Por William Robsons*

De uns tempos pra cá me dei conta de que não tenho aumentado meu acervo de livros, quadrinhos, filmes, séries, DVDs, animes, mangás, pôsteres, figuras de ação, camisetas e demais acessórios que praticamente definem minha identidade no meio com o qual convivo.

Apesar de já ter caído à ficha de que estou vivendo uma vida mais adulta, isto não significa que deixei de gostar das coisas que sempre despertaram o meu crescente interesse desde a mais tenra infância.

O que acontece é que o escasso material de qualidade voltado para a cultura nerd comercializado aqui no Brasil encontra-se com os preços nas alturas, inviabilizando o surgimento de novos fãs, leitores, colecionadores, jogadores e mestres de RPG; além de afastar os veteranos que cresceram, constituíram famílias e têm outras prioridades para os seus salários que vêm antes de seus hobbies.

Sempre li quadrinhos usados, comprados na feira ou então emprestados por amigos que compartilhavam do mesmo tipo de lazer. Ao começar a trabalhar tive a sorte de pegar o boom dos anos 90 onde havia uma gama de lançamentos mensais acompanhados por preços bem mais acessíveis que os atuais. Era possível acompanhar sagas inteiras numa época que a internet ainda não estava ao alcance de todos.

Os preços de capa chegavam a valer centavos, proporcionando a aquisição de todos os títulos em banca. Livros de RPG e romances eram encontrados com facilidade em livrarias que não precisavam ser especializadas nos assunto e as editoras utilizavam capa mole e impressão interna em preto e branco para baratear ainda mais os custos permitindo que eu tivesse em minha coleção títulos de GURPS, Daemon, Aventuras Fantásticas, Storyteller e me sobravam uns trocados para cards e camisetas com estampas de super-heróis e outros ícones pop da cultura nerd como Arquivo X e Star Trek.

Hoje, muitos dos pontos onde eu conseguia isso tudo fecharam suas portas devido a uma queda no movimento causado não só pela crise econômica que sempre assombrou nosso país, mas também graças aos valores elevados de sagas encadernadas de quadrinhos como Batman – silêncio e livros de RPG com capa dura, papel especial e arte interna colorida só pra ficar bonitinho na estante. Os dados são caros para que grupos iniciantes possam criar raízes.

Não digo que apenas uma pequena elite freqüente encontros e eventos munidos das últimas novidades, porém fica claro que só quem for pertencente da classe média terá recursos para ir ao cinema varias vezes por mês, comprar os Box em DVD das temporadas de suas séries e animes favoritos, manter seus decks e boosters atualizados para qualquer torneio com as mais recentes edições e decorar seus lares com estatuetas de resina e miniaturas que representam o mundo do entretenimento.

Isso sem falar naqueles que recorrem aos downloads, scans e outros meios para não ficar totalmente por fora do que acontece no nicho nerd.

É triste viu.

Qual seria a sugestão que viabilizasse a reversão deste quadro? Baixar os preços? Diminuir a qualidade para reduzir custos? Produzir material em duas versões, sendo uma de luxo de menor tiragem para livrarias especializadas e outra mais em conta para distribuição em banca? Investir nas novas editoras e nos novos autores?

Não sabemos qual das às alternativas acima daria certo, contudo acredito que a resposta está na possibilidade daqueles que publicam, importam, traduzem, editam, comercializam e mantêm o mercado nerd aquecido não se esquecerem de ouvir sempre o que nós consumidores temos a dizer sobre um produto, um lançamento, nossas preferências e, principalmente, capacidade e tempo para absorver o que chega às prateleiras.

Quem foi que disse que é fácil ser fã de algo Cult numa sociedade de consumo onde o lucro de alguns está acima da paixão dos demais? Pensem, reflitam e se manifestem e talvez assim as coisas melhorem um pouco.

* William Robsons é carioca de 37 anos, um nerd da “old school” que procura sempre se adaptar aos novos tempos. É mestre de RPG e mora no bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, numa casa apelidada “Fortaleza da Multidão”, pois vive lotada de nerds de todas as idades discutindo HQs e mangás, vendo filmes, animes e séries ou jogando o bom e velho PlayStation 2 ou mesmo jogos de tabuleiro tipo War.

Coleciona cards e já se aventurou algumas vezes tentando fazer sozinho um site ou blog de entretenimento nerd, mas só conseguiu se estabelecer como redator de cinema e rpg (e depois freelance sobre todos os generos) há aproximadamente uns dois anos quando achou o equilíbrio entre suas paixões nerds e sua “identidade secreta” conhecida por todos como professor de informática onde transpõe seus assuntos favoritos em atividades práticas na sala de aula mostrando que o avanço da tecnologia e a ficção cientifica caminham de mãos dadas.

Ilustrações: Alexandre Manoel

Alexandre Manoelartigoscard,games,nerd,RPGPor William Robsons* De uns tempos pra cá me dei conta de que não tenho aumentado meu acervo de livros, quadrinhos, filmes, séries, DVDs, animes, mangás, pôsteres, figuras de ação, camisetas e demais acessórios que praticamente definem minha identidade no meio com o qual convivo. Apesar de já ter caído à...O Impulso HQ é um site dedicado à cultura geek e traz, diariamente, novidades sobre quadrinhos, cinema e games, além de conteúdo em vídeo. Somos nerds a serviço do seu entretenimento. Bem-vindo!
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