Um mal que veio pro bem. Esse também é um ângulo pelo qual pode ser visto a Era de Prata. Mal porque os quadrinhos foram alvo da censura e quase encontraram seu fim, tendo esse nova era de criatividade como uma espécie de escape moralista para que esses mesmos quadrinhos pudessem continuar sendo publicados. E bem porque, mesmo com as limitações da censura, houve uma explosão de novas histórias e releituras de personagens que, temos que admitir, já se mostravam ultrapassados fazia um bom tempo.

Por falar em personagens ultrapassados, ninguém representa melhor esse exemplo do que o Capitão América. Criado para ser o símbolo heroico dos americanos na Segunda Grande Guerra, a função do herói para esse objetivo só encontrou um problema: o fim da guerra. Com isso, o personagem perdeu parte de sua magia. Havia, sim, outros conflitos mundiais (e o mundo estava prestes a entrar no pesadelo da Guerra Fria), mas o bom e velho Capitão ficou deslocado.

Mesmo se elegendo novos inimigos da América na década de 1950, os comunistas, que também foram eleitos os vilões pelos mesmos moralistas censores que colocaram cabresto nos quadrinhos (vejam só a ironia), o brilho do escudo do Capitão já não era mais o mesmo. E, com isso, o bom soldado foi simplesmente colocado de lado.

Tempos depois, quando o Universo Marvel surgiu (a chamada Era Marvel dentro da Era de Prata), a editora decidiu lembrar de seu famoso personagem de outrora. E, ainda assim, era arriscado renovar um personagem que foi feito para um conflito que já não existia mais.

O batismo de fogo para se promover um novo interesse no antigo herói surgiu na revista Strange Tales nº 114, em novembro de 1963, onde o Tocha Humana (integrante do Quarteto Fantástico), que tinha histórias solo publicadas naquele título, enfrentava “um herói da Era de Ouro” (como dito na capa).

Uma homenagem merecida, enfim, já que o próprio Tocha remetia ao Tocha Humana da Era de Ouro, que não era o mesmo personagem, mas também enfrentava ameaças da Segunda Guerra ao lado do Capitão. O teste com essa aventura mostrou, ao final, que esse Capitão América não passava de um impostor. No entanto, o que parecia um truque rendeu justamente o que os editores esperavam: o interesse dos leitores que gostariam, sim, de ver o velho soldado herói nas páginas das revistas Marvel.

Graças a esse interesse programado, o Capitão América original, ressurgiu nas páginas da revista Avengers nº 4, em março de 1964. A desculpa para seu sumiço era que ele desapareceu em uma missão na Segunda Guerra, caindo nas águas geladas do oceano, tendo seu corpo congelado (e conservado) até meados dos anos 1960, quando foi encontrado e revivido pelo grupo de heróis conhecidos como Os Vingadores.

Mesmo com o ressurgimento, surgiu uma questão: o que o herói enfrentaria? Afinal, a Segunda Grande Guerra não existia mais! Foi justamente essa pergunta que serviu de base para as tramas do personagem. Logo, não eram os leitores ou mesmo os editores que se preocupariam com isso, mas o próprio personagem.

Congelado por décadas, o Capitão América encontra um mundo e uma sociedade americana diferentes da que estava acostumado. Nos turbulentos anos 1960, os valores e até mesmo o patriotismo (tão valiosos ao Capitão), traziam mais dúvidas do que esperança ao deslocado herói.

Para uma Era que primava pela inocência nos quadrinhos, o cinismo americano batia forte no herói, que se defendia como podia, utilizando seu escudo com as cores da bandeira que tanto aprendeu a honrar no passado.

Marcos Darkprata da casaCapitão América,Era de Prata,Marvel,Steve Rogers,Strange Tales,VingadoresUm mal que veio pro bem. Esse também é um ângulo pelo qual pode ser visto a Era de Prata. Mal porque os quadrinhos foram alvo da censura e quase encontraram seu fim, tendo esse nova era de criatividade como uma espécie de escape moralista para que esses mesmos...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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