2001… Já se passaram 10 anos, mas me lembro bem como fiquei perplexo com as notícias que rolavam na internet sobre a animação da LJ. Perplexo? Sim, pois, embora os crossovers que havia assistido na série do Superman fossem promissores, uma animação da Liga era algo “grande” para um estilo decididamente simples de caracterização.

Como simples não é simplório, vi minhas expectativas mais pessimistas caírem por terra quando aluguei o dvd, meses antes da exibição nos canais a cabo, para conferir as aventuras do alto escalão de heróis DC. Hoje, é fácil atribuir tais palavras ao elenco heróico, mas a Mulher-Gavião no lugar habitual de Aquaman e a escolha do Lanterna John Stuart geraram vários comentários entre os fanboys na época. Cabe dizer que a formação escolhida provou como os fãs mais xiitas estavam equivocados, potencializando a narrativa com novas abordagens e as mais variadas possibilidades de interação entre personalidades bem estruturadas e coerentes.

O episódio de origem – em três partes exibidas de uma vez no dia 17 de novembro de 2001 – teve direito a premiere especial, em horário nobre na TV americana, mostrando o plot mais clássico para que um time de herói seja reunido: enfrentar uma ameaça que nenhum poderia deter sozinho. Mesmo calcado em algo extremamente elementar para qualquer leitor de quadrinhos, a animação agradou imensamente, sem permitir que o tema soasse obsoleto. Embora a animação tenha se tornado possível e até mesmo viável mercadologicamente a partir dos resultados do trabalho do roteirista Grant Morisson a frente da HQ da Liga, a equipe de Bruce Timm e Paul Dini soube extrair o melhor do quadrinho para o meio áudio-visual, por exemplo, ao não permitir que a vasta experiência de Batman transformasse o restante da equipe num bando de imbecis. A prova disso é que existem episódios muito legais sem a presença do Homem-Morcego.

A caracterização dos personagens, que naturalmente herdara o estilo de desenho do talentoso produtor Bruce Timm, dono de traços belos, dinâmicos e limpos, trouxe um Batman cuja máscara já dá sinais para a evolução de seu traje para aquele que foi apresentado no primeiro episódio de Batman do futuro – detalhe genial, diga-se de passagem – embora o colante cinza tenha ficado mais claro, quase azulado, em relação ao tom de cor apresentado em Batman Gotham Knights.

Superman ganhou cores igualmente mais claras – em especial na famigerada cueca sobre a calça – mas duas linhas de expressão no rosto do personagem tenham-no envelhecido demais (tanto que elas foram removidas na segunda temporada). O Lanterna Verde se afirmou rapidamente como um dos preferidos pelos telespectadores, que não sentiram falta do Kyle Rayner com origem de Hal Jordan apresentado num crossover do desenho do Super. O Flash escolhido foi Wally West claramente por razões de personalidade, para servir de alivio cômico na série. Uma jovial Mulher Maravilha também foi muito bem sucedida em sua versão animada. O Caçador de Marte também, enquanto que a “wolverinica” Mulher-Gavião completou o time com perfeição. Personalidades pouco coesas em princípio tornaram os personagens interessantes e os “reapresentaram” de forma magnífica até para o mais calejado leitor.

Repleto de excelentes referências, a animação elevou ao cubo as melhores ideias e conceitos relativos ao Universo DC. Snapper Car, por exemplo, “humano e mascote” da Liga em diversas fases das HQs, foi “reinterpretado” como um ávido repórter presente em quase todos os episódios da primeira temporada.

Mas a série mostrou muito, muito mais.

Cada nova aventura abria espaço para algo verdadeiramente novo. Momentos clássicos da cronologia DC foram abordados sob forma moderna e, por vezes, mais coerente que nos próprios quadrinhos que lhe deram origem. Um aprimoramento, uma releitura perfeita da DC pela própria DC. Creio que o escritor Peter David, que arrancou a mão de Aquaman nos gibis, tenha ficado dias sem dormir, atormentado por um “como não pensei nisso antes”… Sim, Aquaman foi um dos primeiros personagens abordados. Ou melhor, tanto heróis quanto vilões foram articulados de forma a render histórias sensacionais ao longo de cerca dos 60 episódios que compões as duas temporadas – tais episódios tinham sempre duas partes e três quando se trata de eventos mais significativos – caso do encerramento de ambas as temporadas.

Se no fim da primeira fase, os heróis voltaram no tempo para deter a loucura de Vandal Savage na II Guerra, ao término da segunda temporada, encerrada em maio de 2004, eles confrontaram uma invasão thanagariana, que revelou o papel de espião da Mulher-Gavião na Terra. Neste episódio, os justiceiros revelaram suas identidades entre si…

O elenco de vozes sabiamente manteve Kevin Conroy como Batman, enquanto a Mulher-Gavião foi dublada por uma atriz de origem hispânica – o que soa tão bobo quanto os klingons serem atores “morenos” na fase clássica da série Jornada nas Estrelas (Star Trek), mas… Paciência, isso coisa de estadunidense. O caso é que isso não atrapalhou em nada, nem inferiu qualquer relevância, naturalmente. Michael Rosenbaun, o Lex Luthor da série Smallville, é a voz original do Flash, comprovando o talento e versatilidade do jovem ator.

No Brasil, a dublagem do estúdio carioca Cine-Vídeo trouxe Márcio Seixas de volta ao Batman. A interpretação de Guilherme Briggs para o Superman tornou o kryptoniano mais jovial e amistoso, como um menino da fazenda que se importa com todas as formas de vida. Marcelo Garcia fez o Flash com excelência e, não obstante, é a voz do Relâmpago Mcqueen no filme Carros. Maurício Berguer, que atuara como Batman em Gotham Knights deu o tom perfeito para o militarizado Lanterna Verde. Andréa Murucci, voz da atriz Júlia Roberts em vários filmes brasileiros, garantiu toda a personalidade guerreira da Mulher-Gavião. Priscila Amorin tornou a Mulher Maravilha humana e deusa simultaneamente. Dirigidos pela experiente Mirian Fischer, voz da coelhinha Lilica de Tiny Toon, os atores foram muito bem conduzidos em suas performances, embora, infelizmente, não se possa dizer o mesmo do texto nas primeiras temporadas – adaptado por alguém que não conhece os quadrinhos. Várias referências preciosas foram perdidas nesse sentido… Uma pena.

Liga da Justiça Sem Limites, de fato, expandiu as fronteiras do Universo DC como nunca fora feito antes. O elenco de heróis abrigava quase 60 super-heróis comandados pelos membros fundadores. Tal fase foi iniciada na TV a partir de junho de 2004 e coincidiu com publicações mais “densas” e sombrias da DC nos quadrinhos daquele período. Isso viabilizou o emprego de tramas mais maduras e sinistras – no melhor sentido do termo – isso sem citar o fato de várias tramas terem sido plena e harmonicamente interligadas, desde meros “efeitos” em episódios isolados da série do Superman, passando por Super-Choque e Projeto Zeta para alcançar a tecnologia de Batman do Futuro… O termo “universo”, em seu mais amplo e coeso sentido, sem o jugo de anos de confusa cronologia e o gênio forte de desvairadas ou malfadadas equipes criativas.

A DC apresentada no universo animado fora tão bem sucedida e mostrava tantas possibilidades criativas que cairam nas graças dos fãs, que roteiristas dos episódios foram convidados a escrever HQs – sem repetir o mesmo sucesso, afinal, são mídias diferentes (embora o contrário seja verdadeiro, como se pode constatar nos episódios escritos por Warren Ellis e, especialmente, com o Gavião Negro de Geoff Johns).

Na metade da fase sem limites, personagens protagonistas de episódios e até temas com tramas “únicas e isoladas”, foram abrandados de formar a prestigiar o bom humor e a diversão. Assim, surgiram verdadeiras pérolas, como o Batman que precisa cantar para salvar a Mulher Maravilha de Circe Kalibak, filho de Darkseid sendo coagido com um belo pedaço de bolo de chocolate em Apokolips

Após quase 40 episódios distribuídos em três temporadas, cujo último episódio foi ao ar em maio de 2006, Liga da Justiça Sem Limites, de fato, fez mostrar a própria matéria que compõe o UDC – seus personagens, clássicos e modernos – para milhares de centenas de pessoas por várias partes do mundo através da animação que, por vezes, certamente despertou interesse e curiosidade. De mérito calcado na exímia forma de fazer uma certa leitura ou releitura dos elementos dos quadrinhos, o Universo DC Animated é o que há, e torna as páginas das revistas mundo a fora mais convidativas para novos leitores – mantendo viva a base de tudo.

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