fujita_01

Com pouco tempo como colaborador do Impulso HQ, não esperava fazer uma entrevista tão cedo, entretanto, quando caiu em minhas mãos a tarefa de entrevistar Artur Fujita fiquei muito empolgado, pois é um artista de grande qualidade que, além de ser professor da renomada escola Quanta Academia de Arte, faz trabalhos tanto para o mercado europeu quanto americano.

A entrevista por e-mail foi um bate-papo sobre sua vida, suas experiências e seus trabalhos, onde o artista releva suas influências, as diferenças entre os mercados que ele já trabalhou e seus próximos projetos.

Fujita é um profissional que tem muita coisa a ensinar, e com certeza aprendi um pouco mais com essa entrevista. Espero que gostem.

Entrevista:

fujita_05

Impulso HQ: Dizem que todo quadrinhista é apaixonado por quadrinhos, então quando foi que você começou a ler quadrinhos e quais foram os títulos que você mais gostou de ler?
Artur Fujita:
Não tenho certeza de quando comecei. Provavelmente foi com a Turma da Mônica quando eu era bem pequeno. Depois li alguma coisa da Disney, principalmente Tio Patinhas, muito por influência dos desenhos animados (Duck Tales). Super-herói mesmo foi na adolescência, também por causa dos desenhos. Adorava Homem-Aranha e X-Men!

Sempre achei um saco o desenho dos Super-amigos, achava ridículas as lições de moral no final dos episódios, que sempre acabavam com uma gargalhada em grupo. Claro que as lições morais também existiam nos desenhos da Marvel, mas era uma coisa mais bem disfarçada, pelo menos era a impressão que eu tinha na época. Acho que por causa dessa influência dos desenhos, li muito mais Marvel do que DC.

fujita_02

Peguei a fase dos anos 90. Curtia na época o Aranha do McFarlane e os X-Men do Jim Lee. Sempre fui fã de qualquer coisa que o John Byrne fazia até então. Sou um puta fã ainda do Bill Waterson (Calvin e Haroldo) e do Laerte, que pra mim é o quadrinista mais completo do país.

IHQ: E dos quadrinhos que você trabalhou, quais você mais gostou?
A.F.:
Acredito que seja a Odisséia mesmo, mas por causa do desenho. Sou um grande fã também do trabalho do Greg Tocchini. O tema épico nem é dos meus favoritos, mas o desenho do Greg é muito acima da média. Me diverti fazendo a adaptação pra quadrinhos do Taikodon, jogo 3D pra computador, com desenhos do Eduardo Ferrara.

Uma vez, fiz umas páginas de teste no traço do Roger Cruz no X-Men First Class, infelizmente acabou não rolando, mas provavelmente seria o trabalho que eu curtiria mais fazer. Acho que o meu tipo de trabalho se encaixa melhor com o tipo de traço do Roger do que com o do Greg.

fujita_03

IHQ: Por que você decidiu ser colorista, e quais artistas você teve como influência nessa área da ilustração?
A.F.:
É uma coisa que acabou rolando, não foi muito planejado. Eu queria ser desenhista na verdade, mas não era bom o suficiente. O meu traço é cartoon demais pro gênero super-herói, então pra entrar no mercado americano, resolvi ser colorista, que é uma coisa que eu curto também.

Comecei pintando storyboard pra publicidade e alguns projetos de quadrinhos pro mercado nacional, até que resolvi fazer alguns testes lá pra fora através da Art&Comics, com o Joe Prado.

Acho que o colorista que mais me influenciou foi o Hermes Tadeu. Ele pintava storyboard pro estúdio da Fábrica de Quadrinhos quando eu estava começando. Sempre que chegava trabalho dele por e-mail eu ficava um puta tempo olhando, tentando entender como ele fazia aquilo. Lembro que ele pintou um storyboard desenhado pelo Greg. É o storyboard mais bonito que eu já vi na minha vida! Hermes foi também o primeiro colorista brasileiro a trabalhar pro mercado americano. Infelizmente morreu de maneira trágica quando estava começando a trabalhar pra Marvel.

fujita_04

Aprendi muito nessa época com o Octavio Cariello, Eduardo Schaal, Marcelo Campos e muitos outros.

IHQ: O álbum Outlaw: the Legend of Robin Hood acabou de ser lançado na Inglaterra e na Austrália. O que você achou desse trabalho? Tem previsão parar chegar ao Brasil?
A.F.:
Fico muito feliz de ter participado desse álbum. O pessoal tem elogiado muito, o que me deixa feliz, mas preciso dar o devido crédito ao Sam Hart, que é o desenhista. Fiz praticamente só a cor base. O Sam me entregava as páginas já com tons de cinza.

O meu trabalho era principalmente escolher as cores e aplicar uns efeitos de iluminação em um quadro ou outro. Gosto muito de participar de projetos diferentes, com processos diferentes. Acho um saco ficar fazendo sempre a mesma coisa da mesma maneira.

Infelizmente não sei se existe alguma previsão de lançamento por aqui. Gostaria muito que isso acontecesse.fujita_11

IHQ: Você trabalha para o mercado americano e europeu, além do brasileiro. Qual a relação de diferença e semelhança que você vê entre os três mercados citados?
A.F.:
A relação que existe pra mim entre os três mercados é a da liberdade criativa versus pagamento.

O mercado nacional paga muito mal (quando paga), porém dá muita liberdade. Por outro lado tem o mercado americano, que é o que paga melhor, mas no gênero super-herói pelo menos, dá menos liberdade. Você não pode viajar muito senão o editor reclama, e com razão. Se você quer liberdade total, vai fazer projeto pessoal.

O mercado europeu é o meio termo. Não paga tão bem quanto o americano e te dá um pouco mais de liberdade.

Claro que isso tudo que estou dizendo é baseado em minhas experiências. Não quer dizer que é a realidade ou verdade absoluta. Pra mim funcionou assim, pra outros artistas talvez tenha sido diferente.

fujita_06

IHQ: Não é fácil para um artista que pretende trabalhar com HQs no Brasil, para um colorista, menos ainda. Que toques você daria para um colorista que pretende se desenvolver profissionalmente?
A.F.:
Existem caminhos diferentes. Você pode trabalhar com quadrinhos no Brasil no mercado editorial mas também no publicitário. Existe o quadrinho institucional, pra empresas se comunicarem com seus funcionários ou clientes. Você pode fazer quadrinhos pra livros didáticos também. As pessoas têm que parar de achar que quadrinhos é só super-herói ou Turma da Mônica.

O principal conselho que eu dou para o colorista, é que ele não seja apenas colorista. Tem que saber desenhar também, ser o mais versátil que ele conseguir. Ele só conseguirá evoluir até determinado ponto sem saber desenhar. Para ser um bom colorista precisa entender de anatomia, perspectiva, luz e sombra, etc… E todos estes conceitos você aprende desenhando!

fujita_07

Além disso, profissionalmente, quanto mais versátil você for, maior a chance de pegar um trabalho. Se não estiver rolando nenhum trabalho de colorista, você pode desenhar, ou fazer a arte-final, ou escrever… ouo seja, a probabilidade de você ficar parado é muito menor!

IHQ: Você participou da Fábrica de Quadrinhos e atualmente é professor de Ilustração Digital na Quanta Academia de Arte. Que aprendizado você obteve durante seu tempo como professor e o quanto isso influenciou na sua arte?
A.F.:
A Fábrica de Quadrinhos era uma escola e estúdio de artes. Os sócios se separaram e uma parte ficou com a escola, mudando seu nome para Quanta Academia de Artes, e a outra parte continuou com o estúdio mantendo seu antigo nome. Trabalhei para as duas empresas durante um tempo. Hoje em dia trabalho apenas na Quanta.

fujita_08

Continuo aprendendo muito dando aula. Quando você tenta passar um conceito aos alunos, precisa transformar em palavras muita coisa que você fazia intuitivamente antes, e por incrível que pareça, isso às vezes é quase tão esclarecedor para o professor quanto para os alunos! Quanto mais você entende um conceito, mais fácil é moldá-lo de modo a se alcançar o resultado desejado!

Além disso, os alunos vêm com as dúvidas mais diversas possíveis, e de vez em quando para sanar essas questões a gente precisa “entrar” na mente do aluno e tentar enxergar o desenho da mesma maneira deles. Com isso, além de encontrar a resposta para a pergunta, a gente encontra também uma possibilidade artística que não encontraríamos sozinhos!

fujita_09

E isso me influencia muito. Por que fazer tudo sempre da mesma maneira, se existem tantas possibilidades artísticas interessantes? Às vezes a influência é nítida, outras vezes mais sutil.

IHQ: Você terminou de colorir a adaptação da Marvel da Odisséia de Homero e está trabalhando agora na Guerra de Tróia. Você tem algum outro projeto para o futuro que possa nos dar uma palhinha?
A.F.:
Projeto é o que não falta! Projeto pessoal então nem se fala… Principalmente sendo amigo do Marcelo Campos! O cara não pára de inventar! E é sempre muito legal participar deles! Inclusive, semana passada ele me convidou pra participar de mais um!

Bom, colori recentemente uma história do Necronauta, personagem do Danilo Beyruth da Macacolândia para o portal da Oi, que deve entrar no ar em breve. Estou colorindo a história do Renato Guedes para o álbum em homenagem aos 50 anos de carreira do Maurício de Souza.

fujita_10

Participei de três álbuns de quadrinhos que devem ser lançados em breve: o terceiro álbum do Quebra-Queixo, que tem uma história escrita e desenhada por mim; um álbum infantil de hq chamado Zetz que também está pronto; e temos também um álbum de hq de artistas diversos com o tema “fim do mundo”, com outra história toda minha. E tem muito mais vindo por aí!

Estou terminando a penúltima edição da Guerra de Tróia essa semana e fiz um teste pra Marvel pra um outro trabalho há algum tempo. Não sei se vai rolar, mas de qualquer maneira não posso contar nada ainda.

Iuri MartinsquadrinhosArt&Comics,Artur Fujita,Bill Waterson,colorista,DC,Eduardo Schaal,Fábrica de Quadrinhos,Greg Tocchini,Guerra de Tróia,Hermes Tadeu,Joe Prado,Marcelo Campos,Marvel,Octavio Cariello,Odisséia,Outlaw,quadrinhos,Quanta Academia de Arte,Robin Hood,Roger Cruz,Sam HartCom pouco tempo como colaborador do Impulso HQ, não esperava fazer uma entrevista tão cedo, entretanto, quando caiu em minhas mãos a tarefa de entrevistar Artur Fujita fiquei muito empolgado, pois é um artista de grande qualidade que, além de ser professor da renomada escola Quanta Academia de Arte,...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe