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Edvanio – ou simplesmente Ed –  Pontes, diz ter começado nos quadrinhos um tanto tarde, apesar de sempre ter sido apaixonado por esta mídia. Começou produzindo pequenas histórias com canetas Bic, em papel sulfite dobrado e pintando depois com lápis de cor.

Quase que no mesmo momento em que começou a colecionar quadrinhos, decidiu também a produzir suas próprias HQs! Desenhava, escrevia, montava, editava e, assim, produziu inúmeros fanzines.

Apesar de se considerar como um legítimo fanzineiro, é  tido, por muitos colegas quadrinhistas, como um dos roteiristas com a mente mais produtiva da atualidade, já tendo participado de várias publicações nacionais (muitas vezes ao mesmo tempo), como Projeto Continuum, Manicomics, Sobrancelha, Liga do Cerrado, São Frederico e outros vários projetos em circulação, além de editar o seu próprio título, o Arena.

Atualmente também faz parte do time criativo do Penitente, sendo um dos roteiristas mais engajados. Também o seu próprio selo, o Quatro-Folhas Quadrinhos com diversas publicações.

Mas Ed não fica apenas nos quadrinhos, pois além de seu blog, gosta também de ler muitos livros e de escrever roteiros para cinema.

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Arte de Samuel Bono

Rod Gonzalez: Seu personagem mais conhecido provavelmente é o Coelho Puto. Fale sobre a criação do personagem.
Ed Pontes:
Pois é. O Coelho Puto é o que as pessoas mais se identificam. Sei lá porque cargas d´água.

O personagem surgiu de uma dor de dente. Isso aí! Uma dor de dente. No meu término do curso de quadrinhos que fiz aqui em Fortaleza ministrado por Daniel Brandão quando este ainda se chamava Graph It Estúdios, nós tínhamos que criar uma HQ de quatro páginas para finalizar o curso e criar um fanzine ali em junho de 1999.

Minha HQ seria algo intimista sobre um vigilante. Mas uma tremenda dor de dente me tirou todo o “gás” (concentração) pra fazer isso, e com o tempo urgindo criei nas pressas o Mundo Escroto, de onde surgiu o Coelho Puto, Mulher Piranha, Meleca a Dar Com Pau e o Cérebro de Mosca com Câimbra. Fez um tremendo sucesso internamente e ganhou vários fãs por Fortaleza.

Foi uma surpresa pra mim. Acredite!

R.G.: E quanto aos que o acusam de ser um plágio do Lobo (DC), o que poderia dizer para estes?
E.P.:
Na verdade poucas pessoas acusaram o Coelho Puto de plágio em relação ao Lobo da DC. Na verdade mais o compraram do que houve de fato algum tipo de acusação. Se houve, não fiquei sabendo. Como eu disse, o Coelho Puto “nasceu” no susto.

A última coisa que pensei foi no Lobo ou em qualquer outro personagem já criado igual a ele. Até porque tirando o lance dos dois serem “fodões”, eles são bem diferentes. O CP é um personagem mais escatológico dentro do contexto que eu o traço. O Lobo é mais “sou o maioral e blá- blá- blá”.

Ainda assim, até aquele momento eu nunca tinha lido uma HQ do Lobo e chegaram a comparar o CP com Chiclete com Banana (que eu também não conheci muito na época). E mesmo que acusem, eu não dou a mínima.

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R.G.: Apareceu um tal Pato Puto na Mad, você viu?
E.P.:
E tem um Pato Puto na MAD? Hahahaha! Não, eu não sabia disso! Tô meio por fora.

R.G.: Quantas HQs do Coelho Puto você já produziu?
E.P.:
Muitas. Já lancei todas em fanzines espalhados meus e depois as reuni num primeiro especial do Mundo Escroto. Ao total são três especiais do Mundo Escroto dois em torno de 40 páginas e um de 24.

Depois teve mais duas HQs que saíram no fanzine que edito chamado Arena com dois artistas diferentes ilustrando, Jackson Gebien e Adriano Sapão. Pretendo a partir do próximo ano reeditar todo esse material bem arrumadinho e criar coisas novas.

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R.G.: O que você achou d HQ do Coelho Puto desenhada por Bruno Sauerbronn?
E.P.:
Eu vi também. Na verdade, tá com um tempo. Eu adorei! Primeiro porque ele fez porque teve vontade de fazer. Eu não pedi. Ele fez e isso é ótimo!

Ele pegou bem o espírito do personagem. É muito bom quando um artista (ainda mais amigo seu) resolve lhe dar um presente desses. Eu não recebo muitos presentes assim e achei fantástico! O Brunão é um cara que saca muito de quadrinho nacional e foi uma honra.

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R.G.: Você se recorda de quando começou a desenhar?
E.P.:
Não lembro bem, mas acredito que eu tinha sei lá… uns 11 ou 12 anos. Mas a fazer quadrinhos mesmo, a me interessar por produzir e tudo, já comecei meio velho, pra lá dos 18 anos. Na verdade eu nunca aprendi a desenhar.

Não é meu forte. Faço porque não tem quem faça pra mim. Gosto mesmo é de criar, escrever e vez por outra fazer arte-final.

R.G.: Como foram suas primeiras produções com HQs?
E.P.:
Folha de A4 usada de um lado e de outro, colorido com lápis de cor. Depois comecei dobrando as folhas, já meio que num formato de quadrinho. Isso em 1989. Mas como vale frisar, só me interessei mesmo depois dos 18 anos, lá pra 1994/1995. Era divertido.

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R.G.: Você é uma verdadeira máquina de produzir fanzines, você possui arquivado tudo que já produziu?
E.P.:
Sim. Tenho tudo guardado. Até minhas HQ de papel dobrado. Na verdade, até minha primeira HQ, chamada de Capitão Trovão! Tenho todas as minhas “fases”.

Acho legal poder rever esse material cheio de poeira de vez enquanto.

R.G.: Foram quantos fanzines até agora, já contabilizou?
E.P.:
Eita! Eu nunca parei pra contar de fato. Sei que dos fanzines que fiz desde que fiz o curso da Graph It em 1999, cheguei a fazer até 2005 mais de 50 fanzines diferentes com personagens diferentes. Antes disso eu já tinha uma outra bolada de zines com outros personagens.

Posso dizer que se eu parasse de produzir hoje, e pegasse tudo o que tenho e fosse relançando, eu poderia parar de produzir pelos próximos 5 anos e ainda assim eu conseguiria  lançar um fanzine por mês.

Sem contar colaborações em outros fanzines com roteiro, arte-final e desenho. Mas não sei te precisar um número exato.

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R.G.: Poderia destacar outros personagens seus além do Coelho Puto?
E.P.:
Gosto bastante de Caçadores de Aventuras sobre arqueólogos brasileiros com uma pitada de sobrenatural e  muita (claro) aventura. Gosto de Invasora do Espaço, sobre uma personagem de origem brasileira que vaga pelo cosmos quando a raça humana jaz quase extinta.

Gosto dos dois assassinos de Dois Canos Quentes, pela parte da ironia… ah… tem uma pancada que gosto.

Adoro todos. E os estou relançando desde o começo do ano aos poucos. Logo pretendo relançar todo o meu “catálogo” e ao mesmo tempo ir lançando coisas inéditas, pois ainda tenho bastante material. É só questão oportunidade e que meu bolso não quebre muito.

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Arte de Anderson Cossa

R.G.: Há alguns anos atrás você anunciou a produção de Guerra Heróica, uma grande saga trazendo um encontro entre diversos super-heróis brasileiros da atualidade. Como está o andamento do projeto?
E.P.:
Eu comecei a fazer isso. Escrevi muitos roteiros, desenhei alguns, mas nunca botei pra frente. Ainda pretendo reunir uma gama de personagens nacionais e sei que posso fazer isso, mas não nesse momento.

Quanto as HQs que fiz para essa saga, eu já reescrevi os textos e estarei lançando entre esse ano e o outro. Em outubro já terei Bucha & Poderoso Porco, dos amigos Samuel Bono e Lucas Ed respectivamente e o Homem Suvaco, criação de Geuvar Oliveira.

Fora os roteiros escritos que ainda vou ilustrar. Eu tenho outra idéia pra Guerra Heróica que irá funcionar melhor, mesmo que em longo prazo.

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R.G.: Quais seus quadrinhistas brasileiros favoritos da atualidade?
E.P.:
Eu sou fã de todos que fazem. Pra mim aquele artista que produz é o cara do qual eu admiro. Sou amigo de muitos deles e aqueles que não tenho muito contato, sempre tento manter uma proximidade.

Não seria justo eleger alguns poucos, pois admiro muitos artistas e acompanho de perto os que estão fazendo a diferença. Que estão lutando.

R.G.: E os veteranos?
E.P.:
Adoro Flávio Colin, curto bastante o nosso “samurai” Julio Shimamoto, gosto da força de Emir Ribeiro, Gedeone Malagola, e principalmente de caras que fizeram HQ de terror no Brasil como Toninho Lima, José Menezes, Renato Silva (Garra Cinzenta) e tantos outros.

Não consigo lembrar de muitos assim de cabeça. Mas a “velha” guarda pra mim é uma grande fonte pesquisa e inspiração.

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Capa do especial do CP com arte de Bruno Nastri e texto de Rédi Roger

R.G.: Acredita no futuro da HQ nacional?
E.P.:
CLARO! Puxa, estamos mais produtivos que nunca, mesmo que de forma independente. Conheço e vejo muita gente produzindo, tanto quadrinhos impressos quanto online.

Hoje você sempre vê os sites “especializados” dando notícias de alguma coisa sendo produzida aqui dentro, o que era mais raro alguns anos atrás. O autor nacional está crescendo cada vez mais. Só precisamos saber centralizar essa crescida e principalmente ler.

O criador nacional tem uma grande deficiência quando se trata de escrever. Mas nada que com muita leitura e estudo não possa resolvido. Estamos no caminho certo. Acredito piamente nisso!

R.G.: Você fez parte de um movimento de quadrinhistas que se tornaram relativamente famosos na Internet a partir de seus fotologues no provedor Terra. Conte-nos um pouco sobre esse movimento, que infelizmente já não possui a mesma força.
E.P.:
Ahhh, cara. Isso é legal! De fato foi um período mágico. Acredito que para muitos artistas, que assim como eu, não tinha tanto contato com outros criadores e que por conta dos fotologs dentro do Terra, muitas fronteiras foram ultrapassadas.

Muitos projetos surgiram nesse período, fiz bastante amizade com muitos artistas talentosos de todo o Brasil e isso rendeu inúmeros projetos. Nem todos vingaram, mas os que foram finalizados pra mim é motivo de orgulho.

Infelizmente o movimento de fato hoje decaiu bastante. Pelo menos se comparado a antes. Mas todo dia surgem novos artistas, e novas criações. Isso é bom. Muito bom.

Ainda acredito nessa rede. Ainda é um ótimo espaço para se trocar idéias e projetos.

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R.G.: Quais os seus projetos atuais?
E.P.:
Uma pancada e espalhado nas mãos de um monte de gente, e nas minhas também. Desde o começo do ano venho reeditando meu material mais antigo e criando mais.

Estou com o Arena nº3 no forno, tem roteiros pra Liga do Cerrado e Penitente a dar com rodo, projetos com o pessoal do Projeto Continiuum onde trabalho com dois personagens da casa (no caso Sobrancelha de Daniel Siqueira e Pétreo de Rafael Tavares), e mais umas coisinhas com meu chapa do brejo Adriano Sapão.

Editei um fanzine pra um amigo da Paraíba (que ainda será lançado), e fora uma pancada de outros projetos paralelos com outras pessoas. Acredito que aos poucos tudo isso vá surgindo.

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R.G.: Como os interessados podem adquirir seus fanzines?
E.P.:
É simples. É só me contatar pelo meu blog que criei justamente para mostrar o que estou fazendo em termos de produção independente. É só acessar o Quatro Folhas.

Bem, grande Rod… valeu pela oportunidade. Você é um cara que respeito muito e principalmente essa sua vontade de ver cada vez mais o quadrinho nacional crescer.

Eu admiro isso em você. Sucessos pra você sempre e um abraço ao pessoal do Impulso HQ.

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O Impulso HQ agradece mais uma vez a Rod Gonzalez por sua gentileza em enviar a entrevista e permitir que ela seja publicada.

Renato LebeauquadrinhosAdriano Sapão,Bruno Sauerbronn,Cérebro de Mosca com Câimbra,Coelho Puto,Daniel Siqueira,Ed Pontes,Edvanio,Emir Ribeiro,Flavio Colin,Gedeone Malagola,Geuvar Oliveira,Graph It Estúdios,Jackson Gebien,Júlio Shimamoto,José Menezes,Liga do Cerrado,Lobo,Lucas Ed,Mad,Manicomics,Meleca a Dar Com Pau,Mulher Piranha,Penitente,Projeto Continuum,Quatro-Folhas,Rafael Tavares,Renato Silva,Rod Gonzalez,Samuel Bono,São Frederico,Sobrancelha,Toninho LimaEdvanio - ou simplesmente Ed -  Pontes, diz ter começado nos quadrinhos um tanto tarde, apesar de sempre ter sido apaixonado por esta mídia. Começou produzindo pequenas histórias com canetas Bic, em papel sulfite dobrado e pintando depois com lápis de cor. Quase que no mesmo momento em que começou...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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