Quanto importa quantos anos tem um super-herói? De fato, talvez muito pouco, mas acredito que esse elemento deva ser levado em consideração por escritores e artistas na hora de estipular e retratar a personalidade e atitude do elenco de personagens compõe uma história divertida. Saiba as razões que me levam a pensar assim e entenda o motivo de se cuidar da cronologia.

A idade de um super-herói é tema que pode promover discussões acaloradas entre os chamados fanboys (mas o valor dessa turma merece ser reconhecido: apesar de xiitas em tantos casos, muitas vezes eles sabem mesmo sobre o que estão falando, por mais irrelevante que seja o assunto).

Não me refiro a data de criação de um personagem, mas quantos anos têm o super-herói no cenário em que se passam suas aventuras. Então, Batman é um quarentão? Matt Murdock também? Peter Parker ainda tem inacreditáveis 26 anos?

Pensei a respeito desse assunto ultra nerd pela primeira vez em 1996, por ocasião do lançamento do número 0 da saga Zero Hora, que concluiu mais uma saga ao estilo Crise nas Infinitas Terras da DC Comics (publicada com numeração retroativa, de 4 a 0).

Tal revista possuía uma capa desdobrável que trazia a complexa cronologia DC com datas “estrategicamente” estipuladas. Explico: No período referente à década de 1940, em que ocorreu a II Guerra Mundial, são citados os heróis da Sociedade da Justiça, por exemplo.

Mas figuras como Superman, Batman e Lanterna Verde tem seu surgimento creditado com a expressão “dez anos atrás” – o que garantia margem para mantê-los confortavelmente “jovens” na cronologia. Outras informações presentes nessa capa-compêndio permitiam aos leitores deduzir por si mesmos que o Superman tinha 33 anos, Batman 35 (embora 33 também possam ser encontrados), a Mulher Maravilha 25 (em total concordância a reformulação proposta por George Perez, que vigorava na época), Dick Grayson, o primeiro Robin tinha 23… Poderia citar outros tantos, mas acho que é suficiente para o que quero explicitar.

O caso é que eu tinha 15 anos e aquela forma de não envelhecer os personagens me pareceu genial, mérito do assassino do Superman, o escritor e desenhista Dan Jurgens. De fato, ela não é de má ideia, concordam?

E a editora da Liga da Justiça se valeu dessa mesma “linguagem” cerca de quatro anos depois quando, por ocasião da saga Terra de Ninguém, publicou a cronologia do Batman nos mesmos moldes, acrescentando os últimos eventos em dois anos (logo, Batman estava com 37 – ou 35).

Bom, para o caso de ter alguém interessado em saber em como cheguei aos números referidos antes, cabe dizer que estão lá, na capa, coisas como “33 anos atrás: casal Kent encontra o bebê Kal El”, “25 anos atrás: Thomas e Martha Wayne assassinados” (é sabido que Bruce tinha 8 quando presenciou o assassinato de seus pais – mas em Batman Ano I, de Frank Miller, somos informados que Bruce regressa do treinamento com 25, logo…), “24 anos… Hipólita dá forma a Diana”, “4 anos… Dick Grayson se torna Asa Noturna” (numa história dos Titãs o roteirista Marv Wolfman postula que ele teria sido Robin até os 19 anos).

O caso é que a idade de um super-herói, em minha opinião, determina elementos referentes à sua motivação, e isso, sem dúvidas é importante numa boa história.

Personagens rasos como pires carecem de boas motivações e, não obstante, tem aventuras duras de ler, mas quando há uma força no personagem que está além dos músculos, você toma partido em sua causa e se diverte mais a cada nova história. Embora os heróis joviais sejam mais recorrentes, o Cavaleiro das Trevas de Miller, a Sociedade da Justiça de Geoff Johns e Watchmen de Moore existem para defender a maturidade (e a melhor idade).

Talvez você esteja se perguntando “o que há de errado então”? Insisto, pouca coisa. Mas, particularmente, acho “meio assim” que em Batman Begin Bruce Wayne tenha dedutíveis 29 anos (ele presencia o assassinato aos 8, espera 14 anos pelo julgamento e depois passa 7 anos treinando no oriente) e ainda decida se tornar um vingador mascarado.

Quando você está na começo da casa dos 20 (ou menos), vá lá! É o tempo da empolgação desmedida, coisa de jovem que acredita poder mudar o mundo com as próprias mãos e tal. É o tempo da maioria dos heróis. O Superman deixou Smallville com 18 e seguiu numa viagem de 7 anos pelo mundo… ok! Agora, se você já está com trinta, suas perspectivas são outras e seus métodos muitas vezes mais apurados e eficazes.

Você já percebeu que pode alcançar resultados mais abrangentes sem aquela sangria desatada da juventude, entende? Mas se um herói já está na estrada nessa idade, continuar (ou aprimorar-se) faz mais sentido. É o que temos visto nos quadrinhos mais recentes, tanto na Marvel quanto na DC… agora, nas HQs, Bruce vem a público montar a corporação Batman para tornar seu método mais eficaz em escala global.

O Batman do filme, naquela idade, poderia ter imaginado outro meio para empregar tanto dinheiro… Consideremos, por exemplo, o que o personagem fez na saga imaginária (um Túnel do Tempo, uma realidade alternativa) Gerações do mestre John Byrne. Bruce, no comando organização de R’As Al Ghul transforma a Liga dos Assassinos numa rede do bem em escala planetária. Maturidade, entende? Vestir uma fantasia e sair no tapa com bandido é coisa de gente mais nova… Então, nesse caso, é o que acho.

Até os tais 25 de Miller ia tudo bem. Descia melhor. Em Guerra Civil, Mark Millar usou um excelente recurso para não envelhecer Peter a despeito de mais de 40 anos de cronologia. O Aranha diz ao revelar sua identidade secreta: “meu nome é Peter Parker e tenho sido o Homem-Aranha desde os 15 anos de idade”. Simples assim. Matou a pau. Peter decidiu ser o Aranha numa época em que isso soa ter mais sentido. Fato. Os X-Men também começaram garotos, “na época do heroísmo moleque” a exemplo do jargão futebolístico.

Fora a questão da motivação, via de regra, a maior parte do tempo está tudo certo nas HQs e o que atrapalha ou incomoda são as lambanças a que a cronologia é submetida por causa de deslizes em relação à idade dos personagens ou período em que se deram determinados eventos.

Uma surpresa negativa nesse sentido foi o talentoso Brian Michael Bendis estipular que as aventuras do Homem-Aranha do ultiverso se passam até o número 100 de sua revista. Não desce. Não dava pra acontecer. Em N situações isso fica claro, mas o medo de Peter completar 16 ou 17 anos colocou tudo a perder, num “universo” que sempre pareceu primar pelo amadurecimento dos personagens. Pena. A DC também anda bagunçada… Como sempre. Geoff Johns colocou a Crise nas Infinitas Terras em 1986 e nessa muitos heróis se tornaram quarentões a despeito de como são retratados pelos desenhistas.

O filho de Batman, Damian, também acrescentou alguns anos a carreira do Morcego… Num momento ou outro surgirá um evento de natureza cosmo-temporal para rejuvenescer a turma, seja na Marvel, seja na DC…

Enfim, tudo bem que isso importa pouco ou nada, mas certo cuidado com a cronologia parece-me importante para garantir coerência entre os episódios vividos por um personagem. Experiências tão bem sucedidas com personagens que amadureceram dão show a parte e merecem ser um caminho criativo a ser considerado e, quem sabe, percorrido (vide Gerações, Crise de Identidade, Guerra Civil, O Velho Logan).

Equipes criativas das HQs, quando surgir um personagem, que ele tenha motivo ou a idade mental certa para o que pretende se tornar. Quando desenvolverem suas histórias, lembre-se que tem fanboys que vão cobrar coerência numa coisa total e completamente perpassada por doses cavalares de imaginação e escapismo em relação à realidade. Divirtam-se e nos divirtam! Isso não é pedir demais e importa muito.

Dennis RodrigoartigosDC Comics,Marvel,super-heróisQuanto importa quantos anos tem um super-herói? De fato, talvez muito pouco, mas acredito que esse elemento deva ser levado em consideração por escritores e artistas na hora de estipular e retratar a personalidade e atitude do elenco de personagens compõe uma história divertida. Saiba as razões que me...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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