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Visto no Gibiteca – por Natania Nogueira

Os quadrinhos ganharam uma respeitabilidade inédita no país. Usadas como paradidáticos, as HQs já integram as listas de compras do governo, que abastecem as bibliotecas escolares.

Já a 7ª Festa Literária Internacional de Paraty, de 1º a 5 de julho, e como a Flip outras no país anunciam mesas inteiras dedicadas ao tema.

Empresas como Oi preparam histórias disponibilizáveis por celular e internet. E o mercado editorial se aquece com lançamentos nacionais, editoras especializadas e obras de reflexão como A Leitura dos Quadrinhos, de Paulo Ramos, que discutem os limites e os rumos da linguagem do gênero.

Não muito tempo atrás, usar HQs em aula seria quase sacrilégio, embora os Parâmetros Curriculares Nacionais já sinalizassem a inclusão delas nas práticas escolares.

Em 1997, o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do MEC, já podia adotar HQs em sua lista. Mas o gênero foi por dez anos ignorado pelo programa que distribui livros às bibliotecas da rede pública. Os quadrinhos viraram política de governo só em 2007, quando 14 obras entraram no PNBE.

Desde então, o número cresce. Foram 16 em 2008 e, este ano, chegam a ser 23 dos 540 títulos que chegarão às escolas, de 5a a 8a séries.

– O que permitiu a entrada dos quadrinhos no programa foi o aporte de recursos e a convicção de que HQs são importante ferramenta para o desenvolvimento do gosto pela leitura. A linguagem provoca o aluno a ingressar com prazer no universo literário –
diz Marcelo Soares, diretor de políticas de formação, materiais didáticos e tecnologias da Secretaria de Educação Básica do MEC.

Para o jornalista Paulo Ramos, doutor em Letras pela USP e autor de A Leitura dos Quadrinhos (Contexto), a iniciativa quebra tabus.

– Isso pôs obrigatoriamente os quadrinhos na pauta do professor. Não vale mais a pergunta se pode usar HQ na escola. Para o governo, deve. A questão, agora, é saber como usar essas obras de maneira criativa em práticas pedagógicas – diz Ramos.

Estímulo à leitura

Os gibis já sofreram forte resistência no país, quando se encarava HQs como “coisa de criança” ou “arte menor”. Vivencia-se agora, diz Ramos, um outro momento, propício a aceitar quadrinhos como arte.

Esse momento coincide com a maturidade do mercado. Enquanto nos Estados Unidos já se vendem mais obras em quadrinhos nas livrarias do que nos outros canais juntos (US$ 330 milhões de US$ 640 milhões totais, dados de 2007), o Brasil ocupa o 5o lugar no ranking mundial de quadrinhos, com faturamento de US$ 200 milhões anuais, atrás do Japão (US$ 2 bilhões), EUA (US$ 600 milhões), França (US$ 400 milhões) e Itália (US$ 300 milhões).

Segundo Ramos, os autores nacionais ainda encontram dificuldades para produzir e difundir seus trabalhos. A falta de indústria sustentável no setor afeta a experimentação de linguagem. O que se vê hoje, no entanto, é um cenário mais positivo no país.

Editoras importantes como a Companhia das Letras passaram a investir em obras nacionais; outras se especializaram no gênero, como a Conrad. Esse material passou a ser oferecido em livrarias, conquistando um tipo de leitor mais maduro e propenso a ler material nacional em formato livro.

– Em linhas bem gerais, a trajetória do quadrinho nacional passa por esses momentos. Hoje, o movimento independente voltou com força, aliado à aposta das editoras em autores nacionais –
explica Ramos.

Com a iniciativa do governo, cresce também a consciência de que a linguagem dos gibis tem ela mesma um papel no estímulo à leitura. O que aumenta a responsabilidade com a linguagem dos gibis. Estudo recente sobre o papel das HQs no desenvolvimento do hábito de ler veio do programa de doutorado da Escola de Comunicações e Artes da USP, em 2008.

A pesquisa, de Valéria Bari, observou um grupo de leitores de quadrinhos que estudava em universidades. E concluiu que a leitura de criança os ajudou a criar gosto por livros e a migrar para outras formas de leitura, como jornais e livros.

Para a educadora Dinéia Hypolitto, com a inclusão das HQs no programa do governo, muitos professores que ainda tinham preconceito acabaram por mudar sua conduta.

– Além de despertar a criatividade e a imaginação, os quadrinhos contribuem para o desenvolvimento do hábito da leitura, pois conquistam os educandos não só pela estrutura gráfica, mas ao despertar o desejo de se desenhar personagens, o que colabora para a criatividade – afirma.

Mudanças

O custo e o fácil acesso são fatores históricos de popularização das HQs, embora hoje títulos como a versão gibi de O Alienista, de Machado de Assis, da lista do PNBE, tenham preços equivalentes aos do mercado livreiro. A adaptação de Gabriel Ba e Fábio Moon venceu o último Jabuti de melhor livro didático e paradidático do ensino fundamental ou médio.

– É mais fácil apresentar as informações aos poucos às crianças em livros com muitas ilustrações. Várias editoras estão entrando nesse mercado e criando trabalho para os quadrinistas –
acredita Manoel de Souza, editor de Histórias em Quadrinhos.

Para Waldomiro Vergueiro, co-ordenador do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, a inclusão dos gibis nas escolas desafia os professores, que têm de definir formas de incorporar a linguagem a seus processos didáticos.

– Os quadrinhos têm a função de meio de comunicação e transmissão de mensagens dos mais diversos tipos; é uma linguagem com potencial para desenvolver temáticas das mais diversas e dos mais diferentes gêneros – diz o professor.

A Linguagem

A linguagem dos quadrinhos evoluiu. Além do desenvolvimento técnico, com o avanço da indústria gráfica (barateamento da reprodução; refinamento de tinta e papel, e da composição da página), há maior familiaridade do público com narrativas menos lineares, por causa de cinema e TV, e as inovações específicas dos grandes autores de gibis.

– O formato, a disposição na página, o movimento de leitura, tudo evoluiu, levando a uma produção mais primorosa em termos gráficos e estéticos –
diz Vergueiro.

A boa e velha linguagem das HQs, no entanto, ainda é caracterizada por dois códigos que atuam em conjunto: o escrito e o gráfico. Parte da mensagem é passada pela imagem, parte pelo texto e pela junção das duas.

Arte serial, composta por imagens fixas em sucessão, mas boa parte dos sentidos da narrativa são formados pela mente do leitor a partir de acontecimentos que não foram expressos graficamente – eles ocorrem no espaço entre os quadrinhos, também conhecido como calha ou sarjeta.

– O espaço entre um quadrinho e outro é preenchido pela imaginação do leitor. Assim, um quadro pode pular de uma ação à outra para o quadrinho seguinte e a mente do leitor se encarrega de imprimir o movimento. Nenhuma outra linguagem tem esta capacidade de interação com seus leitores – explica o quadrinista Jota Silvestre.

Além disso, a linguagem dos quadrinhos desenvolveu símbolos próprios, usados para expressar movimento (linhas cinéticas), sentimentos (metáforas visuais) e o som (onomatopeias), bem como convenções de fala e pensamento (em balões).

Internet e celular

O paulista Danilo Beyruth é um dos talentos do traço brasileiro que não deixa a dever a nenhum desenhista de quadrinhos de nível internacional. Viu seu personagem Necronauta, um condutor de almas para o além, ser escalado por um grande portal on-line.

Enquanto produz as 18 páginas do projeto, prepara uma aventura com personagens do cangaço brasileiro. Danilo afirma que os quadrinhos oferecem, ao leitor, uma experiência intermediária e maior do que os livros e filmes.

– O texto pode carregar as nuances que teria num livro, mas entra em composição com a imagem, que não é fotográfica como a do cinema e, portanto, estimula a interpretação. A forma como o autor diagrama a página dá cadência à história e é o próprio leitor quem administra a velocidade de leitura, ao contrário de um filme, que tem duração fixa. O leitor tem tempo de parar e gastar o tempo de olhar a cena, apreciar o desenho – avalia ele.

Já a operadora de telefonia Oi criou um projeto de quadrinhos on-line e no celular, que já está em operação desde o ano passado (http://mundooi2.oi.com.br/quadrinhoshome), iniciado com a série A Corporação, também em versão para celulares, com recursos de som e dublagem.

Iniciativas do gênero têm influenciado a linguagem dos gibis de diferentes formas. Na produção, recursos tecnológicos aprimoram a criação. Há economia de custos e de distribuição (antes, autores produziam só no papel e circulavam seus produtos num raio limitado de alcance). A dificuldade, agora, é descobrir essas obras em meio a tantas páginas virtuais.

Os quadrinhos, no entanto, ainda não encontraram linguagem específica para a internet. O que se vê hoje são as mesmas páginas impressas apresentadas na tela do computador com poucos recursos de paginação. São recentes, pouco expressivas, as experiências com interatividade e hipertexto, por exemplo.

Mas, qualquer que seja o futuro reservado aos quadrinhos, iniciativas como a reabilitação oficial das HQs já se candidatam a avanço sem precedentes para o gênero no país.

Como criar uma HQ

Há expedientes manjados na criação de histórias em quadrinhos, comuns a desenhistas e roteiristas de todo o mundo. Ter como ponto de partida uma boa ideia central ajuda a estabelecer, por exemplo, o argumento que resumirá a história.

Também é aconselhável, para a elaboração do roteiro e de imagens realistas, um empenho na pesquisa de livros e sites de referência, de conteúdo, fotos e registros iconográficos.

Mas, na prática, fora as exceções industriais, em que o trabalho segue uma linha de produção muitas vezes taylorista, cada autor tende a ter um método próprio para a criação de uma história em quadrinhos e cada história se desenvolve de forma diferente.

– O que costuma acontecer comigo é ter uma idéia central e, a partir dela, começo pesquisar o assunto e desenvolvo um roteiro, o começo, o meio e o fim da história. A idéia é o coração da história –
afirma Danilo Beyruth, autor de Necronauta. Para o editor Edson Rossato, um recurso para aguçar a curiosidade do leitor é mostrar uma ação ainda não explicada.

– Na HQ História do Brasil em Quadrinhos, por exemplo, colocamos na primeira página nossos três personagens principais fugindo. De que ou de quem o leitor só fica sabendo nas páginas seguintes – afirma Rossato, para quem o roteirista precisa prender a atenção do leitor logo nas primeiras páginas.

Ele diz que só dessa forma ele ganhará a confiança desse leitor para terminar de contar sua história.

Fonte: http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11768

Visto no Gibiteca – por Natania Nogueira

Renato LebeauquadrinhosA Corporação,A Leitura dos Quadrinhos,Companhia das Letras,conrad,Danilo Beyruth,Dinéia Hypolitto,Edson Rossato,Fábio Moon,Flip,Gabriel Bá,gibis,HQs,Jota Silvestre,Marcelo Soares,MEC,Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos,Necronauta,Oi Quadrinhos,Paulo Ramos,PNBE,Valéria BariVisto no Gibiteca – por Natania Nogueira Os quadrinhos ganharam uma respeitabilidade inédita no país. Usadas como paradidáticos, as HQs já integram as listas de compras do governo, que abastecem as bibliotecas escolares. Já a 7ª Festa Literária Internacional de Paraty, de 1º a 5 de julho, e como a Flip...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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