Yeshuah – assim em cima assim embaixo: assim nos quadrinhos, assim na mente cósmica!

No ano de 2009 houve um lançamento na área dos quadrinhos autorais que se compara a um marco no Brasil: Yeshuah – assim em cima assim embaixo (fig. 1) de Laudo Ferreira (roteiro e arte) e Omar Viñole (arte-final).

Não é uma mera obra de ficção, nem de cunho religioso, ou de afronta ao cristianismo. É uma obra de autoria pessoal, de pesquisa meticulosa, de imposição pessoal, derivativa da máxima de Sócrates “homem, conhece-te a ti mesmo”, que Laudo impõe a si mesmo.

Nisso, compartilha com os outros sua porção pessoal do tema: a vida de Jesus Cristo.

Mas qual a relação dessa questão com a busca do auto-conhecimento? A maioria dos homens que trouxe à baila a busca da questão existencialista enfatizou que devíamos conhecer a nós mesmos para que pudéssemos continuar a singrar nesse caminho humano. Buscar a si mesmo implica em se aventurar nas profundezas de nossa própria psique, e isso pode ser feito principalmente na realização de trabalhos artísticos (ou científicos).

Explico-me: em qualquer uma das modalidades, está premente a aventura de mergulhar na pesquisa, de se inteirar naquilo que se faz, o que de certa forma condiz com o aforismo de Goethe de que aquilo a que aspiramos fazer, se o fizermos com coragem, a genialidade se associará a ele promovendo uma sorte de acontecimentos inesperados que auxiliarão na execução do pretendido, como se ajudados pelo universo.

Figura 2

Laudo legitima esta busca ao explorar de forma pessoal uma investigação sobre a vida de um dos maiores (senão o maior) filósofos e espiritualistas que já caminharam sobre a Terra (junto a Moisés, Buda, Gandhi e mais uns poucos). Essa busca implica na subjetividade a que Laudo submete para apreciar sua visão de Cristo, mas não sem mesclá-la com fontes nos Evangelhos da Bíblia, e mais, nos apócrifos.

Nestes últimos, por mais que a Igreja negue sua validade, há uma força e pungência mais poderosas do que o que se encontra muitas vezes no Novo Testamento.

Em minha própria busca por conhecer a espiritualidade, cheguei a ler vários livros do filósofo e educador Huberto Rohden, que também foi fonte de pesquisa para Laudo. Este autor falecido na década de 1980 tentava explicar as metáforas bíblicas para que o complexo humano deixasse a infância do desconhecimento para singrar na adolescência e quiçá maturidade espiritual, tal qual a máxima a que aludi no começo atribuída àquele filósofo grego que preferiu tomar a cicuta do que negar seus ideários conscienciosos.

Quanto a Rohden, a Igreja não estava de acordo com seus libelos e o fez com que se afastasse. Não sem antes de deixar e continuar um legado enorme de livros acessíveis em que, de forma didática, explicava como o mundo e as vias espirituais funcionam, através de metáforas com a matemática, tendo conhecido Einstein, inclusive.

Figura 3

Podemos comparar Rohden, como a versão mais recente brasileira do padre francês científico Teilhard de Chardin (há ainda o italiano radicado no Brasil Pietro Ubaldi, cuja obra pode ser encontrada na Internet, e o educador brasileiro contemporâneo Ruy Cezar do Espírito Santo). Estes quatro têm similaridades em suas verves educativo-espirituais.

Mas foi num dos livros de Huberto Rohden que descobri os apócrifos e uma das frases atribuídas a Cristo que, feliz, reencontrei também no trabalho de Laudo (á pagina 134 de seu álbum):

Quem procura, não deve parar até encontrar. E, quando encontrar ficará estupefato, e quando estupefato, ficará maravilhado. E então terá domínio sobre todas as coisas (ou ‘domínio sobre o Universo’, na versão de Rohden).

Figura 4

Foi quando encontrei essa magnífica assertiva na seqüência de páginas de Yeshuah (fig. 2) que vi quão a fundo foi esse autor de HQ nacional nas buscas para a elaboração de seu álbum: a começar pelos nomes de pessoas e lugares mantidos no original (com glossário ao final), além de um texto introdutório riquíssimo e perfeito para o trabalho, da pesquisadora Júlia Bárány Yaari, que descreve com propriedade acerca dos papiros de Nag Hammadi, bem como os apócrifos e contextualiza a versão histórica desses achados para o mundo religioso e cristão.

Ao fim do álbum, a bibliografia confirma as bases de Laudo, que tal qual Alan Moore o fez em sua obra “Do Inferno” mostra como uma obra artística se iguala a um trabalho cartesiano acadêmico: só que os de Moore e Laudo trazem os desenhos aliados ao texto. E que desenhos!

A capacidade criativa na elaboração dos personagens calcados na fisionomia dos semitas, os trajes, a arquitetura e geografia…está tudo lá em Yeshuah, além de uma caricaturização mais próxima do real, com um relevo no preto que destaca a força imagética da arte (figs. 3 a 5): lembro assim que os desenhos alimentam nosso hemisfério direito (criativo, intuitivo), enquanto que a seqüência linear e os textos fonéticos nos ativam o esquerdo racional do cérebro.

Figura 5

Isso nos faz imaginar realmente que estamos nos eventos que se sucedem no álbum…a influência da arte de Laudo, é claramente em alguns momentos da diagramação poética, baseada em Will Eisner (fig. 6), mas tendo seu diferencial, porque Laudo não é amador, mas sim profissional com estilo próprio.

Aliás, eu conheço sua arte desde a década de 1980 quando publicávamos ambos, através da coeditoria de Edgard Guimarães em seu IQI – Informativo de quadrinhos Independentes (atual QI), nos fanzines…ou seja, Laudo foi mais um que fez carreira e experimentações na área ampla e irrestrita do rico universo dos fanzines nacionais (fig. 7). Pois naquela época ninguém imaginaria poder publicar uma obra como essa de agora.

E passaram-se mais de 2 décadas para que seu intento se realizasse. A fé de Laudo tem mesmo a ver com o tema de seu álbum! O que comprova que uma obra de arte como esta é realmente atemporal. O autor já alertou que finaliza a segunda parte (vindo a seguir a terceira), numa trilogia que, quase certo, será uma das melhores obras em conjunto da HQ Brasileira de todos os tempos!

Figura 6

E que isso não iniba ninguém, pois que continue a abrir portas para que os autores brasileiros sejam finalmente reconhecidos em seus trabalhos, como esse Yeshuah, e que expandam os limites e estilos (como o gênero Fantasia-Filosófica, do qual eu e Edgar Franco, além de outros, compartilhamos).

Yeshuah não é para simples deleite ou entretenimento. Isto também é possível em sua leitura. Porém, creio que Laudo quis passar algo mais para nossas mentes hemisferiais direitas (aquela da intuição/criatividade). Ele quis que sentíssemos como seria presenciar a vida de Yeshuah naqueles tempos iniciais da marcha consciencial humana…e conseguiu! Aliado a isso, trouxe também uma mensagem simples: expandam suas mentes e (re)criem junto!

Figura 7

A vida de Cristo não foi apenas uma passagem, mas sim uma mudança paradigmática para aquela época. E que repercute até hoje. E isto a obra explora e mostra!

O mais interessante desse trabalho autoral de Laudo, é que ele não apologiza a igreja e nem a religião, mas simplesmente destaca a vida de um homem consciente que andou na Terra…mas que, como se vê nos quadrinhos, aprendeu com outros povos, inclusive com orientais, a desenvolver seu potencial mental…potencial esse em que o filho de Deus teimava em repetir a todos que poderíamos fazer igual…e não é que Laudo, à sua maneira, o fez, e agora nos repassa?

Gazy Andraus; São Vicente, fevereiro/maio de 2010.

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