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O texto interessante dessa sexta-feira foi escrito por Fatima Prado e retirado do seu blog, o Kitty Prado, onde é feito uma análise sobre um dos personagens mais emblemáticos dos quadrinhos: o Batman.

Pegando compo base a publicação da editora Madras, Batman e a Filosofia, dos autores Mark D. White, Robert Arp.

Fatima tenta responder o por que o Cavaleiro das Trevas não mata o seu inimigo mais mortal, e quais os conflitos psicológicos o levariam Bruce Wayne a não matar e como essa atitude entra em conflito com a sua personalidade de Batman.

Não esqueça que você leitor também pode participar do texto interessante de sexta-feira, é só enviar o seu artigo sobre o universo das histórias em quadrinhos, que publicaremos e colocaremos os seus contatos.

Fiquem com o texto:

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Batman e a Filosofia: pensando na morte do Coringa

Batman talvez seja o personagem mais complexo que já apareceu nos quadrinhos. São tantos conflitos (externos e internos) que não faltou material para o livro Batman e a Filosofia, publicado pela editora Madras.

Como sempre faço com os títulos dessa coleção, começo a ler os artigos que me chamam mais atenção. Nesse caso foi especialmente difícil escolher, porque todos os assuntos pareciam bastante interessantes. São questões deliciosamente divertidas como “A loucura do Coringa – O príncipe palhaço pode ser considerado moralmente responsável?”, “Bruce Wayne deveria ter se tornado Batman?”, “Batman poderia ser o Coringa” ou “Por que Batman é melhor do que Super-Homem?”.

Escolhi então uma questão que sempre me passou pela cabeça.

Por que Batman não mata o Coringa?

Qualquer fã daria uma resposta rápida a essa questão. O Cavaleiro das Trevas jurou não matar para não se equiparar aos criminosos que caça pelas noites de Gotham. O artigo de Mark D.White discute a questão sob a visão de dois conceitos filosóficos: o utilitarismo e a deontologia.

Pense bem, matar o Coringa não teria evitado centenas de mortes? Esse é um raciocínio típico do utilitarismo, um sistema de ética que requer a maximização da felicidade total ou do bem-estar resultante de nossas ações.

Ou seja, uma forma de consequencialismo, onde se avalia uma ação unicamente em função de suas conseqüências.

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A morte de Jason Todd

Os heróis de quadrinhos normalmente não são utilitaristas, pois para eles existem certas barreiras que não podem ser transpostas. Assim, eles não matam mesmo que o motivo seja salvar muitas outras vidas. No utilitarismo isso não tem sentido. Seria como dizer que Batman está permitindo que muitas pessoas morram porque ele não quer matar apenas uma.

O autor cita uma frase de Jason Todd questionando a decisão de manter o Coringa vivo que ilustra bem isso. “Eu pensei que quando ele me matasse – que eu seria a última pessoa que você o deixaria ferir”.

Se no utilitarismo a solução mais fácil seria acabar de vez com a vida do vilão, na deontologia esse ato seria inaceitável. Nessa doutrina ética, a moralidade dos atos está nas suas próprias características e não nos seus resultados.

Ou seja, os fins não justificam os meios e o meio deve ser justificado por seus próprios méritos. Assim, matar o Coringa é um ato moralmente condenável porque matar é errado e isso independe dos resultados futuros desse ato. Isso explica a visão de Bruce Wayne, concorda?

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O Bonde do Batman

Para ilustrar esse dilema, White utiliza o “problema do bonde” dilema filosófico elaborado por Judith Jarvis Thompson. Imagine um bonde em movimento. Nos trilhos estão cinco pessoas que não estão ouvindo o som dele se aproximando e não há tempo para pará-lo ou avisar as pessoas para saírem da frente. A única solução é desviá-lo para um outro trilho.

O problema é que nesse outro caminho também existe um homem parado que não conseguirá escapar. Imagine então que existe um observador ao lado da alavanca de mudança dos trilhos. Ele deve fazer uma escolha: não fazer nada ou agir e desviar o bonde, causando a morte de uma pessoa.

Imagine agora Bruce Wayne. Ele é o cara da alavanca. De um lado cinco inocentes e do outro o Coringa. A escolha fica mais fácil, não é? A diferença para o “problema do bonde” é que conhecemos o antecedente moral de um dos envolvidos, o que talvez facilitasse a escolha da solução a ser tomada.

“Afinal de contas, por que as vítimas dele deveriam se sacrificar para que ele vivesse – principalmente quando lembramos que ele vive para matar pessoas inocentes?”.

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Pré-punição

Analisando o exemplo acima, vemos que a opção de matar o Coringa é baseada na suposição que isso evitaria mortes futuras. Mas como afirmar isso? Será que aquela não poderia ser sua última vítima?

O fato é que não é possível ter certeza absoluta que ele matará novamente, logo também não é possível afirmar que estamos salvando qualquer vida com sua morte. Ok, o cara tem antecedentes que falam por si só. Mas podemos dar um fim nele sem saber se vai voltar a matar?

Punir as pessoas antes que elas cometam um crime corresponde a pré-punição, conceito que se tornou famoso com The Minority Report, conto de Philip K.Dick e sua posterior adaptação para o cinema. Aí complica!!! Quem defende que o correto é matar o Coringa, alega que o vilão não deixa dúvidas que vai voltar a agir, o que elimina a possibilidade pré-punição.

Os que defendem que é moralmente errado matá-lo podem afirmar que, por mais que seja improvável, o palhaço do caos pode se arrepender e não mais praticar crimes e é por respeito a essa possibilidade de escolha que não devemos pré-punir.

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E qual a sua conclusão?

Felizmente para os fãs, Batman dificilmente mataria o Coringa (e vamos combinar, se matasse um tempo depois a DC ia ressuscitar). Ele já teve diversos motivos e oportunidades, sendo que sempre conseguiu manter seus valores morais intactos.

Deixo como conclusão, uma citação ao próprio artigo:

“Se dissermos ao Cruzado Encapuzado, como muitos o fizeram: “Se você não matar o Coringa, as mortes de todas as futuras vítimas dele estarão em suas mãos”, ele poderia responder muito bem responder “Não, as mortes que o Coringa causa são responsabilidade dele, e apenas dele. Só sou responsável pelas mortes que eu provoco”.

Esse é outro modo de encarar a regra agente-centrado que discutimos antes: o observador no exemplo do bonde poderia afirmar: “Não fui eu quem fez com que o bonde colocasse a vida das pessoas em perigo, mas eu causaria a morte de uma pessoa se o desviasse”.

Visto no Kitty Prado – por Fatima Prado

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