“Um Contrato com Deus” é um dos três álbuns de Will Eisner selecionados pela lista do governo federal, que inclui também obras nacionais.

Visto no Blog dos Quadrinhos

O governo federal incluiu 19 álbuns em quadrinhos na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), que distribui livros gratuitamente para escolas dos ensinos médios e fundamentais.

A relação, feita anualmente, inclui quadrinhos desde 2006. Nas duas licitações anteriores, foram selecionadas dez e oito obras em quadrinhos, respectivamente.

O material será distribuído às escolas no ano que vem. Alguns autores tiveram mais de uma obra selecionada. A lista inclui três obras de Will Eisner, duas de Laerte, duas de Asterix e duas de Ziraldo.

Os paulistas Gabriel Bá e Fábio Moon também tiveram dois álbuns incluídos. Um deles é a versão em quadrinhos de “O Alienista”, premiada no mês passado o Prêmio Jabuti na categoria álbum didático ou paradídático para ensino fundamental ou médio.

A lista do PNBE/2009 inclui 600 obras, 300 para o ensino fundamental e 300 para o médio.

A maior parte das obras em quadrinhos -14 das 19 selecionadas- ficou com os alunos das séries iniciais. Aos estudantes do médio coube cinco álbuns. Veja a lista completa:

Ensino Fundamental
• A História do Mundo em Quadrinhos – A Europa Medieval e os Invasores do Oriente, de Larry Gonick (Agir)
• Oliver Twist, adaptado por John Malan (Companhia Editora Nacional)
• Luluzinha Vai às Compras, de John Stanley (Devir)
• Níquel Náusea – Tédio no Chiqueiro, de Fernando Gonsales (Devir)
• Suriá – A Garota do Circo, de Laerte (Devir)
• A Turma do Pererê – As manias de Tininin, de Ziraldo (Globo)

• Maluquinho por Arte – Histórias em Que a Turma Pinta e Borda, de Ziraldo (Globo)
• O Beijo no Asfalto, de Arnaldo Branco e Gabriel Góes (Nova Fronteira)
• Asterix e a Volta às Aulas, de René Gosciny e Albert Uderzo (Record)
• Asterix nos Jogos Olímpicos, de René Gosciny e Albert Uderzo (Record)
• D. João Carioca, de Spacca e Lilian Moritz Schwartz (Companhia das Letras)
• A Volta da Graúna, de Henfil (Geração Editorial)
• Deus Segundo Laerte, de Laerte (Olho D´Água)
• 10 Pãezinhos – Meu Coração Não Sei Por Quê, de Gabriel Bá e Fábio Moon (Via Lettera)

Ensino Médio
• O Alienista, de Gabriel Bá e Fábio Moon (Agir)
• Domínio Público – Literatura em Quadrinhos (vários autores; DCL)
• A Força da Vida, de Will Eisner (Devir)
• O Sonhador, de Will Eisner (Devir)
• Um Contrato com Deus, de Will Eisner (Devir)
O aumento no número bruto de obras em quadrinhos em 2009 se deve ao crescimento de livros comprados nesta versão do PNBE, 600 ao todo. É o dobro das edições anteriores.
O diferencial, desta vez, é que a lista incluía tanto o ensino médio quanto o fundamental.
Se for considerada proporcionalmente, a relação de obras em quadrinhos para o ensino fundamental é inferior à edição passada. A relação cai de 7% para pouco menos de 5%.

Analisando a lista

Do ponto de vista da inclusão de histórias em quadrinhos no ensino, há pelo menos dois avanços na lista do PNBE de 2009.

O primeiro já tinha sido sinalizado no edital, lançado para as editoras no primeiro semestre deste ano: o texto não registra mais que quadrinhos são uma forma de literatura.

Isso indica, tardiamente, que as autoridades da área de educação do governo federal começam a enxergar os quadrinhos como efetivamente são: uma linguagem autônoma.

Um reflexo disso é visto na lista de obras em quadrinhos selecionadas. Nota-se que, das 19 indicadas, apenas quatro são do gênero literatura em quadrinhos. Melhora o processo de seleção, embora ainda tenda a privilegiar autores mais conhecidos do grande público.

O segundo avanço é que houve, pela primeira vez desde que o programa foi criado, inclusão de obras em quadrinhos no ensino médio. Até então, recebiam apenas livros de literatura.

O PNBE foi criado em 1997, na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Tinha o objetivo de democratizar o acesso aos livros e estimular a leitura entre os alunos.

As primeiras listagens privilegiavam obras literárias, inclusive escritas por pessoas que faziam parte do processo seletivo.

O programa, no entanto, não conseguiu cumprir nenhuma das duas metas, segundo relatório feito por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a pedido do Ministério da Educação.

O texto do diagnóstico foi publicado neste ano e se baseou em visitas a 196 escolas.

Entre as conclusões do diagnóstico, destacam-se quatro:

• os professores encontram dificuldade para trabalhar o acerco em sala de aula
• falta formação aos docentes para transformar as obras em práticas didáticas
• falta tempo para os professores lerem o material do PNBE
• depedência do docente em matérias pedagógicos já preparados, como o livro didático

Embora o relatório tenha se baseado em obras anteriores a 2006, quando os quadrinhos começaram a ser incluídos na lista, é de se imaginar que o problema se acentue em relação aos quadrinhos.

Se com livros literários há dificuldade, com quadrinhos, uma linguagem historicamente mantida à distância do ambiente escolar e, por isso, “desconhecida”, a situação deve ser ainda pior.

Um trecho do diagnóstico sobre o PNBE também caminha nessa direção:

“Textos e autores de qualidade, de gerações de escritores que se vêm produzindo na cultura brasileira, de ilustradores que inventaram técnica e esteticamente modos de traçar com a imagem um outro código que também narra a história, quase se inviabilizam, nas propostas de uso sugeridas por muitos professores.”

Tradução disso: não adianta apenas levar os quadrinhos e os livros literários à sala de aula; é necessário formar o professor e torná-lo apto a trabalhar com os novos materiais.

É esse o desafio para o governo federal enfrentar nos próximos anos.

Há também um outro ponto tangencial que merece ser registrado.

Não é o objetivo do PNBE, mas o governo federal começa a construir com a lista uma indústria de quadrinhos no país.

Algo assim ocorreu na década de 1980 quando a literatura infantil foi alçada por programas governamentais como a saída para o estímulo à leitura estudantil.

Houve interesse na compra de obras infantis, tidas até então como sub-literatura no Brasil. Isso atraiu o interesse das editoras e hoje a literatura já não é mais o patinho feio dos livros.
Muito pelo contrário. É um mercado fortíssimo. Não é por acaso que as grandes livrarias destinam há um bom tempo uma área lúdica destinada a esse público.

O então novo interesse na área encontrou eco também na academia.

Os curso de letras da USP (Universidade de São Paulo) e da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) passaram a ter na grade curricular disciplinas de literatura infantil.

Na pós-graduação, também foram criadas matérias específicas para a área e, por conseqüência, pesquisas de mestrado e de doutorado.

Os estudos acadêmicos -que ainda gozam de um prestígio social altíssimo- ajudaram a consolidar a literatura infantil como linguagem e a dar a ela a credibilidade que não tinha até os idos de 1980.
Este jornalista vê o processo semelhante sendo criado por meio das listas do PNBE, mantidas com dinheiro do governo.

As editoras -as grandes companhias das letras, inclusive- já acordaram para esse mercado, que encontrou nas livrarias um ninho fecundo.

E estão investindo, ainda sem saber exatamente aonde querem chegar.

Forma-se um público, aquecem-se produções estrangeiras e nacionais (cabe aos autores brasileiros o desafio de aproveitarem o momento e apresentarem obras de qualidade) e consolida-se um sistema de produção e leitura de quadrinhos, como sugere o perquisador Diego Figueira.

Mas falta ainda um elemento nessa equação: os novos e crescentes estudos acadêmicos sobre quadrinhos saírem das restritas prateleiras universitárias e migrarem para as livrarias na forma de livros.

Só assim os quadrinhos terão no Brasil, 140 anos depois de seu surgimento, o reconhecimento de que são uma linguagem autônoma e relevante como tantas outras.

Já houve ensaios sobre isso no país, principalmente no início da década de 1970. Foram de grande valia e iniciaram esse processo de estudo, agora retomado.

Estudar a linguagem é entendê-la. Entendê-la é consolidá-la. Consolidá-la é dar a ela a autoridade que merece. E autoridade para isso a pesquisa acadêmica ainda tem.

Visto no Blog dos Quadrinhos

Renato LebeauquadrinhosPrograma Nacional Biblioteca na Escola'Um Contrato com Deus' é um dos três álbuns de Will Eisner selecionados pela lista do governo federal, que inclui também obras nacionais. Visto no Blog dos Quadrinhos O governo federal incluiu 19 álbuns em quadrinhos na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola), que distribui livros gratuitamente para escolas...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
Compartilhe