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Visto no Fanboy – por Elcio Holsback de Ab

“Cerca de doze mil anos atrás, nos mesmos dias em que Conan da Ciméria caminhava sobre a Terra, surgiu Sonja, a Guerreira Hirkaniana de cabelos cor de fogo. Forçada a abandonar sua nação por ter assassinado um rei, ela fugiu para o leste… Onde tornou sua espada uma lenda e imortalizou seu nome em todos os reinos hiborianos.”

Com este prefácio, o leitor era apresentado a uma das mais impressionantes personagens femininas dos quadrinhos, Sonja: A Guerreira, uma jovem ruiva de beleza exuberante e corpo escultural que possuía uma maestria inigualável em lutas e no combate com espadas; e vagava pelo mundo em busca de aventuras.

Ainda que o prefácio de hoje em dia não seja o mesmo, é o primeiro que melhor define a guerreira.

A trajetória da personagem que agora em 2008 completou trinta e cinco anos é conturbada, tendo muitos altos e baixos, e cercada de muita polêmica.

Sonja: A Guerreira (ou Red Sonja no original) foi criada por Roy Thomas em 1973, baseada em um conto de Robert E. Howard (o mesmo criador de Conan) intitulado “The Shadow Of Vulture” (publicado em 1934 em The Magic Carpet Magazine) cuja personagem se chamava Sonya of Rogatino.

Décadas depois, em 1973, Roy Thomas e Barry Windsor-Smith modificaram o visual da personagem e a adaptaram para a época das aventuras de Conan: O Bárbaro.

A Sonja do conto de Howard era diferente da guerreira mostrada nos quadrinhos, uma vez que, a guerreira é uma russa de cabelos ruivos que foi encontrada no meio de uma luta durante um cerco a Suleyman, em Viena, em 1529.

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A personagem usa além de sua já tradicional espada (aqui uma cimitarra), uma arma de fogo. No entanto, as características básicas da guerreira de Rogantino à qual a Sonja dos quadrinhos é inspirada foram mantidas, inclusive seu voto de só se entregar ao homem que a vencesse em um combate justo.

A Sonja criada por Thomas vivia na Era Hiboriana, numa fazenda da nação conhecida com Hirkânia (nos dias de hoje, a Ucrânia, país da Europa Oriental), nascida em uma família bastante humilde, sua mãe era uma mulher de grande fibra e seu pai, um mercenário aposentado. Juntos com seu dois irmãos, eles compunham um lar feliz.

Todos os dias, o pai de Sonja pacientemente ensinava aos filhos homens o manejo da espada, enquanto à menina só era permitido assistir às instruções, pois seu pai queria que ela apenas se dedicasse às tarefas do lar.

A bela ruiva, contudo, não aceitava aquilo e, quer por orgulho, quer por ciúme dos seus irmãos, todas as noites saía escondida para praticar o que lhe era proibido.

Porém, num agradável dia de outono, uma tropa de mercenários surgiu das montanhas; eram os antigos companheiros de seu pai, convidando-o a unir-se a eles para a campanha de inverno, onde iriam agir no reino de Khitai.

Recusando o convite, o velho foi morto pelos ex-companheiros, e em seguida os criminosos chacinaram sua mulher e filhos, e o líder deles violentou a linda Sonja. Ateando fogo à casa, para assim dar cabo à última sobrevivente da família, os mercenários partiram e, por milagre, a jovem ruiva consegui escapar das chamas, enrolando seu corpo em um cobertor molhado.

Deixando a casa, desesperada, ela tombou no chão quase desfalecida, quando a visão de uma deusa chamou-lhe a atenção.

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Com uma voz que lembrava música e o ribombar de trovões, a divindade falou à jovem que poderia conceder-lhe força e reflexos além da compreensão humana, para vencer seu sofrimento e assumir a emocionante vida de guerreira.

Para que isso acontecesse, Sonja teria que fazer um juramento de jamais permitir que homem algum tocasse seu corpo, a não ser aquele que a vencesse numa batalha. Aceitando as condições propostas a ruiva foi tocada pela espada da deusa e, a partir de então tornou-se outra pessoa.

Cheia de coragem, empunhando uma lâmina como ninguém, ela saiu a vagar por todo o continente, oferecendo seu serviços de guerreira ao exército que melhor lhe pagasse, começando aí a lenda da Mulher Demônio.

É interessante esclarecer que a Sonja criada por Thomas é diferente o suficiente para ser considerada uma outra personagem e é controlada pela Red Sonja LLC.

Red Sonya of Rogatino pertence à Paradox Entertainment, que controla diversos personagens de Robert E. Howard.

Curiosamente, a Paradox está sendo processada pela Red Sonja LCC, com quatro acusações diferentes sobre uso indevido e outros assuntos relacionados a marcas e direitos autorais.

A Era Hiboriana criada por Howard é uma época mítica que tomara lugar antes de qualquer civilização conhecida, no período pré-glacial da Terra, logo após o desaparecimento de Atlântida.

Localizava-se na Europa e na África do Norte com curiosas mudanças geológicas arquitetadas anteriormente à ascensão da teoria geológica das placas tectônicas, apesar de se parecerem com o que se é teorizado por geólogos hoje em dia. Estes acreditam que, durante a Idade do Gelo, a Europa era bastante diferente.

O Mar Mediterrâneo tinha secado intermitentemente, alternando cheias e secas sobre o Estreito de Gibraltar. Em certo ponto havia uma língua de terra que unia a península ao continente, através do Canal Inglês, entre a Inglaterra e os Países Baixos (mas não através do Mar da Irlanda), de tal forma que o Rio Tames transbordou, alcançando uma extensão nortista do Rio Reno.

E ambos os mares Báltico e Negro haviam sido, certa vez, lagos de água fresca – o primeiro (então chamado de Mar Ancilo, devido às Castanholas, um tipo de Molusco encontrado no local) cobrindo grande parte da metade oriental do que é agora a Suécia.

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Sonja começou suas aventuras nas páginas da revista Conan The Barbarian #23, em uma soberba adaptação de Thomas/Smith do conto de Howad “The Shadow of the Vulture”, onde Conan é o personagem principal.

Porém, os leitores se apaixonaram pela personagem e números depois ela reapareceria na obra-prima de Smith: “A Canção de Sonja”.

Pouco depois, em 1975, a personagem já tinha uma série própria publicada na revista Marvel Feature (que não durou mais que sete números), com o argumento de Thomas e os desenhos de nomes como Esteban Maroto, Neal Adams, Dick Giordano e Frank Thorne, tendo inclusive, um crossover com a série regular de Conan (que então estava em seu apogeu, em plena saga de Bêlit, a Rainha da Costa Negra).

Sua segunda série, publicada a partir de 1977, desenhada por Frank Thorne, durou apenas quinze números. Thorne, depois do cancelamento do título, passou a desenhar uma série para adultos chamada Guita de Alizzar (inédita no Brasil), que era uma versão erótica de Sonja.

Na época da publicação desta segunda série do título da guerreira, a Marvel realizou um feito até então impensável, trazer Sonja para a época atual, e fazê-la se encontrar com um dos mais populares personagens da editora: o Homem-Aranha.

Publicada em Marvel Team Up #79, de março de 1979 (revista da Marvel especializada em mostrar encontros do herói aracnídeo com outros heróis da editora), a revista trazia a história “Demônios do Passado”, desenhada por John Byrne, e se passava num museu onde o feiticeiro Kulan Gath (tradicional inimigo da guerreira), possui o corpo do guarda do museu através de um amuleto negro de ônix recém encontrado em expedições arqueológicas na Europa.

Chamado a ir no museu para ver o que está acontecendo, Peter decide entrar no prédio como Homem-Aranha. Enquanto está enfrentando vários demônios, Mary Jane (que havia chegado com Peter) adentra o prédio para procurar Peter quando ouve um chamado de uma espada reluzente. Ao empunhá-la, Mary Jane se transforma em Sonja.

A partir daí, Sonja e o Homem-Aranha se juntam para derrotar Kulan Gath. No Brasil, esta história foi publicada em Homem-Aranha #02, da Editora Abril, em agosto de 1983.

Em 1983, Tom de Falco e Mary Wilshire lançaram uma nova Sonja no mercado na tentativa de mais uma vez fazer a personagem emplacar um título solo.

Wilshire desenhou um novo uniforme para Sonja, substituindo seu já tradicional ‘biquini de moedas”, por  uma espécie de “vestido rasgado”.

A série, de enfoque mais humano e bastante feminista, infelizmente não durou muito, apenas 13 números.

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Depois disso, a personagem passou a aparecer somente em edições especiais, quase sempre em aventuras ao lado de Conan.

Sobre a vestimenta de Sonja, também sempre houve muita polêmica! Quando ela apareceu pela primeira vez, suas vestes eram mais “conservadoras”.

Ela não usava o seu famoso biquíni de moedas e sim uma camisa de mangas curtas e calça vermelha.

A vestimenta tradicional da guerreira só veio a aparecer depois, em 1974; conforme informado por Roy Thomas recentemente, dizendo que o artista espanhol Esteban Maroto apresentou na época uma ilustração para ele quando o mesmo redesenhou a personagem para a revista Savage Sword of Conan, mostrando a personagem usando a famosa vestimenta de prata.

Esta ilustração foi impressa pela primeira vez por Jim Steranko na revista Comixscene #05 em preto e branco. Depois, foi reimpressa e publicada na revista Savage Sword of Conan #01.

O “Biquini” caiu no gosto popular e se tornou conhecido através das pinturas de Boris Vallejo e outros. A já citada nova vestimenta criada por Mary Wilshire não agradou, pois descaracterizava a personagem e tirava a sua sensualidade.

No Brasil, Sonja apareceu pela primeira vez em Heróis da TV #36 de junho de 1982, marcando também a estréia de Conan no Brasil. Esta edição trazia a adaptação do conto “A Sombra do Abutre”.

As aventuras de Sonja foram publicadas pela Editora Abril em vários títulos da editora: Heróis da TV, Superaventuras Marvel, Almanaque de Conan: O Bárbaro, Conan: O Bárbaro, Conan Rei, Conan Saga, A Espada Selvagem de Conan, A Espada Selvagem em Cores e O Incrível Hulk; e teve uma edição de Grandes Heróis Marvel dedicada somente a ela em 1986, publicando o início da fase Falco/Wilshire, cuja capa da edição brasileira foi feita pelo desenhista brasileiro Watson Portella.

A Marvel parou de publicar as aventuras da Guerreira Ruiva em 1999, abrindo mão dos direitos da personagem assim como de Conan em 2001.

Em 2004, os direitos de Conan foram comprados pela Dark Horse e os de Sonja pela Dynamite Entertainment, apesar das mesmas terem um contrato com a Marvel para publicarem os trabalhos antigos encadernados.

A Dynamite Entertainment, é uma pequena editora norte americana fundada em 2005 que aos poucos vem crescendo no mercado de HQs publicando geralmente adaptações em quadrinhos de personagens clássicos da literatura de horror de domínio público, como Drácula, Mr. Hyde, Frankenstein, Lobisomen, bem como personagens de filmes como Highlander, Darkman, e Ash, de Uma Noite Alucinante, dentre outros; e outros clássicos como Zorro e o Fantasma de Lee Falk.

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Em 2005, após seis anos sem nenhuma aventura publicada, Sonja retornou ao mercado de quadrinhos pela Dynamite e conseguiu o sucesso até então jamais conseguido no tempo em que suas histórias eram publicadas pela Marvel, vendendo 240 mil cópias da edição #0 e 100 mil cópias da edição #01, que foi reimpressa com cinco capas alternativas.

No Brasil, recentemente, a Panini publicou estas primeiras edições da personagem pela Dynamite sob o formato de minissérie em três partes com o título Crânios Flamejantes, bem como o especial Sonja: A Guerreira: Mais Uma Batalha, comemorando os 35 anos de criação da personagem.

Neste retorno da personagem uma mudança em seu comportamento é percebida, Sonja está ambígua e provocativa; ela agora seduz os homens com seu charme de propósito, porque sabe que eles não podem tê-la a não ser que a derrotem em uma luta, algo praticamente impossível.

Ao mesmo tempo que seduz, ela zomba dos homens, se tornando uma autêntica Femme Fatale, um comportamento de certa forma novo para a personagem.

Este é o real objetivo dos roteiristas da série, humanizar um pouco mais a personagem e mostrar que ela não é perfeita, passando longe de ser uma “Mulher-Maravilha da Era Hiboriana”. Fora esta pequena diferença, o nível das histórias da personagem continua excelente, contando sempre com um bom roteiro e sanguinolentas batalhas.

Acredito que muitos desconhecem o fato de que o nome da guerreira na verdade pronuncia-se “Sonia”, uma vez que, no alfabeto nórdico o “j” tem som de “i”; curiosamente, isto é algo até hoje nunca foi explicado nas publicações da Guerreira Ruiva no Brasil.

Assim como Conan,  Sonja também foi adaptada para os cinemas em 1985, quando a MGM/United Arts lançou o  filme Red Sonja (no Brasil, erroneamente batizado de Guerreiros de Fogo), na ânsia de que este conseguisse ser um sucesso de bilheteria como os filmes do Guerreiro Cimério; contando com a então iniciante Brigitte Nielsen (Rocky IV e Stallone Cobra) no papel da guerreira.

Infelizmente, mesmo contando com o ator de Conan, Arnold Schwarzenegger, interpretando uma espécie de “clone” do Bárbaro da Ciméria, o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria graças ao seu roteiro equivocado que pouco tinha a ver com a essência da personagem e possuía uma trama inverossímel.

Anos mais tarde, no ano de 1998, a Guerreira Ruiva apareceu na série de televisão Conan: The Adventurer, em um episódio intitulado “Red Sonja”, e foi interpretada pela então quase desconhecida atriz Angelica Bridges (Baywatch, Mortal Kombat: A Série).

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Na ComiCon deste ano, foi anunciado que um novo filme da personagem está sendo produzido, desta vez contando com a bela Rose McGowan (Pânico, Planeta Terror) no papel de Sonja.

O filme produzido por Robert Rodriguez e dirigido por Douglas Aarniokoski, tem estréia prevista para 2010, mas já teve dois cartazes divulgados no evento, que deixaram os ávidos fãs da guerreira babando de ansiedade.

Infelizmente, Sonja ainda não foi adaptada para nenhum jogo de vídeo-game como Conan, mas a personagem Tyres Flare do jogo Golden Axe é inspirado nela.

Espera-se que Sonja seja novamente publicada no Brasil de forma regular, afinal, Sonja é uma das maiores personagens da literatura de fantasia heróica e possui milhares de fãs que aguardam ansiosamento o retorno da personagem de forma efetiva ao mercado de quadrinhos brasileiros.

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