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O mago Merlin, em ilustração da Idade Média: mito que sobreviveu, em filmes e na literatura do século XX

Visto no Diário do Nordeste – por Dellano

Heróis e Maravilhas da Idade Média e Os deuses no exílio

“Os deuses no exílio”, de Heinrich Heine, e “Heróis e maravilhas da Idade Média”, de Jacques Le Goff, tratam da permanência e da transformação de seres míticos, da Antiguidade e da Idade Média, respectivamente

Obra central da moderna compreensão dos fenômenos do campo do sagrado, “As formas elementares da vida religiosa”, do sociólogo francês Emile Durkheim traz o preciso aforismo de que os homens não passam sem os deuses, assim como estes não passam sem os mortais. Este círculo, de crença e existência, poderia incluir os deuses numa categoria maior, a do imaginário.

Sem a agressividade cética, um tanto rancorosa, que reforça a dependência dos seres imateriais dos homens que neles creem, “Os deuses no exílio”, do poeta e ensaísta alemão Heinrich Heine, e “Heróis e maravilhas da Idade Média”, do historiador francês Jacques Le Goff, evidenciam a íntima ligação de uns com os outros.

Escritos em épocas distintas, como objetivos não necessariamente iguais, por autores de formações diversas, os livros não aparentam uma proximidade muito lógica. Aparências enganosas, confundido pelos diferentes objetos (os Deuses da Antiguidade, no caso de Heine; as personagens não-religiosas da tradição oral medieval, no caso de Le Goff).

Em comum, há uma ideia, não explícita, ainda que bastante clara, da existência dos personagens do imaginário similar a vida dos seres humanos, que toma rumos inesperados e um dia tem fim.

Claro que, no caso dos deuses e dos mitos, a morte não é um destino incontornável. A novidade é que ela é apresentada como um destino possível, e de angustiante frequência.

Deuses caídos
Heinrich Heine (1797 – 1856) vivia seu exílio francês quando escreveu os dois textos que formam “Os deuses no exílio”. Em conflito com as forças políticas dominantes de seu país, o poeta se estabelecera em Paris, em 1831, e logo se integrou à vida cultural da cidade.

Como retribuição a boa acolhida de sua pessoa e de seus trabalhos traduzidos para o francês, Heine passou a publicar neste idioma – e, como frequência, antes mesmo de enviar seus textos para a Alemanha. Assim, seus relatos sobre o exílio dos deuses tiveram duas versões, uma em cada idioma, com algumas diferenças internas, do estilo de certas passagens à inclusão de episódios.

É difícil precisar a natureza do texto. Pode, mais facilmente, ser tomado por um ensaio. No entanto, a versão francesa, “Les dieux en exil”, começa com um preâmbulo ficcional que planta a dúvida. No texto alemão, “Die Götter im Exil”, a presença de um narrador ficcional não é explícita, mas é possível adivinhá-lo no tom da prosa – que faz referências a si que, não necessariamente, se adequam ao escritor.

A edição brasileira, enriquecida com um bom pacote de anexos e dois textos críticos sobre o Heine mitólogo, reforça o impasse: ao apresentar os relatos nos quais o poeta se baseou, tirados de folcloristas alemães, percebe-se o quanto o autor transformou os originais.

Heine, em seu exercício de mitologia, confirma a máxima disparada pelo espanhol Enrique Vila-Matas em entrevista à Folha de S. Paulo: “se não é crível é porque não foi bem contado”. Ele nos conta histórias de mistério, contos de fantasma, pinçadas das tradições orais de várias partes da Europa, em que os protagonistas são os antigos deuses, destronados pela “vitória” do Cristianismo.

Um mundo, com sua lógica própria, é construído nestes relatos. Nele, os deuses de fato existiram, não como ideias, mas como personalidades que atuavam no mundo sensível, cujos poderes e domínios eram garantidos pela crença de seus devotos. Heine mostra Dionísio em sua decadência, fretando um barco para realizar um bacanal às escondidas; o velho Deus do Trovão nórdico, Thor, vive como caçador de coelhos, numa ilha gelada e desabitada.

Não fosse contextualizado, Heine poderia ser tomado por um autor modernista ou contemporâneo. Há a confusão ficção/crítica, marca da literatura do já citado Vila-Matas; a reescritura, como a torção do original em benefício do novo texto; e o humor, algo paradoxal, que desliza em linhas que mais parecem contos góticos.

Longevidade de HQ

Um importante teórico da Semiótica da Cultura, o ucraniano Iuri Lótman (1922 – 1983), afirmou que “toda obra de arte inovadora é elaborada com um material tradicional”. A tese pode ser tomada para falar da obra de Heine, mas também do objeto de Jacques Le Goff.

Se Heine fala da sobrevida dos deuses no imaginário dos povos europeus cristianizados, Le Goff fala da aparição, transformação e persistência de figuras do imaginário medieval. Como comprova a ausência de figuras bíblicas, o historiador privilegia os personagens que apareceram na Idade Média e continuam a ser lembrados.

Ao fim de cada “perfil”, de herói ou maravilha, Le Goff fala de suas aparições recentes, em encarnações no cinema, nas histórias em quadrinhos e na literatura. São contemplados, entre outros, o herói-ladrão Robin Hood, o imperador cavaleiro Carlos Magno, o mago Merlin e seu “vizinho”, o Rei Arthur, El Cid, Tristão e Isolda.

HISTÓRIA
Heróis e Maravilhas da Idade Média
Jacques Le Goff
VOZES
2010
336 PÁGINAS
R$ 41,80
TRADUÇÃO: Stephania Matousek

ENSAIOS
Os deuses no exílio
Heinrich Heine
ILUMINURAS
2009
168 PÁGINAS
R$ 38
TRADUÇÃO: Hildegard Herbold, Marta Kawano, Márcio Suzuki, Rubens Rodrigues Torres Filho e Samuel Titan Jr.; o material para o livro foi selecionado e organizado por Marta Kawano e Márcio Suzuki

Visto no Diário do Nordeste – por Dellano

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