O texto a seguir contém spoilers de Samurai X, Dragon Ball e Naruto

Um dos maiores problemas ao criar uma história que não tenha um fim premeditado, mas que cresça com o passar do tempo é o escalonamento. Explicando de uma maneira simples, o escalonamento pode ser definido como a progressão de poder dentro de uma história. Se o primeiro vilão foi um inimigo de uma vila e o herói superá-lo, o próximo ameaçará uma cidade. Um estado, um país, o mundo, o universo, e assim por diante, sempre aumentando o nível da ameaça pra mostrar como o herói se superou desde o começo.

Porém, este recurso é algo extremamente usado, e muitas das vezes não da forma correta. Enquanto muitos autores acreditam que quanto maior o perigo, mais pessoas vão acreditar e vibrar para que o herói consiga triunfar na história, a realidade é que para que torçam de verdade, o conflito deve ser algo muito mais pessoal.

Para aqueles que assistiram Naruto, por exemplo: O que emocionou mais? A luta final de Naruto contra Kaguya que ameaçava o universo ou a luta Naruto contra Pain após a trágica morte do Jiraya?

Então, apenas com essa pequena introdução já dá pra perceber que existe no conceito de escalonamento uma linha muito tênue a ser trabalhada. Enquanto você tem que mostrar que o protagonista está evoluindo e suas lutas não estão mais presas a um simples conceito, você também tem que manter o conflito do protagonista em um nível pessoal para que cative o telespectador/leitor.

Outra prova disso é que uma das cenas mais lembradas de todos os tempos de Dragon Ball é o Kamehameha que Gohan solta junto com Goku depois de sua morte contra Cell. Ali vemos uma motivação muito pessoal. Por isso chama tanta atenção. São poucos os que gostam dessa cena porque ela representa a derrota de alguém que destruiria o universo. Mas todos a amam por mostrar a conclusão do arco do Goku e o início de um grande personagem que poderia ser o Gohan.

Isso prova que para a audiência se preocupar com a batalha, ela tem que significar mais para o protagonista do que para o mundo todo. Parece egoísmo, mas é uma técnica narrativa muito comum, mas que, assim como a inclusão e representatividade, acaba sendo muito mal usada.

Agora vamos falar sobre uma das obras que melhor utiliza o escalonamento: Samurai X.

Sem precisar explicar muito porque é uma das obras mais conhecidas aqui no Brasil, criada por Nobuhiro Watsuki, Samurai X conta a história do Samurai conhecido como Kenshin Himura que, em um período de guerras do Japão chamado de Bakumatsu, foi responsável pela morte de dezenas de inimigos ganhando a alcunha de Battousai, o Retalhador. Após o fim da guerra e o início de uma era de paz, Kenshin busca vagar como um andarilho pacífico, porém, sua fama o persegue.

Analisando toda a trajetória de Kenshin, podemos ver 6 inimigos que lutaram contra ele de forma significativa. Jin-E, Aoshi, Raijuuta, Saitou, Shishio e, por fim, Enishi.

Seria muito injusto comparar os níveis de forças e de técnicas entre estes personagens, exceto por um ou outro o que mostra que o escalonamento de poder aconteceu da maneira devida. Mas, o que realmente vale a pena falar é como ele foi feito.

Começando pelo fato de que nenhum deles é consideravelmente mais forte que Kenshin em seu auge, mas como este não luta nem mata há tempos, as lutas se tornam equilibradas, enquanto o protagonista viaja em uma luta interna para não sucumbir ao Retalhador que mora nele, ao mesmo tempo que deseja ter sua força para poder encerrar tais combates que ao seu ver são desnecessários.

Ao apresentar um personagem que claramente já foi mais forte que praticamente todos os inimigos, mas que luta de igual para igual devido a deterioração do corpo e falta de constantes exercícios, já é uma gigantesca inversão. É contar “o protagonista é o mais forte que há, só precisa recuperar essa força”. Podemos ver algo semelhante a isso em alguns aspectos com Freeza, em Dragon Ball, cuja metamorfose acontecia, pois ele não conseguia conter todo seu poder.

Porém, na própria lista, há três personagens que ficamos na dúvida se Kenshin em seu auge como Retalhador é mais forte. E estes são Aoshi Shinomori, Hajime Saitou e Enishi Yukishiro. Porém, para não contrariar tudo o que já foi mostrado até o momento, o autor consegue moldar a história de outra forma. Tanto Aoshi quanto Saitou não participaram da guerra na qual Kenshin foi considerado o mais forte, portanto, não era possível medir as forças. O que ao mesmo tempo torna o combate relativamente imprevisível sem tirar toda a imposição que o personagem causava até o momento.

Por fim, Enishi. Este caso acaba sendo algo muito interessante de se analisar, porque ele não é necessariamente mais forte do que o Kenshin. Porém, ao invés de conhecer Kenjutsu, ele luta sua variante chinesa, a Watoujutsu, o que torna a luta muito mais difícil para alguém que não está acostumado a lutar. Seria semelhante a ver o melhor pugilista de todos os tempos, mas que conhece apenas o boxe, lutando contra um praticante de Muay thai.

Dessa forma, toda luta de Kenshin fica crível ao mesmo tempo em que nenhuma desmente que ele era o mais poderoso espadachim do Bakumatsu. Até aqui, já mostra como uma inversão simples já foge do clichê de “todo inimigo ser o ser mais poderoso do universo”, porém, ainda assim, o autor Nobuhiro Watsuki consegue fazer outra proeza: todas as lutas são pessoais.

Jin-E apresenta para Kenshin como a alma de um retalhador ainda está inteira e como ele nunca vai poder se desprender das vidas que tirou. Aoshi mostra alguém que quer buscar o título de mais forte de todos, para honrar antigos adversários com os quais Kenshin tanto simpatizou. Raijuuta mostra como os ensinamentos da espada podem ser distorcidos, tanto por perder a força usando shinais, quanto por pregar a espada como arma mortal sem matar ninguém. Saitou representa o orgulho do espadachim, sem poder ter certeza de que foi realmente o mais forte, dúvida que ficou até os dias de hoje já que tal batalha nunca aconteceu pra valer. Shishio, provavelmente o antagonista mais conhecido, era o sucessor do título a Battousai, mostrando como seu legado de terror na realidade nunca terminou. E, mais uma vez, Enishi, sendo o cunhado do protagonista, atormenta-o para que este busque uma forma de expiar seus pecados, incluindo, ter matado acidentalmente sua esposa.

Convicções, culpa, impotência, honra e dívidas. Cada luta tem uma carga pessoal muito forte, como foi possível ver até o momento, e, conforme a história aumenta os pesos colocados também ampliam e até mesmo a preocupação com todo o mundo. Enquanto Jin-E foi um enviado de um político qualquer, Enishi é um contrabandista com fama nacional.

Depois de tudo o que foi dito até aqui, é possível ver como esse escalonamento é feito de 3 maneiras diferentes: a força do personagem, a influência do antagonista no mundo e o peso pessoal dele em relação ao Kenshin. Dessa forma, mesmo que o vilão seja algo completamente inacreditável e overpower como a Kaguya em Naruto nunca ficamos sentindo que a luta está exagerada. Porque o peso para o protagonista, do qual é o único que vemos o ponto de vista, é muito grande.

E é por isso, que Samurai X faz o escalonamento da maneira certa.

Samurai X e o escalonamentohttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2019/04/samurai-x-escalonamento.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2019/04/samurai-x-escalonamento-150x150.jpgMatheus ZucaartigosKenshin Himura,Nobuhiro Watsuki,Rurouni Kenshin,Samurai XFacebook Twitter Instagram Youtube O texto a seguir contém spoilers de Samurai X, Dragon Ball e Naruto Um dos maiores problemas ao criar uma história que não tenha um fim premeditado, mas que cresça com o passar do tempo é o escalonamento. Explicando de uma maneira simples, o escalonamento pode ser definido como a...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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