089 ROBERT KANIGHER AHouve um tempo em que John Romita Jr. tinha ideias jovens. Na verdade, era uma época em que, em começo de carreira, ele ainda se sentia um tanto tímido para dar opiniões a respeito mesmo do layout das histórias que desenhava. Até que achou (apenas achou) que tinha um bom relacionamento com o editor e escritor Robert Kanigher, com quem produzia histórias para revistas de romance em quadrinhos.

Mas, sua liberdade em dar opinião foi prontamente limada quando “apenas” deu a entender que a disposição de páginas de Kanigher poderia ser mais eficiente. Furioso, Kanigher, até então amável, chegou a expulsar Romita do elevador, onde batiam um papo amigo sobre os quadrinhos, apenas por imaginar que o artista mexeu em algum detalhe de seu roteiro. Algo inadmissível para Kanigher.

Em 1956, Robert Kanigher já tinha uma sólida carreira como editor, quando Julius Schwartz solicitou a ele (juntamente com John Broome) que reformulasse o herói velocista da Era de Ouro, o Flash. Como já sabemos, o que aconteceu foi algo muito maior do que uma mera reformulação. Inserindo a temática de ficção científica, a primeira história do novo Flash, agora sob a identidade de Barry Allen, se tornou um marco ao qual se atribui o início da Era de Prata dos quadrinhos.

089 ROBERT KANIGHER BKanigher foi editor da revista da Mulher Maravilha por duas décadas, praticamente desde o surgimento da heroína e após o criador da personagem, William Moulton Marston, falecer em 1947. Mulher Maravilha era uma das personagens que não foram exatamente reformuladas na Era de Prata (os outros eram Superman e Batman). Mas, em 1958, Kanigher deu outra visão da amazona.

Suas raízes mitológicas foram mais exploradas e sua origem foi recontada um ano depois, com os desenhos de Ross Andru, um de seus mais constantes parceiros nos quadrinhos. Agora, Diana recebera as bênçãos dos deuses desde o seu nascimento. Com isso, herdou a beleza de Afrodite, era tão sábia quanto Atena, forte como Hércules e veloz como Hermes.

Curiosamente, o escritor tinha certa predileção em colocar a personagem enfrentando monstros alados. Em um espaço de apenas vinte edições, ela enfrentou um pterodátilo, uma águia gigante vinda da lua de Saturno, uma roca (pássaro mítico das Mil e Uma Noites… assistiu aos filmes do Simbad, com monstros em stop-motion? Então…), um pássaro gigante de carro alegórico que ganhou vida. Ainda assim, Kanigher, por sua experiência editando a personagem, a escreveu com a mesma leveza e fantasia de suas aventuras na Era de Ouro.

Ainda em 1959, com o desenhista Joe Kubert, Kanigher criaria o personagem Sargento Rock. Na verdade, já vinha testando “protótipos” do personagem anos antes, uma vez que apresentava um soldado lutando na Segunda Guerra, só que de forma genérica.

089 ROBERT KANIGHER FObviamente, o soldado “genérico”, até mesmo por protagonizar as aventuras de guerra, acabava cativando devido a sua personalidade. Com o tempo, Kanigher foi lhe dando nomes, como “The Rock”, e continuou desenvolvendo-o até que o Sargento Rock ganhasse suas próprias aventuras contínuas, dentro da revista Our Army At War. Esse desenvolvimento continuou daí em diante, de tal forma que até mesmo Kanigher acabasse se contradizendo em alguns detalhes.

Na origem do personagem, era mostrado que ele perdeu o pai, mas esta morte era mostrada de várias formas, tanto retratada como um combatente quanto um operário. Para se ter uma ideia da salada que se tornou o personagem, Kanigher muitas vezes desenvolvia sua mitologia de acordo os leitores lhe perguntavam nas seções de cartas da revista. Nem mesmo o fim do herói de guerra era algo firmado.

089 ROBERT KANIGHER CPor último, Kanigher deixou apenas uma incógnita de que o Sargento Rock não havia sobrevivido a Guerra, mas nunca oficializou como essa morte (ou o que quer que tenha acontecido) ocorreu. Como curiosidade, a chapa de identificação de Rock (aquelas medalhinhas que os soldados carregavam) tinha como número de inscrição 409966, o mesmo número que Kanigher utilizou quando serviu o exército.

A temática da guerra sempre esteve pontuada nas obras de Robert Kanigher. Porém, diferente do que se imagina, não exaltavam os combatentes e seus atos heroicos. Pelo contrário, procurava mostrar os verdadeiros horrores da guerra, sem nenhuma pompa ou condecorações. O Esquadrão Suicida, criado no mesmo ano que Rock (desta vez com o parceiro, Ross Andru), mostrava um grupo de militares pouco convencionais liderados por Rick Flag.

A ideia era mostrar um grupo de elite que pudesse substituir a antiga Sociedade da Justiça, já que a mesma saiu de atividade devido à perseguição macarthista. Ainda inovando no gênero de guerra, Kanigher criou a série The War That Time Forgot, também com Andru, onde misturava o tema com ficção científica na revista Star Spangled War Stories.

089 ROBERT KANIGHER DNo início da década de 60, criou o Tanque Mal Assombrado, com o desenhista Russ Heath, com quem também criou uma espécie de versão aquática dos Desafiadores do Desconhecidos, que se chamavam Demônios do Mar. Versátil, não deixou o parceiro Ross Andru sem trabalho, criando com ele os Homens Metálicos.

Em 1965, juntamente com Joe Kubert, criou o Ás Inimigo, anti-herói de guerra baseado no aviador Manfred von Richtofen, que ficou sendo conhecido como Barão Vermelho. Era como se as peripécias do Barão continuassem, ao contrário do que lhe ocorreu na vida real (apesar de lendário, foi abatido em combate).

A guerra, por sinal, foi um gênero onde Kanigher fez proliferar uma quantidade razoável de personagens fixos. Seus protagonistas eram tão carismáticos que não apenas surgiam em histórias de coletâneas, mas dentro das próprias histórias solo de seus personagens. Nas páginas das aventuras do Sargento Rock, surgia, em 1966, o Soldado Desconhecido, novamente em uma parceria com Joe Kubert. Foi o ano que também teve tempo para colaborar com a mitologia do Batman, criando a vilã Hera Venenosa, baseada na modelo pulp Bettie Page.

089 ROBERT KANIGHER EMesmo assim, seus personagens de guerra continuavam a “brotar” de suas próprias histórias. Assim, em 1969, das páginas de Tanque Mal Assombrado, surgiam Os Perdedores. Mais do que nunca, a série mostrava o lado negro da guerra. Os integrantes desse grupo eram soldados que haviam sido vítimas de tragédias das quais sobreviveram. Ainda assim, Kanigher enfatizava o azar que permeava cada um deles, chegando até mesmo a dar um fim trágico e, de certa forma, pouco heroico para cada um.

No início da década de 70, Kanigher renovaria uma personagem obscura da Era de Ouro. Espinho, recriada com Ross Andru, surgira em 1970, nas páginas da revista Superman’s Girl Friend, Lois Lane.

Mas foi em 1973, já de volta como editor da Mulher Maravilha, que seu temperamento conhecidamente ruim encontraria a fúria… das mulheres. Acontece que a personagem era um verdadeiro símbolo para as feminista da época. Até mesmo a jornalista e ativista Gloria Steinem, editora da revista MS Magazine e famosa pela sua luta dos direitos da mulher, exaltavam a heroína.

Até então, a revista da Mulher Maravilha era editada por uma mulher, também. Dorothy Woolfolk deixou o cargo e Kanigher o ocupou. Mas não foi exatamente a troca que deixou as feministas furiosas. Afinal, quando Kanigher trouxe um ar mais mitológico para a personagem, no passado, acabou tirando o ar fetichista de antes. O que fez realmente a mulherada jogar os tamancos no novo editor… foi uma piada infeliz: em uma das primeira histórias, escrita por ele, é mostrado um crime, onde uma editora de revista feminina é assassinada.

300px-Sensation_Comics_Vol_1_94Poderia ser Steinem… e poderia ser uma paródia do “fim” de Dorothy, já que a personagem se chamava Dottie. A “gracinha” não colou, e Kanigher teve que lidar com a birra das garotas da MS Magazine. Kanigher, mesmo com toda sua experiência, aprendeu que certos temas não deveriam ser tocados… pois isso irritaria a outra parte ainda mais ferozmente do que quando mexiam em seus roteiros.

Robert Kanigher faleceu em 7 de maio de 2002, aos 86 anos, mas deixou um legado que não só renovou toda uma Era dos quadrinhos, como também um gênero. A Guerra até então nunca fora explorada de tantos pontos de vista quanto que em suas histórias e personagens. Mas, ainda assim, o mais notável era a mensagem de que não há lado heroico ou bonito em uma guerra. Seja dos sexos, editorial ou militar. Guerra, enfaticamente falando, é guerra!

urlPara ler Robert Kanigher:

* Coleção DC 70 Anos n° 3 (Editora Panini, Julho de 2008): Edição dedicada à princesa amazona, com roteiros do emblemático Robert Kanigher.

* O Universo DC Ilustrado por Neal Adams (Editora Panini, Junho de 2009): Histórias com arte de Neal Adams! Histórias de guerra onde Kanigher mostra sua versatilidade misturando com ficção científica e uma aventura do Ás Inimigo.

* Coleção DC 75 Anos n° 2 (Editora Panini, Dezembro de 2010): Edição que aborda as principais histórias da Era de Prata. Obviamente, começa com o Flash, de Kanigher e Infantino.

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