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Emo Boy: Ninguém se importa com nada mesmo, então por que todos nós não morremos logo?

Independente de como surgiu o termo emo, e do que ele realmente significava ou queriam dizer seus idealizadores, a situação atual é mais ou menos como será descrita.

Emo torrnou-se elemento de identificação e bandeira levantada para uma geração que se considera ainda pior que algo totalmente inútil, que se considera diferente de todo mundo quando vê uma pessoa na rua, e que, entendendo o princípio de que as coisas só tendem a piorar, tem como solução o suicídio.

Exceto que, por não se matarem, continuam se lamentando eternamente.

O personagem Emo Boy, de Steve Emond (SLG Publishing, US$ 13,95), ilustra isso em Nobody Cares About Anything Anyway, So Why Don´t We All Just DIE? (“Ninguém se importa com nada mesmo, então por que todos nós não morremos logo?” ).

Em edição muito bem preparada, da frase de efeito imediato no subtítulo até o destaque da palavra Emo no nome do personagem e do autor, passando pela tonalidade de capa e toda a simbologia implícita, o livro certamente se destaca nas prateleiras de qualquer loja.

O próprio autor aparece apresentando o personagem, como numa forma de apresentação teatral, que remete a obra autobiográfica do quadrinhista J.M. De Matteis, Brooklin Dreams, e até a Piada Mortal, clássico do Batman assinado por Alan Moore e Brian Bolland.

A seguir, entram as histórias curtas do Emo Boy, que exploram todo o atual fenômeno de manifestação cultural. Ressaltando sentimentos que sempre existiram na vida de qualquer pessoa, consecutivamente mal interpretados em letras como “ontem me senti tão triste, pensei que iria morrer”, “você sabe que eu adoro quando as notícias são ruins, e por que é tão bom me sentir tão triste”, “eu pensei a vida não presta, ela não gosta de mim”, “Você deveria ver minhas cicatrizes”, “é uma idéia que existe na cabeça e não tem a menor pretenção de acontecer”, e o fenômeno Kurt Cobain, viver abaixo da fossa virou a maior onda.

Emo Boy, e fica estabelecido desde o início que se trata, para todos os efeitos e propósitos, de um super-herói, começa sua jornada numa seqüência de versos musicais imaginários que ressaltam e engrandecem toda a nobreza de se sentir a pior pessoa do mundo e desejar a qualquer preço a própria morte, ainda que seja preciso escrever muitos poemas sobre ficar sozinho num quarto escuro durante o processo.

A relação do Emo Boy com o ideal do super-herói e logo estabelecida, quando ele aparece deslocado usando óculos, e seria rejeitado por uma garota.

Invertendo a ordem natural, quando ele iria adquirir poderes e enganar a garota para que ela se apaixonasse por sua outra identidade gerando um triângulo amoroso que não pode ser rompido, acontece algo diferente. Os poderes são o fato de ele se tornar ainda mais emo, e a garota detonar o saco escrotal do Emo Boy, humilhar e desprezar o Emo Boy para que ele se sinta cada vez pior, e ainda mutilar seu corpo com altas doses de escatologia.

O romance gráfico e sua narrativa são estruturadas na forma de histórias curtas, em estilo caricato que surpreende em momentos oportunos com a utilização do exagero grotesco e surrealista, a insinuação de que Emo Boy poderá se matar no final – virgem, claro – e sacadas como uma garota dizendo “eu não sou dos Goonies”, Emo Boy traumatizado com a imagem de Tom Selleck pelado e uma referência sutil e muito mais apropriada do que se julgara até então do obscuro e cultuadíssimo filme Donnie Darko.

A relação com super-heróis é retomada diversas vezes. Até mesmo o fenômeno Efeito Borboleta pode ser vislumbrado em vários momentos da saga.

A evolução com outras tribos é estabelecida, levando a crer que gerações futuras acharão tudo isso muito estranho, e não deve parar tão cedo.

Diversos quadrinhistas de renome na cena autoral norte-americana marcam presença em pin-ups, como Elaine Hornby, Meg Hunt e Ross Campbell.

Um fenômeno como Emo Boy, que segue os passos de Emily- The Stange e Lenore – The Cute Dead Little Girl, assumindo status de marca e referência para a tribo que o originou, com camisetas e produtos licenciados, ainda que a humilhando cada vez mais – já que é isso mesmo que desejam, merece atenção.

O choque entre o cult e o mainstream, em que ninguém sabe como resultará, e todas as hipóteses devem ser consideradas, está evidente. Lembrando as profecias de Warren Ellis, de que mudaria a indústria de quadrinhos, e de Grant Morrison e Mark Millar, que salvariam os super-heróis, estão em confronto, mesmo que nenhum dos três seja especificamente responsável por isso.

Não vale revelar aqui se Emo Boy corta os pulsos e qual seu destino final. Peter Parker já usou franjinha em Homem-Aranha 3, ao som da música que ainda deve estar em suas cabeças. Tente se esforçar ao máximo para esquecer isso agora, e ficar repetindo várias vezes o quanto sua vida sempre foi muito bonitinha.

Almanaque Virtual– por Marcus Vinicius de Medeiros

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Renato Lebeauquadrinhosemo boy,J.M. De Matteis,Steve EmondVisto no Universo Fantástico Emo Boy: Ninguém se importa com nada mesmo, então por que todos nós não morremos logo? Independente de como surgiu o termo emo, e do que ele realmente significava ou queriam dizer seus idealizadores, a situação atual é mais ou menos como será descrita. Emo torrnou-se elemento de...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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