HQ que acontece: O que Aconteceu ao Homem mais Rápido do Mundo?
Por Dedo Zuka | 28 fevereiro de 2011
Caso 1: imagine que você está assistindo um lance de futebol na TV da sala, e lembra que deixou uma panela na cozinha que está para pegar fogo se você não correr até ela. Como você não tem superpoderes fica entre fazer uma coisa ou outra. E se você tivesse super velocidade como nos quadrinhos?
Caso 2: no momento que o jogador se prepara para chute na TV, você se levanta do sofá, vai até a cozinha, tira a panela do fogo e volta antes do jogador acertar a bola. Incrível, não? Só que você perdeu os milisegundos dos movimentos do jogador, pois mesmo sendo rápido, você teve de se ausentar da sala para ir para cozinha. Mas seu poder poderia ser um pouco diferente.
Caso 3: você para o tempo. Aí vai até a cozinha, tira a panela do fogo, volta à sala e faz o tempo correr novamente. Nesse caso você não perdeu nenhum movimento do jogador. Vamos além e pensar em mais um caso.
Caso 4: você faz quadrinhos. Você está desenhando uma partida de futebol, se lembra que tem uma panela na cozinha, vai até ela, tira do fogo e volta à sua prancheta. O jogador no papel não se moveu nenhum pouquinho. Você controla o destino dele.
Vou fazer uma revelação: não sou uma pessoa comum, eu tenho o super poder do caso 4. O que? Você está dizendo que fazer quadrinhos é ser uma pessoa comum como no caso 1? Vamos pensar a respeito depois.
O caso 3 é o poder de Bobby Doyle, o protagonista de “O Que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo”, que recentemente foi relançado pela Gal Editora. Pensando bem, ele não é propriamente mais rápido (caso 2), ele congela o tempo, é um poder diferente. Mas aos olhos de uma pessoa comum, os casos 2 e 3 são de homens que conseguiram tirar a panela do fogo num piscar de olhos.
A diferença é que como no caso 2 o herói teve de se mover rápido, pode estar todo suado, enquanto que Bobby pode andar calmamente dentro do tempo congelado.
Como pessoas comuns não têm como perceber essa diferença acabam chamando Bobby de “o homem mais rápido”. Aliás, reparem que a capa da HQ que é escrita por Dave West e com arte Marleen Lowe, é uma página de jornal. Faz todo o sentido.
Pessoas normais do caso 1 têm inveja dos poderes dos casos 2, 3 e 4. O que? Do caso 4 não? Calma que vamos chegar lá.
Acontece que Bobby não quer causar inveja as pessoas normais, ele não faz questão de aparecer, nem se dá ao trabalho de ter um uniforme colante (para ficar com a dualidade identidade secreta/verdadeira). Bobby queria ter uma vida de pessoa normal, mas apareceu algo…
Bobby conta que nos tempos da faculdade, ele podia usar o poder de parar o tempo para ir para festa, voltar para casa, congelar o tempo, esperar a ressaca passar, estudar, fazer o tempo mover novamente e ir para a prova.
Se os colegas dele tinham de fazer uma escolha (festa ou prova), Bobby levou vantagem porque ele teve um dia a mais dentro do tempo dele (o que inclui o tempo que para os outros estava congelado). O revés da moeda é que ele envelheceu um dia a mais que os outros. Se ele fizesse isso todo dia nos 4 anos da faculdade, para ele iam ser 8 anos de faculdade e para outros 4. Sim, o preço a pagar é o tempo, por mais paradoxal que isso seja.
O corredor super veloz do caso 2 poderia ter ficado com inveja de Bobby, por não ter perdido nenhum movimento do futebol, mas sendo o preço a pagar o tempo, é Bobby quem fica com inveja do cara do caso 2, pois este pode envelhecer normalmente junto com os outros, e em casos extremos, ele ficaria com inveja das pessoas normais do caso 1 mesmo, pois tudo que ele queria era viver e envelhecer normalmente.
O que é ser herói? Ora, já vimos pilhas e pilhas de super-heróis, e basicamente o que um herói faz é salvar as pessoas. Os poderes elegantes e uniformes bonitos são só acessórios. E verdadeiros heróis sacrificam algo ao invés de só ficarem exibindo seus raios e rajadas de balas a torto e direito.
Pode ser que o herói evitou que um vaso caísse na cabeça de uma pessoa e essa pessoa continue a andar sem perceber e sem agradecer quem usa o uniforme bonito, essas coisas. Mas o herói vai pensar que fez a coisa certa. Pensa que vai ter valido salvar aquela vida, e que aquela vida vá fazer mais o bem que o mal (pode ser piegas, mas você não consegue salvar a vida de alguém se acha que essa pessoa fará o mal, não é verdade?).Bobby salva vidas e ele comenta que possivelmente as pessoas salvas fariam o mesmo no lugar dele (pelo menos é a esperança dele). Mas será que ele vai conseguir salvar todas as vidas que ele quer salvar?
A leitura da HQ é empolgante, fiquei tão envolvido com a história que comprei a obra, li no ônibus, continuei lendo em casa e assim li tudo (incluindo os extras) em uma questão de poucas horas.
Vale muito a pena os extras onde o autor conta como fez essa HQ e explica todo o processo de produção que demorou 4 anos. Após encontrar a desenhista certa, cada página da história era entregue em 1 semana ou 2, e que era uma ansiedade esperar até que a próxima ficasse pronta, mas valia a pena pois a arte de Marleen Lowe é realmente bonita.
Se você não ficou com inveja dos poderes do caso 4, pois implica em ter de desenhar, e esperar horas, dias ou semanas para que fiquem prontas as páginas que os leitores lêem rápido (mas se eles lêem rápido porque não conseguem desgrudar da revista para saber o que acontece na trama, isso é motivo de orgulho para nós com poderes dos quadrinhos).
Confesso que eu deveria aprender a usar melhor o meu poder. Como muitos quadrinhistas, ficava pensando se a atividade valia a pena e queria logo sair e curtir a vida das pessoas comuns.
Deve ser por isso que fiquei tão tocado com a história de Bobby, se não bastasse à questão do que é ser herói, que é superinteressante, para mim o dilema do personagem dentro do tempo congelado reflete o dilema dos quadrinhistas, que vão muito aos poucos movendo as coisas dentro do tempo congelado no papel.
Gostaria de agradecer a Dave West por ter mostrado que vale a pena sim. O resultado de todo esse esforço foi que a dupla criou a Melhor Graphic Novel em Preto e Branco de 2009 segundo a premiação Eagle Award, a mais importante dos quadrinhos ingleses.
Vale a pena ficar quatro anos fazendo uma obra aos poucos se o resultado é tão bom. Vale a pena acompanhar Bobby que no final dá uma mensagem muito positiva e emocionante em termos de humanidade.
No final das contas, acho que todos nós em algum momento fomos salvos por heróis mesmo não nos dando conta disso, e todos nós podemos ser heróis também independente do nosso nível de poder. Pelo menos gosto de refletir assim depois de ter lido essa obra.
O que Aconteceu ao Homem mais Rápido do Mundo?
Roteiro: Dave West
Arte: Marleen Lowe
Gal Editora
16,5 x 24,0 cm
64 páginas em offset 120g
R$ 22,00
Tags: Dave West, Gal Editora, Marleen Lowe, O que Aconteceu ao Homem mais Rápido do Mundo?





Valeu Renato pela publicação e pelos toques para melhorar o texto! Aliás Li os outros “HQ que acontece” e estão muito legais! É uma honra poder comentar nesse espaço sobre uma hq que gostei muito!