Houve um tempo em que o Batman não era exatamente um herói carrancudo e sombrio. Era uma época em que o personagem teimava em fazer piadinhas enquanto socava seus inimigos. Piadinhas infames, diga-se de passagem. Também fazia caras e bocas estranhas, enfrentava ameaças esquisitas e desvendava mistérios insolúveis com pistas absurdas e insignificantes.

Roteiro? Pra que roteiro? As histórias do Batman eram feitas para divertir, quase que humoristicamente. Esse clima desembocou no infame seriado Batman e Robin, onde o ator Adam West interpretava o herói. Isso já nos anos 1960.

Mas, essa onda “divertidinha” e “inocente” era fruto das perseguições moralistas que o personagem (e todo o gênero de super-heróis) sofreu uma década antes. Violência? Batman era muito violento. Isso faria mal para as crianças. Melhor deixá-lo mais divertido. Sua parceria com Robin? Eles dormiam até juntos!

O que as crianças iriam interpretar? Homossexualidade não!!!

Vamos deixar a coisa mais amena. O mais paradoxal quanto a esse pensamento é que se enxergava uma relação homossexual entre a dupla dinâmica antes. Mas, depois, as histórias ficaram tão “alegres” que o clima suspeito era evidente a cada quadro. Mas, enfim, os moralistas estavam satisfeitos por botarem os quadrinhos no seu devido lugar: na chamada cultura inútil, onde um simples gibizinho já não tinha importância literária nenhuma, com histórias absurdas e esquecíveis (segundo os padrões deles).

Mesmo fadado à ridícula existência na “inferior arte dos quadrinhos”, Batman sobreviveu o bastante para ver sua situação mudar. Em parte, catapultado pela fama adquirida através do já citado seriado televisivo. Isso deu a chance para o escritor Dennis O’Neil gradativamente colocar um pouco de seriedade nesse circo de piadinhas infames. Juntamente a desenhistas de peso como Neal Adams (com quem fez dupla na revista do Arqueiro Verde, abordando temas polêmicos como as drogas).

O’Neil não fez uma revolução de uma edição para outra. Seus roteiros ainda tinham o clima leve dos anos passados. Porém, eram nos detalhes que as histórias do personagem começavam a se firmar.

Um dos grandes desafios de O’Neil era criar uma ameaça para esses novos tempos. No passado, vilões como O Coringa, Pinguim e Mulher-Gato eram tão conhecidos quanto o herói e, quando apareciam, era sempre um acontecimento especial. Nos anos de ridicularização, isso se perdeu e Batman enfrentou alienígenas, piratas e criaturas que até sua imaginação duvida.

Já na década de 70, o escritor tencionava criar um grande vilão, mais pé no chão, que parecesse menos absurdo que as edições anteriores. E, nesse ambiente, surgiu Ra’s al Ghul.

O nome, de origem árabe (apesar do personagem não ter uma nacionalidade muito clara na época), significava “cabeça do demônio”. Mesmo com sua ameaçadora aparição na capa da revista Batman nº 232 (edição americana), Al Ghul pouco lembrava um vilão. Estava mais para uma espécie de ricaço excêntrico.

Como referência a continuidade (apesar que, continuidade não era exatamente uma regra a ser seguida pela editora DC Comics na época), o personagem revelava ser o pai de Talia, uma linda jovem que Batman salvou em edições passadas.

Al Ghul, que demonstra ser um poderoso líder de uma organização e é sempre protegido pelo fiel capanga Ubu, não demonstrava querer conquistar, roubar e nem matar ninguém. A organização que liderava, sequer poderia ser chamada de criminosa, já que não cometem (em suas primeiras aparições) crimes propriamente ditos. Estão mais para milícia armada.

Suas primeiras intenções eram apenas proteger sua filha, que fora sequestrada coincidentemente pelo mesmo grupo que sequestrou Robin. Al Ghul, ao pedir ajuda de Batman, serve apenas como guia para o herói, que utiliza de suas habilidades detetivescas e de combate para ultrapassar cada perigo que surge pela frente. No final, num típico final de história descompromissada e divertida, tudo se mostra um grande truque. Al Ghul armou cada ameaça e cada perigo, para levar Batman até seus domínios e revelar que sua filha, Talia, estava apaixonada por ele.

E mais, bom sogro que era, Al Ghul não só aprovava o namoro (não que Batman tivesse sequer sido consultado sobre isso), como também já o elegia como seu futuro genro-herdeiro.

Como se perseguido por uma tiete enlouquecida, Batman se viu envolvido com a “família” Al Ghul até o pescoço. Como dito antes, a continuidade não era utilizada nos padrões de histórias em quadrinhos da época. Não é mostrado, por exemplo, se o herói nega o pedido de Talia. Como ele é mostrado agindo sozinho nas histórias seguintes, conclui-se que Batman deixou a moça na mão. Porém ela ainda insistiria e tornar-se-ia recorrente nas aventuras do homem-morcego.

Longe de fazer o papel de donzela em perigo, Talia também mostrava a quem puxou e não se contentava em estar em perigo, ela procurava o perigo. Como quando pensou que seu pai havia morrido e usou a organização para caçar o cientista responsável com as próprias mãos (ou armas). O herói, sem saída já que seu futuro “sogro” era insistente a ponto de ter descoberto sua identidade secreta, via-se sempre envolvido em alguma confusão da moça e a ajudava, também sempre a pedido de seu pai.

Mas O’Neil, aos poucos, conseguiu fazer com que o seu personagem, mesmo ainda não sendo tão vilanesco como outros personagens do universo de Batman, se tornasse marcante. Muito ainda iria se ver falar da Ra’s al Ghul. Era um ponto de partida “sério” dentro de histórias “divertidas” que seria desenvolvido nas edições, nos anos e nas décadas seguintes. Mas tanto pai quanto filha, ainda iriam dar muita dor de cabeça ao Batman. Ou, no clima de piada infame da época, uma dor de cabeça… do demônio!

Marcos Darkprata da casaBatman,DC Comics,Dennis O'Neil,Neal Adams,Ra's al GhulHouve um tempo em que o Batman não era exatamente um herói carrancudo e sombrio. Era uma época em que o personagem teimava em fazer piadinhas enquanto socava seus inimigos. Piadinhas infames, diga-se de passagem. Também fazia caras e bocas estranhas, enfrentava ameaças esquisitas e desvendava mistérios insolúveis com...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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