação sobre o grande Canini (Canini e o anti-herói brasileiro: do Zé Candango ao Zé Carioca) estou dando um tempo.

Ano que vem pretendo retomar essa vida com um doutorado (provavelmente algo sobre autoria), mas antes de tudo pretendo descansar uns dias na virada do ano, na minha casinha de Florianópolis, que ninguém é de ferro, muito menos eu.

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O Impulso HQ agradece a Eloar Guazzelli pela entrevista concedida.

Renato LebeauquadrinhosCanini,Dias Gomes,editora Agir,editora Ática,Eloar Guazzelli,Escrava Isaura,Graffitti,Klaus Barbie,Marcelino Freire,Monica Ertl,Pagador de PromessaNo mês de Abril desse ano foi lançado pela editora Agir o álbum de quadrinho nacional O Pagador de Promessas, obra com o texto original de Dias Gomes, que produzido pelo quadrinhista gaúcho Eloar Guazzelli. O Impulso HQ conversou via e-mail com o quadrinhista, que é mestre em Ciências da...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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