Representatividade é uma palavra bonita e toda empresa que produz conteúdo de entretenimento está aderindo. É o novo “sustentabilidade”. Porém, a realidade é que muitas vezes a representatividade aplicada de maneira correta. Claro que há casos positivos a serem destacados, como Overwatch, jogo FPS (First Person Shooter) desenvolvido pela Blizzard Entertainment.

Mas afinal, o que é representatividade?

“Qualidade de representativo”. Essa é a definição do dicionário. Buscando mais a fundo, representar significa “ser a imagem, o símbolo”. Então, a tal representatividade é isso. Ser uma imagem de algo, ou alguém.

Ah, mas qualquer coisa é imagem de algo. Então tudo é representativo?

Tecnicamente sim. Mas deixo aqui uma questão. Quantas super-heroínas vocês conhecem que não são versões femininas de um super-herói?

Uma dica: os X-Men! E é verdade. A maioria dos X-Men são únicos, não tem a versão masculina e feminina (como Capitão Marvel/Capitã Marvel, Homem-Aranha/Mulher-Aranha e etc.).

De fato, os mutantes na Marvel Comics começaram como uma desculpa para que os autores pudessem criar personagens superpoderosos sem precisar pensar na história de origem, apenas dizendo que eles nasceram assim, mas depois de pouco tempo, suas histórias se tornaram alegorias ao preconceito, ao ódio, à intolerância e a resistência. Caso não concorde, assista X-Men 2 ou X-Men: O Confronto Final, ou então leia “Deus Ama, O Homem Mata” com esse novo ponto de vista.

Agora, olhem a imagem ao lado de Kristen Wiig cumprimentando a jovem mocinha.

Olhem o sorriso dessa criança ao ver uma das caça-fantasmas. Não seria a mesma coisa se fosse um homem ali. E sim, inconscientemente, ela liga. Ela se importa. E ela se sente melhor vendo alguém que seja mais próximo dela.

E é por isso que a representatividade importa. Porque faz com que a imersão seja ainda maior.

Parece algo tão fácil. Por que erram tanto na mão?

Essa é uma resposta simples. Pessoas erram na hora de escrever personagens representativos porque fazem com que tudo gire ao redor daquilo. O segredo é a dosagem.

Uma personagem não come cereal no café da manhã por ser mulher. Um personagem não joga basquete por ser negro. Um personagem não é DJ de uma boate por ser trans. Estão conseguindo entender o problema? Parte das mídias que tentam mostrar a representatividade limitam as características da pessoa apenas à minoria na qual ela faz parte.

Limitar personagens apenas a minoria a qual eles pertencem só faz com que a representatividade seja algo malvisto. Dois exemplos muito bons de personalidades muito distintas que funcionam: Meia-noite e Wiccano. Os personagens homossexuais que tem personalidades muito diferentes e que não são mais ou menos representativos por causa disso.

Overwatch e a representatividade

overwatch

A Blizzard deu uma aula de representatividade e como isso é simples em Overwatch. Vamos começar olhando o panorama geral de personagens (imagem acima). Olhem a variedade de tamanho, altura, peso, etnia, gênero e até mesmo raças que Overwatch trouxe. Cada personagem é único a sua maneira, fugindo de estereótipos enquanto não força nenhum tipo de corpo. Tudo é natural.

Na questão corporal, a variedade é gigantesca. Do mesmo jeito que temos personagens sexys, temos personagens que não se preocupam com questões estéticas. Quer jogar com alguém que tenha o corpo padrão? Tem. Quer jogar com uma fisiculturista? Tem. Quer jogar com alguém mais gordinho? Tem. Quer jogar com robôs? Tem. Quer jogar com uma idosa caolha sniper que é suporte? Tem!

Isso, inclusive, gerou uma polêmica gigantesca. A produtora teve um grande problema com uma imagem de Tracer. A personagem foi divulgada em uma pose que não tinha nada a ver com a personalidade dela. A clássica posição da personagem feminina de costas empinando a bunda para câmera.

A Blizzard teve que trocar a pose (sem perder a sensualidade da personagem), mas agora condizendo com ela e pediu desculpas pelo mal-entendido.

Além disso, todas as personagens têm a sua personalidade. Há as que usam de sua sensualidade, as que querem parecer legais, as que só querem ver o circo pegando fogo e as que lutam pela liberdade.

Fora toda essa diversidade natural, um dos pontos que mais destacamos é a personagem Symmetra.

Overwatch tem uma história gigantesca e com muita coisa a ser contada ainda. Como é um jogo de tiro em equipes, a trama do jogo é contada em curtas animados, quadrinhos e diálogos antes da partida começar.

Em um desses quadrinhos, a personagem Symmetra diz “Todos dizem. Me perguntando onde me encaixo no espectro”, em uma referência ao Espectro Autista. Isto é importante de se mostrar, afinal, existe um tabu gigantesco ao falarmos de autismo, e muitas vezes faz com que a palavra “autista” vire até mesmo um xingamento.

Mas a personagem é genial por outra coisa. Começando por uma premissa simples: estudos mostram que a cor favorita de pessoas com autismo é azul, cor da roupa padrão da Symmetra. E cada ataque conta um pouco sobre sua condição.

Em Overwatch, cada personagem tem seu ataque primário e dois ataques secundários. O ataque principal de Symmetra é um projetor de fótons que persegue inimigos próximos, mesmo que eles não estejam no campo de visão dela. Ou seja, se um inimigo estiver próximo, mas ao lado dela, o ataque acerta.

Os dois ataques secundários são escudo que vão em direção a um lugar e depois quebram e também criar sentinelas e instalá-las em locais estratégicos para atacar quem passar por elas. Só que, uma das principais características autistas é a deficiência social, ou seja, o fato de que autistas não conseguem manter vínculos com pessoas tão facilmente quanto uma pessoa que não faz parte do espectro.

Deu para perceber como da personagem consegue demonstrar sua condição? Essa foi uma jogada incrível, ainda mais em um jogo de tiro, que, aparentemente não conseguiria mostrar nada.

Claro que pode ser só uma teoria, mas dá pra fazer essa ligação tranquilamente. De acordo com a história do jogo, ela conseguiu esses projetores de fótons na empresa onde trabalha, que preza a ordem lógica acima de tudo, característica também das pessoas no espectro autista.

Enquanto isso, a Blizzard continua dando um show de representatividade. Depois de mostrar de maneira natural uma personagem lésbica, a produtora agora apresenta em um quadrinho um personagem de gênero neutro, Lynx Seventeen. E mais uma vez causando confusão para as pessoas que dizem que é um robô e não tem gênero, mas se esquecem que Zenyatta e Orisa são, respectivamente, um robô macho e uma robô fêmea.

Escrever sobre alguém que pertence a uma minoria não é um trabalho difícil. O problema de qualquer editora ou produtora não é a representatividade, e sim, historias que são mal escritas.

A Blizzard em Overwatch consegue respeitar isso tudo e toda a comunidade de fãs enquanto cria um jogo incrível com um público que só aumenta. Não é a toa que o game já passou a marca de 35 milhões de jogadores cadastrados.

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/10/overwatch.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2017/10/overwatch-150x150.jpgMatheus ZucaartigosBlizzard,Overwatch,representatividade,Symmetra,TracerRepresentatividade é uma palavra bonita e toda empresa que produz conteúdo de entretenimento está aderindo. É o novo “sustentabilidade”. Porém, a realidade é que muitas vezes a representatividade aplicada de maneira correta. Claro que há casos positivos a serem destacados, como Overwatch, jogo FPS (First Person...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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