21052583_2013102415340471Vidas ao vento, The Wind Rises, ou ainda mais significativo Le vent se lève é a tradução da vida de três homens fantásticos.

O primeiro deles, Hayao Miyazaki, que se despede da carreira de diretor e animação, fechando as portas temporariamente do estúdio Ghibli com uma de suas obras mais inspiradoras. Não quero falar sobre seu currículo extenso, a ascensão da animação japonesa, a introdução do mercado ocidental de longas animados graças a Ghibli ou qualquer coisa do gênero enciclopédico. Não, acho mais justo falar do vi nos últimos anos.

Aos 9 anos fui ao cinema e sai de lá fascinada e perturbada com uma animação chamada A Viagem de Chihiro (que me falaram que ia ser parecido com Pokémon!!!). Como um longa para crianças podia ser assim? Os adultos que me acompanhavam não entenderam, mas eu sim. Acho que toda criança que teve uma experiência semelhante entendeu.

Não era Disney, não era maniqueísta, não era bem contra o mal. Chihiro éramos todos nós. Crianças que às vezes desejavam que seus pais fossem menos intransigentes e teimosos e que ás vezes pagavam pelas consequências de seus atos estúpidos. Mas não, não podíamos enfrentar uma verdade tão bruta e moralmente “errada” sozinhos.

421948.jpg-c_640_360_x-f_jpg-q_x-xxyxxNão dava mais para olhar mocinhos e princesas com os mesmo olhos. Não dava para me deixar ser enganada por tanta bondade e perfeição.

Claro que eu não ignoro que existe toda uma trajetória anterior de Miyazaki como Nausicaä e Meu amigo Totoro mas esses eu só descobri depois. O meu primeiro contato foi com A Viagem de Chihiro e eu não poderia nesse caso ser sincera ao contar sobre uma outra experiência anterior a minha própria trajetória.

A partir daí, esse olhar de Miyazaki em cima de temas difíceis de lidar (tanto para crianças quanto adultos) conquistou o mundo, até o último momento, até o último segundo… em Le vent se lève.

Insisto em usar o título em francês porque essa é uma citação a Paul Valéry que dá todo o tom do filme, mas volto a isso depois.

caproniAgora vamos ao segundo homem (que se torna fantástico no filme) envolvido nesta história, o engenheiro de aviação Caproni. Apesar de não ser considerado um herói da aviação, Caproni é contemporâneo a história de Le vent se lève, a todo o período que diz respeito a Primeira, a Segunda Guerra Mundial e aos primeiros anos do pós-guerra.

Apesar de não conhecê-lo antes do filmes e nem nunca ter ouvido seu nome (mas isso não significa muito pois sou analfabeta em engenharia aeronáutica) ele foi o criador da frota de guerra italiana na Primeira Guerra Mundial (1914-1917), de avião de passageiros no entreguerras e posteriormente mais aviões de bombardeio para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Toda essa trajetória é revelada no longa de forma muito lúdica, pois Caproni é principalmente um sonho, uma inspiração para Jiro, o nosso protagonista sobre quem falaremos nos próximos parágrafos.

Desconheço a pesquisa de Miyazaki em relação a Caproni (talvez para ele seja um personagem muito importante em sua história pessoal), mas para mim poderia ser qualquer outro aviador. Poderia ser Santos-Dummont, o que deixaria o filme ainda mais interessante para os brasileiros. No entanto, foi Caproni o escolhido para guiar e conscientizar o sonhador Jiro sobre o que são aviões.

caproni_dreamsApesar de ter dito anteriormente que qualquer poderia ser outro aviador, gostaria de deixar claro que ele se torna um personagem fantástico por ser o índice inspirador de sonhos. Caproni sabe que aviões são muito mais do que máquinas de guerra e o demonstra ao protagonista em uma das mais belas falas do longa: “Aviões são sonhos lindos”.

Seria impossível deixar de inspirar uma criança míope que sonha em ser piloto mas que vive em um período de guerra com uma frase tão bela.

Sim, apesar de tudo, aviões são sonhos lindos porque voar é o destino do homem… voar é comumente utilizado como sinônimo de liberdade e quem não quer se ver livre de uma guerra? E quem não quer ser livre para ir aonde quiser?

Aviões são ferramentas dos sonhos lindos.

le-vent-se-leve-miyazaki-2É através de Caproni que nosso personagem é apresentado e é assim que vamos começar a falar de um terceiro homem fantástico: Jiro Horikoshi. É importante deixar claro que conto a história desses três homens (que existem ou existiram fora da animação e são ou foram de carne e osso) através do olhar do longa. Sem dúvidas os que conhecem a história de Horikoshi e de Caproni podem facilmente dizer que tudo isso é uma ilusão e que ambos foram grandes filhos da mãe… mas quanto a animação é preciso separar bem os personagens da realidade e da ficção.

Jiro nos é apresentado como um garoto que sonha em ser piloto e que um dia, meio que sem querer, cai dentro dos sonhos de Caproni. A partir desse primeiro encontro Jiro descobre que, apesar da miopia impedi-lo de ser piloto, ele poderia ser engenheiro aeronáutico e construir modelos de avião inspiradores. O tempo passa e Jiro continua encontrando o engenheiro italiano em sonhos. Caproni sempre dá spoilers do que acontecerá no futuro, ou seja, a Segunda Guerra Mundial, e o futuro da aviação. Aviões continuariam sendo máquinas magníficas mesmo que os utilizassem de forma belicosa.

le-vent-se-leve-miyazaki-5Anos mais tarde, em uma viagem de trem, vemos uma garotinha e um Jiro com cerca de 20 anos apreciando deliciosas paisagens. Ao quase perder seu chapéu para o vento e tê-lo resgatado pela menina, ambos trocam os consagrados versos de Paul Valery que iniciam o segundo ato: “Le vent se lève! . . . Il faut tenter de vivre! / “A ventania aumenta… devemos tentar viver!”. Por meio desse verso, os estúdios Ghibli dão o nome do longa (em francês) e mais: norteiam toda a vida de Jiro.

Vemos a história pessoal de Horikoshi se mesclar intensamente com o seu trabalho para a aviação japonesa, ao passo que observamos que ele não guia a própria história, mas parece ser guiado por uma força graciosa e muito mais forte do que sua própria vontade.

LeVentSeLeveHayaoMiyazakiAcredito que alguns chamariam isso de destino, mas prefiro ficar com o vento. Esse vento que o leva e que o faz viver uma vida serena apesar das dificuldades de sua trajetória e da contemporaneidade. Não quero comentar muito sobre essas dificuldades porque acho que um dos sabores do filme está em descobri-las e ver como Jiro se sai ao enfrenta-las.

Por isso quero fechar apresentando esse primeiro momento de Jiro, que fundamenta toda a sua história pessoal, um pouco a do Japão e até mesmo da humanidade (o Jiro de carne e osso foi o designer do modelo Zero, aeronave utilizada por toda a frota militar japonesa durante a II Grande Guerra).

De forma inspiradora os três homens citados aqui tem suas vidas entrelaçadas pelo longa que marca um hiato dos estúdios Ghibli. O estúdio se encontra fechado para uma reestruturação da equipe, e não foi divulgado qual será o futuro da empresa. Não foi bom só enquanto durou, pois tenho certeza que esse é um dos mais belos roteiros inspirados na história da aviação e de todos aqueles que sonharam em alcançar as nuvens.

Trailer:

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/09/le-vent-se-leve-vol-1024x554.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/09/le-vent-se-leve-vol-300x300.jpgPriscila PiresmanganimeCaproni,Ghibli,Hayao Miyazaki,Le vent se lève,The Wind Rises,Vidas ao VentoVidas ao vento, The Wind Rises, ou ainda mais significativo Le vent se lève é a tradução da vida de três homens fantásticos. O primeiro deles, Hayao Miyazaki, que se despede da carreira de diretor e animação, fechando as portas temporariamente do estúdio Ghibli com uma de suas obras mais...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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