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Daniel Esteves no Troféu HQMix em 2009

O entrevistado da vez é o roteirista e editor da Nanquim Descartável. Ele também faz outras coisas, além disso, como dirigir e lecionar na escola HQEMFOCO.

Sendo um roteirista no Brasil, faz parte do escasso grupo que tenta provar àqueles que dizem que não existe roteiro bom no país que não é bem por aí.

Chega de papo, ou melhor, vamos ao papo. Com vocês, Daniel Esteves.

Impulso HQ: Você se formou num curso técnico de Desenho de Comunicação e fez diversos cursos de roteiro e quadrinho antes de cursar uma universidade. Na época, o fato de não ter um diploma de graduação convencional afetou o seu trabalho?
Daniel Esteves:
Quando entrei na faculdade estava começando a trabalhar com quadrinhos. Mas o fato de me formar não me trouxe qualquer vantagem real. Poderia largar minha faculdade no meio, ou nem iniciar uma. Tem vários quadrinistas que não possuem diploma de graduação.

No meu caso, a escolha por fazer História, foi por já gostar do assunto, achar que me ajudaria de alguma forma como roteirista e também por adorar dar aulas. Se tudo der errado com quadrinhos, tenho ali uma outra possibilidade de trabalho que me agrada bastante, não tanto quanto quadrinhos, mas que eu também gostaria de fazer. Hoje estou completamente afastado da História, sequer para escrever quadrinhos, tendo em vista que não me faz muito a cabeça ficções históricas.

Não que não goste de ler histórias ambientadas em tempos remotos, mas não tenho tanto interesse em produzir algo nesse campo. Até voltando à formulação de sua pergunta, acredito que o curso técnico rendeu muito mais para os quadrinhos do que o diploma de graduação, já que durante esse curso conheci muitas pessoas que também partilhavam do sonho de fazer quadrinhos e, a partir disso, que pude enxergar um horizonte pra esse desejo.

Apesar da maioria que pensava em fazer quadrinhos não ter seguido nessa área, ainda tem um ou outro, seja da minha turma, ou de turmas próximas que produz quadrinhos até hoje, como o Rodrigo Taguchi (Garagem Hermética e Cão) e o Ronaldo Barata (Quanta).

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Daniel Esteves no Troféu HQMix em 2007

IHQ: Qual foi a emoção de ganhar o prêmio Angelo Agostini e o prêmio de Publicação Independente de Autor na HQ MIX 2009? O que representa pra você ganhar prêmios como esses?
D.E.:
É o sonho de muita gente que faz quadrinhos. Ter seu trabalho reconhecido por seus pares. Confesso que imaginei muitas e muitas vezes momentos como esse, durante o tempo que faço quadrinhos. Lógico que prêmios não são o motivo do meu trabalho. Quero contar boas histórias. Mas os prêmios também ajudam com um reconhecimento diferente.

A partir do HQMIX de 2007, que recebi como roteirista revelação, muitas coisas aconteceram. Talvez acontecessem mesmo sem o prêmio, tendo em vista que já vinha lutando nessa área há anos, mas acho que foi um marco bacana nessa minha curta estrada. De qualquer forma, apesar de publicar quadrinhos com certa regularidade desde 2002, meu trabalho só foi ficar um pouco mais conhecido depois de 2007.

Mas os prêmios passam. No máximo ficam no currículo. O que permanece de verdade é o trabalho que você produz. Caso não produza algo bom novamente em pouco tempo já esqueceram de você e de qualquer prêmio que você recebeu. O Laerte não é o Laerte por receber prêmios todos os anos. Ele recebe prêmios todos os anos por sempre produzir coisas ótimas.

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Página de Nanquim Descartável nº2 (2008), desenhos de Wanderson de Souza

IHQ: Durante o processo de criação de uma HQ, quando o roteirista e o desenhista não são a mesma pessoa, é muito fácil que a visão do idealizador da obra seja modificada pelo ilustrador. O que você poderia dizer sobre essa relação roteirista-ilustrador?
D.E.:
É bem complexa. Às vezes tudo funciona. Noutras algo fica faltando. O importante é saber como lidar com cada tipo de desenhista. Pra alguns sei que tenho que descrever mais, tudo nos mínimos detalhes. Pra outros posso deixar algumas coisas em aberto, pois confio na interpretação deles. Além disso, você tem que perceber o que pode captar de melhor em cada desenhista.

Uma coisa que tem funcionado bastante pra mim é conversar muito com os desenhistas, pra além do roteiro fechado que já entrego. Pra ele sentir todas as intenções, minhas idéias, etc. E eu também entender aquilo que ele está captando. Perceber certas mudanças em cenas que acabam beneficiando a história. Costumo pedir pra ver os esboços do desenhista.

E com base nisso sugerir alterações, entender as mudanças por ele propostas, etc. Minha intenção é sempre contar a história da melhor forma possível, se o desenhista tiver alguma proposta que melhore a narrativa com certeza eu embarco. Já tive caso de trabalhar com desenhistas que sequer conhecia, ou que pouco conversava, e eles conseguiram captar tudo da forma exata como eu imaginava.

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Página de Off, publicada na revista Quadrinhopole nº5 (2007), desenhos de Bira Dantas

Por outro lado já trabalhei com desenhistas com uma proximidade incrível e no final das contas o resultado não foi o que eu pensava. Acho que depende não só do desenhista, mas da forma como escrevi o roteiro e também da própria história. Algumas histórias são mais simples, mais fáceis de desenhar, outras são mais difíceis mesmo e exigem muito mais, tanto do roteirista, quanto do desenhista.

Se for pensar, por exemplo, na série Nanquim Descartável, lá tenho uma dificuldade diferenciada, que é coordenar uma equipe de desenhistas produzindo uma mesma história. Pra isso funcionar normalmente um desenhista faz o visual das personagens praquela edição e eu vou trocando mensagem com todos os desenhistas, pra que eles vejam o trabalho uns dos outros.

Tudo se complica ainda mais por terem cenários, roupas e personagens recorrentes, que por mais que estejam em estilos variados não podem mudar na forma ou aspecto. Acredito que tem dado certo no caso da Nanquim, mas isso com certeza é resultado de já trabalhar com diferentes desenhistas nos últimos anos em histórias variadas.

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Página de Nanquim Descartável nº3 (2009), desenhos de Wanderson de Souza

IHQ: É uma tarefa muito, MUITO árdua ser editor de uma produção independente?
D.E.:
Pra mim é mais difícil do que escrever. Não que criar histórias seja uma tarefa fácil, mas ao menos é totalmente prazeroso. Ao editar preciso lidar com certas questões que não me agradam tanto e acabo fazendo várias coisas sem grande empenho. Na verdade, editar a PRODUÇÃO da revista é um imenso prazer.

Lidar com todos os desenhistas, com essa questão de vários artistas na mesma edição, pensar no número de páginas, no que vai ter em cada uma, na coerência das histórias, no universo que a série se propõe a retratar, em como distribuir as partes da revista, no editorial, tratamento de capa, fechamento dos arquivos, tudo isso é incrível.

O problema é a pós-produção, ou seja, divulgação, distribuição, estratégias de venda, etc. Nesse outro campo eu admito grande ineficiência. Mas não sinto as editoras que publicam material nacional, exceto Maurício de Souza, com um grande planejamento nesse sentido.

Ainda falta muito pros editores de quadrinhos nacionais, sobretudo na arte de vender seus produtos. Bem que o Maurício de Souza podia nos passar um pouco do seu mel, não?

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Página de Confissão, publicada na revista Quadreca nº15 (2006), desenhos de Mario Mancuso

IHQ: Em poucas palavras, poderia nos dar uma ilustração do Quarto Mundo?
D.E.:
O quarto mundo é uma reunião de autores de quadrinhos independentes do Brasil todo, entenda-se por independentes aqueles que se auto-editam, mas não necessariamente que fazem quadrinhos apenas dessa forma, muitos publicam também por editoras, ou até mesmo fora do país.

Tampouco que tenham propostas exclusivamente undergrounds. As propostas editoriais presentes dentro do quarto mundo são heterogêneas, não cabendo ao grupo qualquer tipo de policiamento ou função editorial. A proposta do coletivo é que os artistas se ajudem com divulgação, distribuição, informações, presença em eventos, na internet, exposições, entre outras atividades.

As palavras chaves são: AJUDA e TROCA, pois sem isso o coletivo não se mantém. Cada pessoa lá dentro tem que buscar seu espaço e uma forma de ajudar a todos, pra que o trabalho que o autor acumula como editor e produtor, exatamente aquele que eu citei acima como o mais custoso e difícil, seja simplificado.

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Integrantes do Quarto Mundo no FIQ! 2007

IHQ: A Nanquim Descartável fez sucesso em sua primeira edição, recebendo indicação ao HQ MIX de 2007, e a segunda edição, ao HQ MIX de 2009. Qual sua impressão sobre a terceira edição e qual sua expectativa para a próxima? Terão novos ilustradores?
D.E.:
Falando da terceira, foi uma edição com mais páginas e novamente uma história completa, como foi no segundo número. Duas novas personagens aparecem: a irmã mais nova da Ju e uma amiga que ela não via há muito tempo e voltou dando uma balançada na relação da Ju com a Sandra.

A história é mais uma daquelas tramas onde aparentemente nada acontece muito pautada no diálogo das personagens, mas também no relacionamento entre elas. Cotidiano puro.

Vários assuntos são tratados, como ciúmes, segredos, amizade, paixões perdidas, vegetarianismo, música, entre outros. Algumas sub-tramas continuam no fundo das histórias, além de novas tramas surgindo aos poucos. Um elemento que testei nessa edição foi à inclusão de dois pequenos contos mesclados a linguagem dos quadrinhos. Talvez continue com isso para as próximas revistas.

No desenho, as novidades ficaram por conta do Laudo e do Mário César, que estrearam nesse número da revista. Temos também a presença já cativa do Wanderson de Souza, Júlio Brilha e Carlos Eduardo (arte-finalista), únicos artistas a participarem de todas as edições. Além deles o Mário Cau, que participou do segundo número, tornando-se também um desenhista fixo na revista (se ele estiver disponível para as próximas, claro).

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Página de Nanquim Descartável nº1 (2007), desenhos de Wanderson de Souza

A capa é do Wagner de Souza, que participou das outras edições da Nanquim e foi o primeiro desenhista a materializar o visual das personagens, quando estava criando a série. Completando a equipe o Samuel Bono também fazendo arte-final.
Para a próxima edição pretendo resolver uma das tramas que vêm se delineando desde a primeira edição.

Na primeira foi algo bem sutil, na segunda e terceira já apareceu com maior importância. Agora será o centro da história. Pretendo também adicionar novos elementos pra história delas, apesar do foco principal ser essas pontas soltas.
Possivelmente a quarta edição será quase um álbum, pelo tamanho que a história ficou, mas ainda não decidi em formas de impressão, se optarei por revista mesmo, ou partirei para um álbum.

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Página de Trinta, publicada na revista Algumas Histórias (2007), desenhos de Wanderson de Souza

IHQ: Quais são as maiores dificuldades na produção da Nanquim Descartável? Que dicas você daria para quem quer começar a editar sua própria HQ?
D.E.:
Bom, pra além de meus problemas de organização de tempo pra escrever, acho que o maior problema é mesmo divulgação, distribuição, venda, etc. É difícil levar as revistas até o seu público. Acho até que o possível público da Nanquim ainda não foi atingido de forma satisfatória. A Nanquim não é exatamente um quadrinho pra quem lê quadrinho.

Pode atingir esse público incidentalmente, mas não é isso que pretendo. Quero vender quadrinho pra quem não lê quadrinho. Pra quem quer apenas acompanhar uma história simples, sem grandes pretensões, que fale sobre e para certo tipo de pessoa.

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Página de Lado A Lado B, publicada na revista Front nº20 (2010), desenhos de André Freitas

IHQ: Dicas?
D.E.:
Primeira: Não seja como eu. Seja disciplinado na hora de criar. Eu não sou nem um pouco.

Segunda: Ou tenha um grande plano comercial (o que não é meu caso, rá! rá! rá!), ou tenha algo que você realmente ache importante compartilhar com as pessoas. Se você tiver os dois melhor ainda.

Terceira: Seja sincero com você e com os seus leitores. Tente encontrar algo que você goste de fazer. Não necessariamente o que você gosta de fazer é o que você cresceu lendo. Se desvencilhe das referências óbvias, que podem tornar seu trabalho uma cópia de algo que você lia muito.

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Página de Destino, publicada na revista HQ em Foco mangá (2004), desenhos de Alex Rodrigues e Wagner de Souza

Quarta: Não acho que necessariamente você deva sair por ai auto-editando sua revista logo de cara. Antes de editar a Nanquim Descartável eu já tinha editado alguns materiais meus, mas também já tinha participado de diversas revistas, como a Quadreca e a Front. Além disso, não acho que seu trabalho deva ficar ligado apenas a uma coisa, mesmo produzindo a Nanquim continuei participando de várias outras revistas, como a Quadrinhópole, Café Espacial, Garagem Hermética, Subterrâneo, Subversos, entre outras. Procure as pessoas, você pode começar a fazer parcerias e participar de outros projetos antes de editar o seu.

Quinta: Não faça quadrinhos, esse universo é muito bacana, mas está repleto de gente querendo se engalfinhar e provar o quanto seu pinto é maior do que do outro.

Sexta: Se você realmente gosta disso… Então tente! Mas se sua paixão não for grande o suficiente é melhor procurar outras paragens.

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Página de Uma Criança, publicada na revista Quadreca nº14 (2005), desenhos de Val

IHQ: Aqui no Brasil, não temos nenhuma grande produção de porte literário nos quadrinhos, talvez isso tenha gerado a pouca visibilidade dos roteiristas brasileiros. Será que isso é apenas uma questão social? Quais ingredientes faltam para engrossar o caldo dos nossos roteiros, em sua opinião?
D.E.:
Falta espaço pra publicar? Mercado? Bons roteiristas têm aos montes por ai, acho bobagem dizer o contrário. Por que na TV temos? Por que no teatro temos? Por que temos ótimos escritores?  Pelo pouco espaço acabamos nos limitando muito a tirinhas, por exemplo.

Coisas de solução rápida que normalmente são feitas por um só autor (normalmente muito competentes).

Histórias longas são em número bem menor. Mas acredito que nos últimos tempos os roteiristas têm conseguido algum destaque. Basta ver os nomes dos últimos 15 anos: Wellington Srbek, André Diniz, Wander Antunes, Gian Danton, entre muitos outros. Além disso, algumas editoras e outros quadrinistas independentes têm investido em histórias mais longas nesses últimos anos.

Vamos ver pra onde isso vai a seguir. Acredito que quanto maior o espaço para produções de grande fôlego, maior o crescimento e reconhecimento dos roteiristas.

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Integrantes do Quarto Mundo no FIQ! 2009

IHQ: Você é diretor e professor da escola de quadrinhos HQEMFOCO. De que forma sua experiência de dirigir e lecionar se relaciona com sua questão pessoal de produção?
D.E.:
As relações vêm de variadas formas. Desde o fato de poder refletir mais a respeito da produção ao ensinar, o que sempre ajuda, até a mudar minha forma de dar aulas conforme mudam também meus interesses como roteirista. Posso perceber o que estou valorizando mais a cada fase do meu trabalho como autor, pelo que tenho mais prazer em dar aula. Quando paro pra reparar esse tipo de coisa consigo até voltar aos últimos anos e entender melhor a evolução do meu trabalho.

Se isso vai dar em alguma coisa boa ou não, já não sei, mas percebo que nos últimos tempos fui abandonando minhas preocupações diretas com a narrativa dos quadrinhos, a forma de contar, para adotar um método mais fluido de criar. Ao menos em certos tipos de histórias e a Nanquim se enquadra bem nisso.

Nesse ínterim vejo que a vontade de fazer quadrinhos tem se tornado cada vez mais segundo plano, suplantada pela vontade de CONTAR HISTÓRIAS. Lógico que minha forma favorita de fazê-lo é através dos quadrinhos, mas às vezes enxergo certas histórias como contos ou possíveis roteiros para o meio audiovisual.

Não acho que irei me aventurar tanto por essas outras áreas, mas é legal reparar esse tipo de coisa. Talvez isso me faça enxergar os quadrinhos de outra maneira e até mesmo me faça avançar na forma de contar histórias.

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Página de Tentáculos, publicada na revista Garagem Hermética (2006), desenhos de Caio Majado

IHQ: Quais são suas HQs favoritas?
D.E.:
Difícil fazer uma lista desse gênero. Sobretudo porque minha memória é péssima e com certeza vou esquecer de algo que adoro. Mas vamos a uma lista sem muita lógica, apenas algumas lembranças: Calvin e Haroldo, Mafalda, Peanuts, Ken Parker (e outras obras do roteirista Giancarlo Berardi), Asterix, Gen Pés Descalços, Maus, Watchmen, Monstro do Pântano (escrito pelo Alan Moore), Do Inferno, Constantine (quando feito pelo Jaime Delano ou pelo Garth Ennis), Transmetropolitan, Avenida Dropsie, praticamente tudo que o Laerte fez, o mesmo para o Mutarelli, o Angeli inspirado, o Fernando Gonzales, Bone, Balas perdidas, Love and Rockets (em especial as histórias do Gilbert Hernandez), Freak Brothers, tudo do Joe Sacco, Fun Home, Tina Modotti, Epiléptico, Corto Maltese, Miguelanxo Prado, Persépolis, Estórias Gerais (do Srbek e do Colin), o recém-lançado Yeshuah do Laudo, a Front, alguns materiais do Fábio Moon e do Gabriel Ba, a revista Café Espacial… Ah, tem outras coisas, muitas outras.

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