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Parece que alguns veículos de comunicação entraram em um retrocesso quando o assunto é histórias em quadrinhos. Depois do caso “Dez na área…” há duas semanas, quem está sendo considerado impróprio para leitura é o álbum “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, do mestre Will Eisner, que integra a lista de obras do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), programa do governo federal distribui livros e quadrinhos a escolas de todo o país.

Algumas mídias colocam como se fosse culpa da HQ conter histórias que não são para crianças, e não do processo de seleção. Segundo Rogério de Campos, diretor da Conrad, a atual “caça às bruxas” pode levar a uma censura extrapolada. A declaração foi dada em reportagem intitulada “Livro para biblioteca escolar exibe até pedofilia”, do Agora Online.

Abaixo segue texto postado no site Blog dos Quadrinhos, de Paulo Ramos, que faz uma análise da situação, e comenta sobre os modismos da mídia, e até algumas mudanças de posturas adotadas para abordar o tema, possivelmente reflexo das manifestações virtuais contra as declarações infelizes no caso “Dez na área…”.

Logo após o texto de Paulo Ramos, colocamos a matéria citada “Livro para biblioteca escolar exibe até pedofilia”, onde não é esquecido de mencionar que Will Eisner, é considerado o artista mais importante dos quadrinhos e da cultura pop do século 20 e que livro não é didático e, por isso, não segue direto para as mãos dos alunos.
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Blog dos Quadrinhos – por Paulo Ramos

Imprensa perde critério no caso dos quadrinhos na escola

Telejornal da TV Globo questiona presença de obra adulta de Will Eisner em biblioteca.

É preciso entender o modus operandi da imprensa para perceber que ela já começa a perder critério na cobertura dos livros em quadrinhos levados à escola.

A mídia informativa costuma explorar muito os modismos. Se um assunto encontra eco na população, é forte candidato a ganhar uma suíte, jargão jornalístico para uma reportagem que dá sequência a determinado tema.
Quando essas ondas de modismo ocorrem, qualquer caso semelhante ganha imediatamente os holofotes, mesmo que, numa análise fria, merecesse apenas uma nota ou até nem ser noticiado.

Um caso da semana, apenas para ilustrar. Qualquer mínimo problema técnico que um avião tiver nos próximos dias vai ganhar manchete. O modismo é espelhado na queda do Air Bus-A330 da Air France, que ia do Rio de Janeiro a São Paulo.

Nesses casos, há o sério risco de o modismo se sobrepor ao juízo jornalístico. Valoriza-se muito o que não merecia tanto destaque. Basta olhar um pouco atrás o caso da morte da menina Isabela Nardoni, em que a mesma informação foi exaustivamente noticiada.

Está ocorrendo exatamente isso na cobertura da entrada de quadrinhos nas escolas. Isso fica bem claro numa matéria de hoje do “SPTV 1ª Edição”, telejornal local da TV Globo.

A reportagem informa que o álbum “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, de Will Eisner, é outra obra distribuída pelo governo com conteúdo inadequado a alunos. Neste caso, da sexta série (em torno de 11 anos).

O livro, reeditado pela Devir em 2007, integra a lista de obras deste ano do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola). O programa do governo federal distribui livros e quadrinhos a escolas de todo o país.

Ainda segundo a reportagem, o livro foi descoberto por uma diretora de escola de Ferraz de Vasconcelos, cidade da Grande São Paulo. Ela identificou a obra na biblioteca, frequentada por alunos de sexta série.

Nas palavras da repórter Daiane Garbin, da Globo, “pelo nome, o livro de quadrinhos parece inofensivo, mas, virando as páginas, o que se encontram cenas de sexo e violência. Em uma cena, haveria referência à pedofilia e à prostituição infantil”.

Ela destaca também uma cena que insinua pedofilia e outra, em que o pai esbofeteia a mãe e arremessa um bebê no sofá. Tudo fartamente ilustrado. A diretora não aparece na matéria.

À reportagem da Globo, vale reforçar, o ministério da Educação disse que a obra é adequada a estudantes do ensino médio, com mais de 15 anos. E que cabe às escolas a responsabilidade pelos empréstimos.

Os dois apresentadores do telejornal, Carla Vilhena e Cesar Tralli, registraram numa nota-pé (nome do texto lido do estúdio após a exibição da reportagem) que Eisner é um autor reconhecido mundialmente e que apenas a adequação da obra era discutida.

É um claro e tardio mea culpa público. Há exatas duas semanas, os mesmos âncoras questionaram, sim, a qualidade de “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol”, álbum feito por diferentes autores nacionais e destinado ao leitor adulto.

O livro foi comprado pelo governo de São Paulo e seria levado a estudantes da terceira série. O governo admitiu a falha. No “SPTV”, o governador José Serra classificou a obra de muito mau gosto, um horror. Carla Vilhena se mostrou chocada na primeira pergunta feita a Serra.

Como comentamos em texto veiculado na última sexta-feira aqui no blog, o discurso da mídia sobre o caso mudou. Há sinais claros disso na reportagem em pauta.

Tralli e Carla Vilhena explicitaram um tardio – embora educativo a eles e ao público – atestado de que a cobertura anterior teve falhas, assim como o processo seletivo.

Mas fica a pergunta aos pauteiros do “SPTV 1ª Edição”: valia a matéria?
Observando o caso friamente, descolado das reportagens recentes, é algo que pouco se sustenta jornalisticamente. É de espantar que tenha sido levado ao ar, ainda mais na Globo.

É de uma obviedade absurda dizer que uma obra direcionada a adolescentes e adultos esteja numa biblioteca. Mesmo sendo um espaço frequentado por crianças.

O óbvio é que isso ocorre em qualquer biblioteca escolar. Há livros para diferentes públicos. Inclusive o infantil. Cabe a uma bibliotecária controlar o acervo e o empréstimo. O alarde da diretora evidencia um claro despreparo dela. Essa, talvez, seria a matéria.

Mais um fato poria a pauta à prova: o ministério da Educação está correto. A obra foi selecionada para o ensino médio, de modo a compor bibliotecas escolares.

A lista do PNBE inclui para o mesmo público outras duas obras de Eisner – “O Sonhador” e “A Força da Vida” – e duas nacionais – “Domínio Público – Literatura em Quadrinhos” e “O Alienista”, vencedora de um Prêmio Jabuti em 2008.

Outros questionamentos, que faltaram à reportagem, ajudariam a derrubar a matéria.

Primeiro: será que a diretora – que não aparece na matéria – viu inadequação também nas obras literárias presentes no acervo do PNBE? Por que o foco só no álbum em quadrinhos?

Segundo questionamento: qual o contexto das histórias mostradas no álbum de Eisner? O tema era sexo, violência e alusão a pedofilia? Ou eram histórias humanas, situadas nos cortiços nova-iorquinos, onde o autor passou a infância? Enfim: a obra foi lida?

Terceiro questionamento: se vale o que os âncoras disseram, que o objetivo não era questionar a qualidade da obra e do autor, por que o conteúdo do primeiro OFF (narração feita pelo repórter) disse que o “livro parece inofensivo”? Houve contradição.

Os modismos acabam, é questão de tempo. São sobrepostos por outros modismos.

Mas, até lá, esse modus operandi da imprensa tende a dar corda a um novelo que já não tem mais linha. E passa pelo sério perigo da perda do critério jornalístico, de destacar algo que não merecia ser noticiado. Como neste caso sobre a obra de Will Eisner.

A imprensa corre também o risco de cometer erros nesse processo. Os casos da Escola Base e do Bar Bodega, ambos da década de 1990, são tristes exemplos disso.

Noticiou-se por semanas, à exaustão, a culpa de um grupo de pessoas. Nenhuma era culpada. A correção rendeu uma nota, meses depois. Isso quando houve correção.

Blog dos Quadrinhos – por Paulo Ramos
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Visto no Agora – por Adriana Ferraz

Livro para biblioteca escolar exibe até pedofilia

A história se repete, desta vez no âmbito federal. Um livro distribuído pelo MEC (Ministério da Educação) às escolas públicas de São Paulo contém cenas de violência, sexo explícito, estupro e até pedofilia. A linguagem de “Um Contrato com Deus” é a dos quadrinhos, porém indicados para os alunos do ensino médio a partir de 15 anos.

A obra, no entanto, chegou a colégios onde há turmas a partir da 5ª série, quando os alunos têm, em média, 11 anos.

A publicação faz parte do acervo do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) e é enviada diretamente para os colégios cadastrados. No Estado, são 5.682 participantes, das redes estadual e municipal, que recebem as caixas.

O livro não é didático e, por isso, não segue direto para as mãos dos alunos. Fica à disposição nas bibliotecas como instrumento complementar de leitura. O autor, Will Eisner, é considerado o artista mais importante dos quadrinhos e da cultura pop do século 20.

Os textos e ilustrações exigem um elevado poder de interpretação. Em “Um Contrato com Deus”, uma criança levanta a roupa para um adulto após pagamento em dinheiro. Não há violência física, mas sugestão de pedofilia.

Em outro capítulo, uma mulher é estuprada, outra é espancada e um bebê, arremessado em um sofá por um homem bêbado, aos gritos desesperados da mãe. Para a professora Marta Scarpato, da pós-graduação da PUC-SP, um contexto extremamente violento que exige discussões politizadas na sala de aula.

“Está havendo mesmo um descuido. A realidade de nossos alunos e nossas escolas não colabora para o desenvolvimento de um trabalho crítico, necessário nesse caso. Os alunos mal sabem ler e escrever, os professores têm de cuidar de turmas superlotadas e as bibliotecárias não têm preparo para recomendar livros de acordo com a idade.”

Para Vitor Paro, da Faculdade de Educação da USP, falta respeito e conhecimento e sobra ignorância. “As pessoas têm um conceito vulgar da coisa. Acham que é preciso apelar para estimular a criança ou o jovem a ler. Não sabem que a educação é muito mais complexa, que, para ensinar, é preciso ter conhecimento técnico. Que comissão é essa que escolhe esse livro? Por que dar preferência a isso? Esse tipo de educação é de entretenimento”, diz.

Caça às bruxas

“Por que os livros de Jorge Amado ou Machado de Assis não recebem indicação para adultos? Por que a censura com os quadrinhos? Isso só mostra o maravilhoso poder de comunicação deles”, afirma Rogério de Campos, diretor da Conrad, editora especializada no segmento.

Para Campos, a atual “caça às bruxas” pode levar a uma censura extrapolada. “Quantos livros, quadros ou filmes sugerem violência? Mesmo a Bíblia tem muitas passagens que podem ser censuradas.”

A Devir, editora de “Um Contrato com Deus”, diz que não faz classificação etária do livro.

Visto no Agora – por Adriana Ferraz

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