Olhar para trajetória do cartunista é reviver momentos com grandes personagens e descobrir tantos outros que entraram para a história

No final do mês de setembro (26/9), não só a comunidade dos desenhistas, cartunista, chargista e outras, entraram profunda preocupação com a notícia de que Ziraldo, aos 85 anos, foi internado em estado grave no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Tamanho choque é justificável por vários motivos, o cartunista é um dos maiores nomes da produção cultural brasileira e sua carreira é repleta de trabalhos marcantes para várias gerações.

Meu primeiro contato com os personagens do cartunista foi com o Menino Maluquinho no filme de 1995, dirigido por Helvécio Ratton. Lembro que assisti muitas vezes e adorava o clima de férias no interior que ele tinha. Nele, o Maluquinho e seus amigos brincavam, corriam, aprontavam e, no final, ainda disputava uma partida de futebol! Talvez por isso, cresci com a percepção de que o personagem era quase um amigo, uma relação diferente da que tinha com outros personagens.

Com o tempo, conheci mais sobre o criador do menino, mas confesso que nunca me aprofundei na sua carreira e nos seus outros trabalhos. E foi assim até meados de 2017, quando assisti ao episódio “Ziramundo” da série HQ – Edição Especial, da HBO. Eu já sabia que o autor era um dos maiores nomes da produção cultural brasileira, mas ao conhecer mais sobre a sua carreira e sobre a sua produção de livros, charges, cartuns, quadrinhos e tantas outras coisas, me tornei fã.

Com a grande repercussão da internação de Ziraldo, muitas de suas obras foram lembradas, assim como seus personagens mais icônicos. Mas acho que, mais do que citá-los, é importante conhecer sobre o momento em que eles foram criados e como isso está diretamente relacionado ao período em que foram produzidos.

Início de carreira e a Turma do Pererê

Ziraldo nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga (MG) e começou sua carreira trabalhando para agências de publicidade, que na época contratavam muitos ilustradores para produzir a arte das suas campanhas. Mas foi no período em que trabalhou para jornais, como a Folha da Manhã, O Cruzeiro e, posteriormente, o Jornal do Brasil, que ganhou notoriedade e passou a fazer cartuns, inicialmente de humor, de onde surgiram as primeiras aparições do Pererê.

Em entrevistas, Ziraldo revela que o sonho da vida dele era trabalhar na sua própria revista em quadrinhos. Quando a editora O Cruzeiro decidiu investir na publicação de títulos nacionais, seguindo políticas de desenvolvimento da época, o Pererê foi um dos personagens escolhidos para ganhar a sua revista.

Para povoar a “vida” e o universo do personagem, Ziraldo criou a Turma do Pererê: com Tininim, Galileu, Geraldinho, Moacir, Alan, Pedro Vieira, Professor Nogueira, além do próprio Pererê e muitos outros. Os personagens foram inspirados em alguns dos seus amigos de infância. A revista durou de 1960 até 1964 e é uma das mais importantes para a história dos quadrinhos no Brasil, por ser primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor.

A revista Turma do Pererê acabou cancelada pouco depois do golpe militar. Mais uma entre tantas perdas que ocorreram durante o regime.

O Pasquim

Uma coisa que fez muito sucesso no jornal O Cruzeiro foram as Fotopotocas, fotos de personalidades da época que recebiam balões com frases bem humoradas e muitas vezes irônicas ao governo.

Seguindo esse espírito irônico e contestador surgiu o semanário O Pasquim, em 1969, que teve um papel muito importante entre as vozes de oposição à ditadura. Entre seus colaboradores estavam alguns dos maiores nomes da época como Jaguar, Millôr,Tarso de Castro, Henfil, Ziraldo e outros.

As tiragens, que começaram em aproximadamente 20 mil edições, chegou a passar dos 200 mil no seu auge de popularidade. Por conta do seu conteúdo cada vez mais politizado, Ziraldo e os integrantes da publicação, tiveram que conviver com os censores e a repressão.

Muitos intelectuais e artistas passaram pelo Pasquim, como Chico Buarque, Odete Lara, Gláuber Rocha, Antônio Callado, Rubem Fonseca e muitos outros. A publicação durou até o começo dos anos 1990, graças à participação ativa e esforços de Jaguar. A última edição foi publicada em novembro de 1991.

Flicts

Em 1969, Ziraldo também produziu um dos seus trabalhos mais conhecidos: O livro Flicts, que narra a história de uma cor que não consegue se encaixar em nenhum lugar no mundo. Não consegue fazer parte das cores do arco-íris porque “não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensidão do Amarelo, nem a paz que tem o Azul”.

O livro fala sobre as dificuldades de encontrarmos nosso lugar no mundo, mas com uma mensagem positiva e universal. Exaltado por muitos críticos como Carlos Drummond de Andrade, que depois se tornou grande amigo de Ziraldo, que chegou a escrever:

“O conto contado por Ziraldo só merece um adjetivo, infelizmente desmoralizado: maravilhoso. Não há outro, e sinto a pobreza do meu cartuchame verbal, para definir Flicts: não carece de definição. É.
Mestre do traço desmitificador ou generoso (Supermãe, Jeremias), Ziraldo abriu mão de suas artimanhas todas para revelar Flicts com absoluta economia de meios, ou, antes, sem meio algum. E dá-nos a festa da cor como realidade profunda, e não mera impressão da luz no olho. Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo.”

Ziraldo comentou em entrevistas que a ideia para o livro veio depois de uma conversa com seu editor, que queria publicar um livro infantil. Ziraldo, disse ter algo em mente e desenvolveu a história a partir da famosa fotografia da terra vista da lua, lembrando que em 20 de julho de 1969, o homem havia chegado à lua.

Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na lua, ao se encontrar com Ziraldo parabenizou o autor pelo livro e o autografou com a frase: “The Moon is Flicts”.

O Menino Maluquinho

Em 1980, surge seu personagem mais icônico, o Menino Maluquinho. Nele, Ziraldo coloca sua visão sobre a infância e sobre o afeto. O menino que brinca, corre, pula, apronta e é feliz, simboliza muito do que o autor acredita sobre esse período da vida.

Em entrevista ao programa Memória e Poder, da TV Assembleia de Minas Gerais, Ziraldo fala que o livro passa uma mensagem simples e universal, que “se você é bem amado na infância, você tem muita chance de ser feliz”, o que ele mesmo diz não ser uma verdade, mas que traz uma reflexão aos mais velhos, sem deixar de ser divertido aos mais novos.

O personagem foi muito bem recebido pelo público e desde sua publicação foi adaptado para várias mídias. Em 1995 ele ganhou o filme já citado, estrelado por Samuel Costa e dirigido por Helvécio Ratton e depois teve uma continuação, de 1998, Menino Maluquinho 2 – A Aventura, estrelado novamente por Samuel Costa e dirigido por Fernando Meirelles.

Além do cinema, o Menino Maluquinho foi adaptado para teatro, quadrinhos, ópera infantil, videogame e série de televisão.

A arte de Ziraldo

O traço do artista é um dos mais reconhecíveis entre os artistas brasileiros. Ziraldo revelou que sempre desenhou, desde menino quando morava em Caratinga, e tinha o sonho de fazer quadrinhos. Ele foi desenvolvendo seu estilo e mostrando toda a sua versatilidade narrativa através de cartuns, charges, pinturas e caricaturas.

Entre as suas influências estão artistas europeus como Steinberg, Ronald Searle e André François e o italiano Manzi, além dos parceiros Millôr, Jaguar e outros. Ele desenvolveu seu traço como algo aparentemente simples, com poucos traços, mas com um nível de sofisticação muito alto.

Em recente participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, ele fala sobre suas influências e como ele e os artistas do período eram preocupados com a qualidade do desenho de humor.

Ziraldo também se tornou uma grande referência para as gerações seguintes de artistas. A Melhoramentos, sua editora de longa data, publicou esse ano o livro Ao Mestre com Carinho – Ziraldo 85 no traço de 85 talentosos cartunistas, que além das artes conta com uma biografia com dados, datas, fotos, desenhos e particularidades da vida e da obra de Ziraldo, que abriu seus arquivos para complementar a obra.

O texto de apresentação é de Jal, cartunista, um dos fundadores do Troféu HQMIX e presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, e o texto de quarta capa é de Jô Soares.

No final de 2017 o site O Vermelho convidou três artistas para um especial chamado O impacto de Ziraldo na obra de jovens cartunistas, que contou com os depoimentos e artes de Olavo Costa, Ronaldo Barata e Tainan Rocha.

Neste ano, em sua 30º edição, o Troféu HQMIX homenageou Ziraldo e Mauricio de Sousa na escultura da premiação. Os personagens Mônica e Menino Maluquinho seguram o símbolo do maior prêmio dos quadrinhos brasileiros em uma escultura feita pelo artista plástico Olyntho Tahara e reproduzida por Michel Costa.

Além da parceria na homenagem, Mauricio e Ziraldo lançaram na última edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o livro MMMMM – Mônica e Menino Maluquinho na Montanha Mágica, pela editora Melhoramentos.

Em outubro começa em São Paulo a exposição Ziraldo… de A a Zi, uma homenagem aos seus 85 anos de idade realizada pelo Sesc São Paulo. A mostra será exibida gratuitamente no Sesc Interlagos, de 12 de outubro de 2018 a 4 de agosto de 2019 e você pode saber mais sobre ela aqui mesmo no Impulso HQ, na matéria Ziraldo recebe homenagem do Sesc São Paulo.

Fica a torcida de toda a equipe do Impulso HQ para a rápida recuperação de Ziraldo, o “maluquinho” que continua trabalhando para a formação de novos leitores e atuando na divulgação da cultura com livros divertidos, belas ilustrações e com seu texto poético.

“Ler é mais importante que estudar”.

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