Em tempos em que se discute maior representatividade feminina nas mídias, Júlia Kendall marca seu lugar como uma das melhores personagens femininas dos quadrinhos

Ainda são poucos os quadrinhos protagonizados por mulheres que podemos encontrar regularmente nas bancas. Mas uma personagem se faz presente desde 2004, com aventuras brilhantemente escritas e personagens que poderiam fazer parte dos melhores filmes policiais que Hollywood já produziu.

Ela é Júlia Kendall, uma criminóloga criada por Giancarlo Berardi, um dos maiores roteiristas italianos e publicada originalmente pela Sergio Bonelli Editore desde 1998 e no Brasil desde 2004 pela Mythos Editora.

Quem é a Júlia Kendall?

Júlia é uma personagem que não possui nenhum super poder ou habilidade especial. Ela é, na verdade, uma mulher comum, que desenvolveu sua capacidade como criminóloga através dos estudos e experiências que teve desde os tempos de faculdade.

Se você não está acostumado a passar pela banca e conferir os quadrinhos da Bonelli, como Tex e Zagor, é provável que não tenha conhecido “J.Kendall – Aventuras de uma Criminóloga”. Em meio às aventuras no velho oeste e na floresta de Darkwood, está um cenário completamente diferente: Garden City, uma cidade fictícia que fica no estado de Nova Jersey, lar de Júlia, que alterna as aulas do curso de criminologia na universidade da cidade com a consultoria à polícia local.

A cada edição, acompanhamos Júlia na investigação de novos casos. Assassinatos em série, sequestros, assaltos, tudo isso acontece na, aparentemente, bucólica cidade.

Faces conhecidas

Assim que você bate o olho na personagem pode pensar: “Eu conheço esse rosto de algum lugar”. E isso não é impressão, a fisionomia de Júlia foi inspirada em uma das maiores atrizes da história do cinema, Audrey Hepburn (de filmes como, o clássico, Bonequinha de Luxo).

Além da protagonista, outros personagens possuem semelhanças com atores hollywoodianos, como a sua amiga / empregada / governanta Emily Jones que lembra a atriz Whoopy Goldberg, o sargento Ben Irving que tem traços que se assemelham a John Goodman e o tenente Alan Webb, um tipo de John Malkovich da polícia local.

Essa familiaridade com alguns rostos é um dos fatores que torna a leitura ainda mais prazerosa, pois, em vários momentos, parece que estamos acompanhando um filme ou seriado policial. Esse aspecto fica ainda mais evidente graças à narrativa das histórias, que não se resumem apenas a um novo caso ou um novo criminoso terrível.

Cada caso é um caso

A cada edição vamos conhecendo mais sobre a vida de Júlia, os recordatórios são anotações de seu diário e, assim, muito das emoções e anseios da criminóloga são revelados ao longo do desenvolvimento das investigações.

O roteiro de Berardi não se limita a mostrar os fatos de uma perspectiva de certo e errado, ao longo das investigações Júlia tenta se colocar no lugar dos criminosos utilizando seus conhecimentos da psicologia humana e assim compreender, e não justificar, os motivos que levariam ao crime. Não à toa Júlia é definida pelo próprio criador como uma “Investigadora da Alma”.

Quem é Giancarlo Berardi?

Berardi, é um dos maiores nomes dos quadrinhos italianos e, além da criminóloga, criou junto com Ivo Milazzo um dos grandes personagens do faroeste italiano: Ken Parker, em 1974.

Para escrever as histórias de Júlia, Berardi se aprofundou nos estudos sobre criminologia. Ele frequentou cursos sobre o tema, leu muitos livros teóricos e fictícios, além de fazer cursos de análise comportamental e assistir filmes e documentários sobre o assunto.

Tudo isso fica evidente ao ler as edições. Tanto nas aulas da universidade em que Júlia leciona, quanto ao longo dos casos, Berardi faz citações, utiliza teorias e faz referências à psicologia e psicanálise, além de mostrar a capacidade de Júlia de interpretar fatos e motivações para desvendar os crimes.

Início da publicação e o “quase” cancelamento

A primeira edição saiu em outubro de 1998 na Itália e chegou ao Brasil pela Mythos Editora em novembro de 2004, com o título “Júlia – Aventuras de uma Criminóloga”, mas o título teve que ser mudado para “J.Kendall – Aventuras de uma Criminóloga”, por conta da publicação de romances de bolso que levava o nome “Julia”, da editora Nova Cultural.

A série chegou a ter seu cancelamento cogitado por baixas vendas em 2010, mas por conta dos pedidos dos fãs e campanhas feitas pela permanência do título da personagem (você pode conferir o texto Salve Júlia Kendall, publicado em agosto de 2010 aqui mesmo no Impulso HQ), a série continua sendo publicada até hoje, agora de forma bimestral e com duas aventuras por edição.

No mesmo ano em que foi cogitado seu cancelamento, a HQ foi vencedora do Troféu HQ Mix, na categoria Publicação de aventura/terror/ficção.

Um fato curioso sobre os leitores de Júlia, de acordo com Júlio Schneider, tradutor do título e consultor da Mythos Editora e do Portal TexBR, é que o público que acompanha o título é pequeno, mas muito fiel, incluindo pessoas que não são leitores assíduos de quadrinhos e que, em muitos casos, consomem apenas esse título, o que pode ser constatado ao ler algumas das seções “Os diários de Júlia”, um tipo de “seção de cartas” da edição.

O que torna Júlia diferente de outras personagens femininas?

Como dito no início, Júlia não possui nenhum super poder ou capacidade extraordinária, não é mestre em artes marciais e também não se encaixa no estereótipo mulher fatal, que utiliza a sedução e sua beleza para resolver os casos. Ela é uma mulher comum, por volta dos 35 anos, independente e bem sucedida em seu trabalho.

A delicadeza de seus traços e a aparente fragilidade contrastam com a sua personalidade forte. Júlia vive cercada de casos de violência e brutalidade, e sua inteligência e perspicácia fazem com que a polícia de Garden City recorra aos seus conhecimentos. Nesses casos Júlia entra, sem se intimidar, em um mundo majoritariamente masculino para auxiliar nos casos mais complexos.

Nos relacionamentos amorosos de Júlia, Berardi poderia cair em conceitos batidos, mas ao longo das edições o autor mostra a personagem se questionando constantemente sobre formar uma família, encontrar o amor e uma companhia. Seus diários mostram muitas vezes o contraponto entre a carreira que ama e a possibilidade de felicidade na vida familiar, dando mais profundidade à personagem.

O aborto fora das HQs e a adoção à distância

Por volta da edição nº 100 na Itália, foi anunciado por um jornal que Júlia iria engravidar, algo que seria um choque para os personagens bonellianos, que tendem a permanecer quase imutáveis ao longo dos anos.

Berardi deu uma entrevista na época dizendo que achava importante que houvesse desenvolvimento para os personagens e que por diversas vezes Júlia se questionou sobre a maternidade. Como o autor trabalha com bastante antecedência suas histórias, ele afirmou que já havia planejado nove aventuras, uma para cada mês da gravidez.

Mas em outubro de 2007, numa edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) em Belo Horizonte, ao ser questionado sobre a gravidez de Júlia, Berardi afirmou que a editora não concordou com a ideia, pois um bebê traria mudanças muito grandes na vida da personagem. Um caso de aborto que a personagem viveu fora das páginas da HQ.

Mas na edição nº 120, Berardi deu um jeito de expor o lado maternal de Júlia e ainda divulgar a adoção à distância, em que se contribui com uma instituição para o auxílio de crianças ao redor do mundo. Na edição, Júlia adota o jovem africano Abebe M’Bida, com quem se corresponde e acompanha seu crescimento.

20 anos de publicação

Em 2018 a personagem completa 20 anos e a Sergio Bonelli Editore já anunciou que personagens marcantes que passaram por suas histórias irão retornar ao longo do ano, como Tim, o ladrão de cavalheiros, o lendário Seven, o detetive Leo Baxter, além de uma aventura com o personagem Ettore Cambiaso, um policial italiano por quem Júlia é apaixonada e tem um difícil relacionamento à distância, que surgiu na edição italiana nº174.

As aventuras da criminóloga estão entre as leituras mais interessantes que você pode encontrar. Em tempos em que se discute tanto a maior representatividade em todas as mídias, Júlia já marca seu lugar como uma das melhores personagens femininas dos quadrinhos, com roteiros muito inteligentes, personagens cativantes e uma protagonista excelente.

Nos vemos em Garden City!

http://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/03/Júlia-Kendall-1.jpghttp://impulsohq.com/wp-content/uploads/2018/03/Júlia-Kendall-1-150x150.jpgPedro FariaartigosAudrey Hepburn,Giancarlo Berardi,Júlia Kendall,Mythos,Sérgio Bonelli,Whoopy GoldbergEm tempos em que se discute maior representatividade feminina nas mídias, Júlia Kendall marca seu lugar como uma das melhores personagens femininas dos quadrinhos Ainda são poucos os quadrinhos protagonizados por mulheres que podemos encontrar regularmente nas bancas. Mas uma personagem se faz presente desde 2004, com aventuras brilhantemente escritas...O Impulso HQ é um site e canal no YouTube dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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