O Silêncio é baseado no célebre romance de 1963 do mesmo nome de Shūsaku Endō e Scorsese tem prometido trazê-lo para a tela grande desde que leu o livro em 1989. Ele sentiu ecos de sua experiência recente e sua relação de longa data com a igreja, de que ele tinha uma vez pretendido se tornar um padre.

Quase 30 anos em construção, o Silêncio é um trabalho sincero e sério. Mas por meio do comprimento e da redundância, no caso ambos, sem dúvida, é produto da profunda admiração de Scorsese por Endo, bem como apresenta uma performance incrível de Andrew Garfield, ela finalmente fica aquém de suas ambições.

Um filme intenso vindo de um diretor envelhecido e moralmente enervado, um épico sobre a fé, apenas capaz de ser feito por um talentoso e onerado diretor. Profundo e ilusório, Silêncio leva Scorsese ao confessionário, apresenta um estilo cinematográfico magnífico, entregando sem sombra de dúvidas o seu trabalho mais íntimo até hoje. É um sermão inter-cultural transformado em imagens, um drama religioso com uma elegância graciosa e acima de tudo, o Silêncio é puro, como o cinema e em seu reflexo.

De início vemos uma visão quase que literal do inferno como se poderia imaginar. O ano é 1633, o lugar, uma extensão vulcânica, próxima a Nagasaki, Japão. Através dos vapores de enxofre e vapor escaldante, vemos homens europeus, com as mãos amarradas, sendo conduzidos por soldados japoneses para os picos ferventes que pontilham a paisagem.

Apostasia, o abandono da fé. O padre Ferreira vivido por Liam Neeson, faz parte de um grupo de jesuítas enviado ao Japão no período em que o catolicismo era ilegal e o budismo era doutrina. Ferreira e seus companheiros são pegos, torturados, forçados a renunciar Cristo pisando em uma imagem esculpida do próprio.

Depois de anos, dois jesuítas portugueses Rodrigues e Garupe, vividos por Andrew Garfield e Adam Driver respectivamente, recebem uma carta de Ferreira, mentor de ambos. Ele começou uma nova vida como japonês, com uma esposa e cometeu apostasia, agora é budista.

Rodrigues e Garupe se recusam a acreditar nisso e eles prometem encontrá-lo e dissipar a calúnia. O seu superior adere à sua missão, embora lhes lembre o perigo extraordinário que terão de enfrentar desde o momento em que puserem o pé no Japão: “Vós sereis os últimos dois sacerdotes que já foram enviados”.

Os dois sacerdotes, Rodrigues e Garupe, são contrabandeados para o Japão por Kichijiro, um bêbado inconstante. Lá, eles encontram uma cidade povoada por cristãos secretos, e sua missão começa a mudar, de encontrar e resgatar Ferreira a ministrar a estes devotos camponeses, que vivem em terror.

Eventualmente, os soldados chegam à cidade onde os sacerdotes estão se escondendo, e os dois homens são forçados a se separar. Para o restante do filme, seguimos a jornada de Rodrigues enquanto ele testemunha atrocidades contra seus companheiros cristãos, crucificações, afogamentos, uma decapitação. Ele mesmo é capturado. Acima de tudo, sofre com o aparente “silêncio” com o qual Deus responde às suas orações.

Sem sombra de dúvidas, Silêncio não é um filme fácil de assistir, seu tempo de execução de 160 minutos é inundado por imagens de dor e crueldade. Mas não é um mero exercício cinematográfico de resistência física ou as punições da carne. Scorsese está tentando algo muito mais interessante: um retrato da resistência da alma.

Não é, afinal de contas, o corpo de Rodrigues que está sendo atormentado, mas as pessoas que o rodeiam. E fica bem claro que está dentro de seu poder fazê-lo parar se ele mesmo apostatar. De fato, uma das principais fraquezas do Silêncio é o quanto os personagens orbitam em torno de Rodrigues transmitem mais gravidade narrativa do que ele mesmo.

Não que isso tire o protagonismo e a brilhante interpretação de Andrew Garfield, mas é algo que realmente me incomodou. Tudo chega ao fim, ainda restando meia hora para acabar, quando Rodrigues finalmente completa sua missão e aprende o destino de seu mentor, o padre Ferreira. Eu não vou revelar o que ele descobre, mas vou dizer que é um momento que poderia ter ocorrido muito mais cedo no filme.

Não me entendam mal, Silêncio é um filme indiscutivelmente digno de um dos nossos maiores diretores vivos, um que aborda com cuidado as questões de fé, dúvida e dever. Os recursos visuais fornecidos por uma direção de fotografia fantástica, valem a pena o preço da confissão, camponeses desesperados rastejando sobre o lado de um barco, uma cidade abandonada a uma comunidade de gatos selvagens, uma caverna à beira mar que funciona como um portal de um mundo para o outro.

A paixão permanente de Scorsese e o respeito pela sua matéria-prima estão em evidência por toda parte. O Silêncio transcende qualquer definição simples e ascende ao reino da beleza magistral. Silêncio é um filme sobre agonia espiritual, sobre o medo de que talvez ninguém lá em cima está ouvindo, ou até mesmo se preocupa.

O silêncio é um filme de alma enorme, constantemente ameaçado pela vaidade, pelo ego e pelo fracasso de viver por Deus. Scorsese entregou um requiem arrepiante, doloroso e longo.

Trailer:

Silêncio
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese
Autor da obra original: Shusaku Endo
Diretor de fotografia: Rodrigo Prieto
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Yôsuke Kubozuka, Yoshi Oida, Shinya Tsukamoto, Issey Ogata, Nana Komatsu, Ryô Kase
Duração: 160 minutos
Distribuidor nacional: Images Filmes

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