084 STAN LEE EStan Lee estava de saco cheio! Já fazia quase duas décadas em que trabalhava duro na editora de quadrinhos do marido de uma prima, chamado Martin Goodman, e já não suportava mais aquela carga que parecia levar a lugar nenhum. Muito cedo, Goodman lhe incumbiu de ser o principal editor das revistas da editora e essa grande responsabilidade só aumentava sem que ele sentisse grandes poderes para lidar com elas.

Viu muitos amigos irem e virem no quadro de funcionários. E o pior era justamente quando Goodman anunciava que deveria haver “cortes” nesse quadro, restando a Lee a triste tarefa de ser o mensageiro de más notícias. Era trágico.

Além do trabalho como editor, Lee ainda se responsabilizava por pequenas histórias, nos mais variados estilos, para serem enxertadas nas revistas da editora. Por sorte (ou não) nunca se aventurou em desenhar quadrinhos, senão isso também lhe renderia mais uma função. Aliás, com o tempo, esse distanciamento da arte formaria a polêmica técnica de produção de quadrinhos, que se consolidaria mais adiante.

084 STAN LEE DChegando a década de 50, o editor concorrente, Julius Schwartz, tornou-se o líder de uma empreitada fantástica. Reformulou sua linha de super-heróis, começando pelo Flash (fato considerado o pontapé inicial da Era de Prata) e continuando até o surgimento estrondoso do que chamou de Liga da Justiça, com seus principais personagens (reformulados ou não) reunidos em uma só revista.

Goodman ficou louco e incumbiu Lee de fazer uma revolução também. O problema é que a editora sequer tinha personagens para serem reformulados (teve, mas, na época, eles já haviam sido esquecidos). A tarefa, como se já não fosse muita, era criar tudo do zero. E rápido! E isso tudo com Stan Lee, aquele mesmo que já estava de saco cheio daquele servicinho insatisfatório.

O pontapé final (que, a essa altura, Lee gostaria que fosse em seu próprio traseiro) veio de um sábio conselho de sua esposa. Se estava tão insatisfeito assim, que fizesse algo que mais lhe agradasse. Que Lee chutasse o balde do bom senso e da preocupação com vendas e público. Que se dane tudo! Se fracassasse, iria, como tanto desejava, perder o emprego.

084 STAN LEE CEm 1961, juntamente com o desenhista Jack Kirby (que havia, décadas antes, debandado da editora, justamente quando o então jovem Stan Lee assumiu como editor), criou um grupo de personagens (que sequer tinham uniformes coloridos ou poderiam ser chamados de super-heróis) cuja principal característica foi ter humanidade demais. Estavam longe dos semideuses dos quadrinhos da DC Comics ou mesmo de seus supersoldados infalíveis do passado. Era uma família. Uma família pouco harmoniosa, aliás. Aquilo era quase uma carta de pedido de demissão feita por Lee.

Foi um sucesso!

A popularidade do Quarteto Fantástico, justamente pela humanidade dos personagens puxarem a empatia com o leitor, levou Stan Lee a criar mais e mais personagens meio que naquela linha, meio que desafiando a desconfiança empresarial de Goodman. Com Kirby, criou Hulk, Thor, Homem de Ferro e X-Men. Bill Evertt o auxiliou a trazer o Demolidor. E com Steve Ditko, além de criar o Doutor Estranho, trouxe para as páginas (meio que de forma acidental) o personagem que se tornaria o maior ícone da então chamada editora (e universo) Marvel: o Homem-Aranha.

084 STAN LEE FAh, sim! E a tal da criação que concorreria com o grupo de heróis da outra editora? Bem, o sucesso veio. Não da forma como planejavam, mas veio. E o que tinham nas mãos eram aqueles novíssimos personagens. Com esse elenco novato, surgiam Os Vingadores. De quebra, ainda resgatou os antigos ícones da editora (quando ninguém mais se importava com eles): Namor e Capitão América.

Os novos quadrinhos da Marvel, com seus personagens trazendo problemas tão cotidianos, trouxe muito mais do que o público infantil das histórias de super-heróis. Afinal, a maioria deles eram personagens adultos e, assim como Lee antes de surgirem, muito transparentes no que diz respeito à insatisfação do mundo a sua volta.

084 STAN LEE BNão só o público mais adulto começou a ter sua atenção voltada para aquele novo universo, como surgiram muitos aspirantes querendo embarcar nessa nova onda com seus próprios desenhos e histórias. De fato, muitos deles entraram para a lista de artistas da editora, tendo seus dias de glória e outros nem tanto. Afinal, a velha e enferrujada foice que Lee brandia toda vez que Goodman tentava enxugar o quadro de funcionários ainda era uma ameaça real e por vezes imediata.

Por outro lado, graças a Lee, todo esse quadro era apresentado aos leitores, mostrando que aquele era um ambiente alegre e descontraído. Um clube. A ponto de fazer o leitor sentir que não só os personagens eram uma espécie de confidentes por trazer problemas próximos aos deles, mas até mesmo de fazer com que sentissem que os autores daquelas maravilhosas histórias fossem seus amigos.

Amigos estes que auxiliavam o polivalente Stan Lee, cada vez mais evidente na editora, cuidando de um grande número de páginas de suas publicações. Apareceu até mesmo como personagem coadjuvante na décima edição da revista do Quarteto Fantástico.

stan_lee_amazing-spider-manPara dar conta de tanta coisa, criou o método que se tornou polêmico: Lee apenas conversava com os autores sobre suas ideias para novas histórias… cabendo a eles assimilarem a conversa e transformar em histórias propriamente ditas. Com isso, Lee era capaz de estar em tantas histórias ao mesmo tempo, como coautor. Ou será que não?

Esse método fazia com que seu nome fosse estampado, mas nunca se sabia qual a real extensão de sua influência em cada uma das histórias. Mesmo se o artista mudasse TUDO que foi dito, ainda assim Lee era creditado.

Já em meados da década de 60, quando Steve Ditko, criador do Homem-Aranha, insatisfeito com o clima “stanleeniano”, saiu da editora, e John Romita assumiu as páginas do herói aracnídeo, o universo Marvel caminhava cada vez mais para histórias que traziam problemas complexos e maduros. Surgiam Inumanos, Pantera Negra e, com Kirby, Lee criaria a famosa Trilogia de Galactus. Temas que iam desde o racismo até teologia eram lidos nas entrelinhas. Essa preocupação surgia, inclusive, nos editoriais divertidos de Lee, mas tratados de forma séria.

Celebs.com Studio at Sundance Film Festival 2012.Robbie Robertson, editor do Clarim Diário, era um dos primeiros personagens coadjuvantes negros a ter certo peso e destaque nas histórias. Ainda pela causa dos direitos civis dos negros, Lee alfinetava com a criação do super-herói Falcão. Assim como problemas existenciais (e muito mais verborrágicos do que qualquer cena de ação poderia tentar ser) surgiam nas páginas de Surfista Prateado, que traziam os desenhos de John Buscema.

O rolo compressor que se tornou Stan Lee acabou atropelando, de forma histórica, até mesmo o Comics Code americano, selo que regulamentava a censura nas revistas em quadrinhos. Ao tentar servir o governo com um alerta sobre o uso de entorpecentes, Lee apresentou uma história do Homem-Aranha onde um de seus protagonistas era mostrado sob os efeitos de drogas, sendo esse problema o principal vilão da ocasião.

O Comics Code, tradicionalíssimo, vetou aquela publicação fora de seus padrões de ética. Lee desencanou e mandou tocar o pau na produção. Leitores gostaram, pais dos leitores gostaram, órgãos governamentais ficaram satisfeitos com a propaganda antidrogas. E o Comics Code foi obrigado a enfiar o rabinho entre as pernas e rever seus arcaicos conceitos (mas sua credibilidade já havia sido destruída o suficiente e só existiu por conveniência até sumir de vez).

StanLeeEm 1972, Stan Lee, já abarrotado de palestras pra dar, entrevistas para conceder e frases otimistas para vociferar, aposentou sua carreira com escritor de quadrinhos, despedindo-se nas revistas do Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. Agora era só Stan Lee, o editor, com seu nome sempre aparecendo nas histórias em um vistoso “Stan Lee apresenta”.

Gradualmente, quase que imperceptivelmente, se afastaria cada vez mais dos escritórios da Marvel e se tornaria apenas o publisher da editora, assim como Martin Goodman foi no passado. Tal qual um cometa que passou pela Era de Prata e, agora, se afastava cada vez mais do universo que criara, Lee foi se tornando apenas um nome, uma existência passada ao qual a Marvel, em algum momento, ligava seu nome de alguma forma.

Polêmico ou não, Lee sempre fez o que teve que fazer nas situações em que se encontrava. Sorte do destino ou não, seu mais notório passo foi ter, um dia, planejado acabar com tudo que sua então pífia carreira lhe proporcionara. Não só falhou em pedir demissão de forma pouco heroica, como também conseguiu com que essa carreira, formada por milhares de personagens, o seguisse muito além de sua aposentadoria. Pois é algo que o seguirá pela vida toda.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/07/084-STAN-LEE-A.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2014/07/084-STAN-LEE-A-300x300.jpgMarcos Darkprata da casaMartin Goodman,Marvel,Stan LeeStan Lee estava de saco cheio! Já fazia quase duas décadas em que trabalhava duro na editora de quadrinhos do marido de uma prima, chamado Martin Goodman, e já não suportava mais aquela carga que parecia levar a lugar nenhum. Muito cedo, Goodman lhe incumbiu de ser o principal...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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