Não escondo de ninguém o amor que tenho por Cavaleiros do Zodíaco. Acompanhei o anime no fim da TV Manchete e depois segui assistindo constantemente até o fim da Saga de Hades. Paixão da minha infância, da minha adolescência e, agora, da minha fase adulta. Até hoje, Cavaleiros do Zodíaco é o meu anime favorito, mesmo que, depois de mais velho, percebi seus defeitos.

Apesar de ter assistido todos os episódios várias vezes, em japonês, em português, na época da Gota Mágica e na época da Álamo, confesso que uma coisa que nunca tinha feito foi ler o mangá. Quando a editora JBC a saga dos defensores de Athenas pela primeira vez no Brasil, eu não tinha poder de compra, então, quando em 2016, foi anunciado a edição comemorativa de Cavaleiros do Zodiaco, em um formato de luxo, o tal do Kanzenban, eu decidi comprá-lo!

Hoje, depois de ler os 10 volumes, o que compila toda a famosa Saga das 12 Casas, posso dar uma opinião sincera e, mesmo com uma gigantesca memória afetiva, ainda apontar os pontos negativos. Exato, apesar de tanto amor pela obra, em uma análise fria você encontra pontos negativos e fatos que muitos daqueles que apenas viram o anime acreditam ser negativos, mas no mangá fazem muito mais sentido.

“Saint Seiya” foi criado em 1985 no Japão por Masami Kurumada e até hoje é uma franquia com um sucesso relativo. Nela, é contada a história dos Santos de Athena, guerreiros a favor da deusa grega da guerra e da sabedoria cujos socos rasgam estrelas e os chutes destroem o chão. Estes guerreiros vestem armaduras (no original, “roupas”) relacionadas a uma das 88 constelações.

Porém, quando a série chegou na França, um país majoritariamente católico, como a sonoridade parece muito com “Santa Ceia” decidiram trocar o nome para Cavaleiros do Zodíaco. Além disso, trocaram os nomes dos guerreiros de Santos para Cavaleiros. Essa adaptação se manteve em vários países, incluindo o Brasil.

Assim que a versão animada chegou no Brasil, pela extinta TV Manchete, foi um grande sucesso de audiência e se manteve assim por muito tempo. Tamanho o sucesso que foi o único momento em que um programa ultrapassou o Ibope da Globo, feito que só seria repetido anos depois com Pokémon.

Além disso, graças a esse desenho que a dublagem brasileira ganhou fama e notoriedade, pois foi um dos primeiros que trouxe a curiosidade de “quem faz essa voz?” para o público.

Somando estes dois pontos, podemos dizer que, independentemente de sua qualidade, Cavaleiros do Zodíaco foi um grande marco para a indústria de entretenimento brasileira, tanto que hoje, somos uma das maiores bases de fãs dessa obra.

Cavaleiros do Zodíaco pode ser dividido em três grandes arcos (e um quarto arco filler no anime): a Saga das 12 Casas, a Saga de Poseidon e a Saga de Hades, sendo a primeira, a favorita de grande parte do público.

Em linhas gerais, a Saga das 12 Casas apresenta Seiya, um garoto japonês que vai para Grécia treinar e receber a armadura de Bronze de Pégaso. Em seguida, o rapaz é convocado por Saori Kido para participar de uma luta contra outros cavaleiros de bronze. Durante o torneio, um dos cavaleiros se rebela e rouba a armadura que seria dada ao primeiro colocado, a Armadura de Ouro de Sagitário.

Após algumas lutas, a armadura é recuperada e é revelado que Saori é a reencarnação da Deusa Athena que decide ir até o Santuario confrontar o Grande Mestre e entender o porquê dos ataques a ela. Ferida gravemente por uma flecha dourada, a vida de Saori fica nas mãos dos cinco Cavaleiros de Bronze que precisam atravessar as 12 casas do Santuário e enfrentar os 12 cavaleiros de Ouro para que o Grande Mestre salve a vida de Athena.

A grande maioria dos fãs de anime e mangás conhecem a história de Cavaleiros do Zodíaco de cabo a rabo, gostando ou não, principalmente os cinco personagens principais: Seiya, Shyriu, Hyoga, Shun e Ikki. Todos possuem uma característica marcante, mas sempre mantém o ideal de justiça acima de tudo.

Suas personalidades foram tão impactantes que em 2017, um aluno de Administração da Universidade Federal de Pernambuco, em Caruaru, fez um Estudo de Perfis de Liderança como TCC de seu curso. O Estudo se chama “Me de seu líder, Pégaso” e está disponível para leitura online gratuitamente. Dos cinco, podemos classificá-los como Seiya, sendo o mais impulsivo e teimoso; Shiryu, o mais calmo e intelectual; Hyoga, o mais frio; Shun, o mais dócil e pacifista e Ikki, sendo o mais agressivo.

Tirando o Seiya, cada um dos quatro, possui uma curva de desenvolvimento simples, mas sempre com lutas que mostram seu potencial e sua leve evolução como pessoas. Exclui o Seiya porque sempre ficamos com aquela sensação de “protagonismo” quando acontece alguma evolução de seus golpes, apesar de não ser bem assim.

Masami Kurumada criou uma história fluida, com cenas rápidas e gostosas de se acompanhar, além de lutas bem-feitas e golpes que marcaram uma geração. O autor consegue facilmente impactar, porém, peca em um ponto que continua por todo o mangá: ele é muito didático e repetitivo, um fator que eu acreditava que só acontecia no anime.

Uma passagem dessa repetição, por exemplo, é quando comentam que os Cavaleiros de Bronze destruíram os Cavaleiros de Prata. O diálogo é mais ou menos assim:

“10 Cavaleiros de Prata foram destruídos por 5 Cavaleiros de Bronze!”
“O que? Por apenas 5 cavaleiros de Bronze?”
“Sim! 5 Cavaleiros de Bronze!”
“Isso é um absurdo, nunca ouvi falar de Cavaleiros de Prata que foram derrotados por Cavaleiros de Bronze”

Outro momento que poderia ser algo épico, mas no final, a repetição do Kurumada acaba atrapalhando é durante a luta final com um diálogo praticamente assim:

“Irei te mandar para outra dimensão!”
“OUTRA DIMENSÃO!” (O nome do golpe)
“O que? Estou indo para outra dimensão?”
“Pégaso nunca voltará da outra dimensão que foi.”

No geral, podemos dizer que é uma obra interessante de se ler, ainda mais pra quem tem uma memória afetiva do desenho, mas esteja ciente desses detalhes. Se Dragon Ball é comparado a One Piece hoje em dia, Cavaleiros do Zodíaco estaria para Fairy Tail, onde é uma obra que tem uma qualidade boa, apesar de não ser excepcional, e que, em diversas vezes dá a impressão que os personagens principais só ganham pelo poder do protagonismo.

O interessante na leitura do mangá é perceber que muitas sequências que são criticadas no anime fazem muito mais sentido. Cito como exemplo, a cena do Shiryu destruindo o próprio escudo. No mangá é algo lógico. Na cena, Seiya bate com a cabeça no escudo do dragão e o Shiryu vai socá-lo para por um fim a luta. Por isso, assim que o Seiya abaixa, ambos se acertam e se quebram.

Outra crítica ao anime é a fraca representação do poder dos Cavaleiros de Ouro. Como as lutas no desenho animado foram rápidas e apresenta os Cavaleiros de Bronze chegando à velocidade da luz como se fosse um feito corriqueiro, muitos apontam que no final, os Guardiões das 12 Casas “não são tão fortes assim!”.

Depois de ler o mangá, fica claro que praticamente nenhum Cavaleiro de Ouro estava lutando a sério, e, os poucos que lutaram, tiveram uma desvantagem: Aldebaran perdeu um chifre; Máscara da Morte foi pego por vários espectros; Aiolia se recuperou do Satã Imperial; Shaka se viu duvidando de seus ideais pela primeira vez; Miro viu a determinação de Hyoga e parou os sangramentos; Shura duvidou do que estava defendendo; Camus não queria que seu aprendiz fosse morto de forma trágica.

De alguma forma ou de outra, quase todos os Guardiões das 12 Casas não estavam lutando com todo o seu potencial, o que faz com que a única cena que seja realmente uma superação é Shun derrotar Afrodite.

Outro ponto que a leitura do mangá desmente são as alegações de que Masami Kurumada é um péssimo desenhista. Não, ele não é!

Apesar dele realmente ser ruim em anatomias e repetir sempre os mesmos rostos, não se pode dizer que ele é um desenhista ruim. Antigamente podia-se dizer que ele era um desenhista incrível, só que infelizmente, como ele não evoluiu praticamente nada, hoje sua arte é considerada datada.

Porém, quando olhamos os esquemas de armaduras, golpes e cenas em que um personagem está se banhando, estas últimas relembrando esculturas gregas, dá pra notar que ele tem talento sim na área artística.

Para finalizar, um detalhe que muitos reclamam, mas que depois da leitura faz todo o sentido.

“Não tem lógica eles levantarem com um cosmo maior depois de terem perdido os cinco sentidos.”

No mangá o cosmo se aprimora quando um Cavaleiro consegue controlar o sétimo sentido. Quando nos privamos de um dos sentidos como a visão, por exemplo, os outros aumentam, como visto no mangá com Shaka fechando os olhos para concentrar o cosmo. Logo, quando um cavaleiro é privado de todos os sentidos, o sétimo possivelmente é aumentado. Faz sentido no universo de CdZ, mesmo não sendo uma explicação canônica.

Cavaleiros do Zodíaco marcou uma geração e é uma grande pedida para todos aqueles que gostam de um mangá com um universo rico e personagens que conseguem cativar. Apesar de caro, o Kanzenban da editora JBC cumpre tudo o que promete: edição muito boa, revisão excelente, várias páginas coloridas, pôster em todas as edições ímpares e capas originais da Shonen Jump em todas as edições pares. Para agradar ainda mais, as edições vem com extras como montagem das armaduras. Realmente uma edição de luxo!

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/09/cavaleiros-do-zodiaco-kazenbam-jbc-6.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/09/cavaleiros-do-zodiaco-kazenbam-jbc-6-150x150.jpgMatheus ZucaartigosCavaleiros do Zodíaco,CDZ,JBC,Kanzenban,Masami Kurumada,Saint SeiyaFacebook Twitter Instagram Youtube Não escondo de ninguém o amor que tenho por Cavaleiros do Zodíaco. Acompanhei o anime no fim da TV Manchete e depois segui assistindo constantemente até o fim da Saga de Hades. Paixão da minha infância, da minha...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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