Poucas leituras pra mim este ano foram mais agradáveis do que “O Marido do meu Irmão”. Escrito por Gengoroh Tagame, desenhista assumidamente homossexual de mangás eróticos gays, o mangá seinen (não gente, não é yaoi) vencedor do prêmio Eisner em 2018 tem uma trama relativamente simples.

Yaichi é um adulto que mora com sua filha Kana. De repente, bate em sua porta um homem alto barbudo e musculoso. Este é Mike, esposo do seu falecido irmão-gêmeo. E toda a história se desenvolve nesta relação.

Logo no início, já é possível ver como Yaichi, apesar de ter aceitado sem julgamento, fica desconfortável com a situação quando Kana convida Mike pra dormir ali e o pai fica constrangido, mesmo já tendo aceitado que primos ficassem.

Sem dar muitos spoilers, no decorrer de toda a história, Yaichi questiona a si próprio se ele teria as mesmas atitudes se fosse a esposa de seu irmão. Tentando entender porque ele está irritado ou com medo de algumas coisas que, se fosse outro homem, seria perfeitamente aceitável.

Além disso, o contraste com a visão infantil de Kana mostra algumas peculiaridades interessantes sobre como a não-aceitação deste tipo de coisa é meramente cultural, traçando paralelos até mesmo com tatuagens, coisa que no Japão é visto como costume de criminosos e pessoas que as tenham não são aceitas em alguns locais públicos como piscinas.

Yaichi é uma pessoa normal. É alguém que não tem necessariamente um preconceito forte dentro dele, mas, por não conhecer o mundo Queer (denominação dada a todos aqueles que não se identificam como heteros) acaba estranhando e repetindo costumes preconceituosos que, para tudo o que ele já viveu, são normais. O mangá aborda isso de uma maneira genial, com o personagem que ao mesmo tempo pretende entender se foi o irmão sair do armário que abalou a relação deles se nega a conversar sobre este tipo de coisa mais íntima.

Enquanto isso Mike, por ser um canadense, além de confundir algumas palavras e deixar escapar algumas palavras em inglês no meio das suas frases, acaba falando sobre coisas que são tabus no Japão para Kana, como o casamento homossexual e até mesmo questões de afeto como abraços, o que rende uma das melhores cenas de todo o primeiro volume.

Uma sessão bem educativa do mangá é o “Curso de Cultura Gay do Mike” apresentada entre os capítulos. O personagem comenta sobre diversas questões da comunidade LGBT da maneira mais didática possível. E acredito que é justamente esta a palavra que melhor define a trama. Didática.

O mangá mostra a relação de Mike exatamente como qualquer outra relação, explica algumas questões sobre a cultura LGBT, aborda diferenças entre um gay que mantêm isso escondido e um que é abertamente homossexual, trata de questões mais tensas sobre como adultos podem enraizar, mesmo que acidentalmente, preconceitos nas crianças e muito mais.

Um dos pontos mais chamativos também é justamente a questão cultural. Para aqueles que não sabem, o Japão é um pais relativamente reservado em relação aos seus sentimentos. A frustração não pode ser evidenciada e um sorriso falso, mesmo que não goste da pessoa, é visto como algo educado a se fazer. Até mesmo as relações de pai e filho, apesar de com carinho, são acima de tudo, relações de hierarquias.

De forma geral, podemos dizer que “o coletivo importa mais que o indivíduo” e, por isso, eles acabam tendo diversos problemas emocionalmente falando. Situar uma história com um tema desses em um país que não se importa tanto com o individual foi algo instigante. O contraste com um país que abraça a diversidade a ponto da maioria de seus moradores serem estrangeiros, como é o Canadá, é a cereja do bolo.

Apesar de ser um mangá, a arte do traço remete ao estilo americano, criando um visual único. Para aqueles que ficam “preocupados” por ser um mangá escrito por um mangaká erótico, já adianto aqui que não tem nenhuma cena de sexo ou algo do gênero. O máximo que aparece são os personagens de cueca ou só sem camisa, o que pode ser visto em qualquer mangá.

A edição da editora Panini está muito boa. Papel offset com uma boa gramatura, logo, as páginas não ficam transparentes. O mangá vem com verniz localizado nos personagens e no título, orelhas com artes da Kana, e, apesar do preço mais alto, este se trata de um volume Big então reúne mais de 300 páginas, o que acaba fazendo com que o preço seja proporcional.

Este primeiro volume vem com marca páginas e conta com alguns pequenos trechos do autor comentando sobre a recepção da obra e como foi para ele. O segundo, e último volume, está previsto para chegar em junho de 2018.

“O Marido do meu Irmão”
Editora Panini – Planet Mangá
Autor: Gengoroh Tagame
Capa: Cartão com orelhas
Papel offset
368 páginas
13,7 x 20 cm
R$37,90
Periodicidade bimestral

“O Marido do meu Irmão”, o mangá que todos precisam lerhttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2019/05/O-Marido-do-meu-Irmão-panini-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2019/05/O-Marido-do-meu-Irmão-panini-1-150x150.jpgMatheus ZucamanganimeGengoroh Tagame,O Marido do meu Irmão,PaniniFacebook Twitter Instagram Youtube Poucas leituras pra mim este ano foram mais agradáveis do que “O Marido do meu Irmão”. Escrito por Gengoroh Tagame, desenhista assumidamente homossexual de mangás eróticos gays, o mangá seinen (não gente, não é yaoi) vencedor do prêmio Eisner em 2018 tem uma trama relativamente simples. Yaichi é um adulto...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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