Pense em todos os dias…

Pense no que mais é importante para você se manter vivo…

Pense que em primeira instância é o alimento, que traz ao seu organismo vitalidade e energia, renovando-o e deixando você apto a continuar vivendo e realizando seus afazeres em prol a realizar seus desígnios que, em teoria, estariam aliados a uma sempre melhora da vida em geral, seja lá o que for isso, já que a entropia teima em nos levar a um “caos” (a entropia é a segunda lei da termodinâmica, e realiza o “equilíbrio” entre as energias no universo inteiro: quanto mais energia é disponibilizada, mais ela tende a se tornar indisponível, equilibrando tudo, a se culminar em algo que pode ser chamado de “morte térmica”.

Por exemplo: o sol fornece-nos energia, mas ele está se consumindo. Quanto mais a energia solar é utilizada, mais ela vai trocando de energia de utilizável para não utilizável, até que um dia não mais haja nenhum resquício de energia a ser cambiada e tudo cessa).

Mas vamos retornar a algo mais próximo, já que, a que ocorra a morte do nosso sol, um tempo astronômico terá que passar.

Pense então mais um pouco e tente se lembrar quais os alimentos que você consome…agora reflita e tente descobrir como você os consegue: a maioria (senão todos) você adquire através dos mercados, padarias e feiras.

A maior parte dos alimentos já vêm prontos (ou quase) para consumo, exceto as frutas e vegetais em seu estado cru.

E agora se pergunte: se a indústria os preparou, quem os plantou, pescou ou os criou?

Você na cidade teve alguma participação nisso, exceto o fato de comprar? E ainda: da grande maioria desses alimentos que você pensa serem necessários à sua manutenção, cite algum que tem incorporado o açúcar.

Isso mesmo: a maioria: pães, doces, sucos, biscoitos etc. Embora o açúcar de beterraba tenha sido usado (e ainda o é em menor escala), nem se compara ao domínio que a cana tem no mundo.

Vá ao supermercado e verifique, ao comprar, quantos dos produtos que você adquire têm açúcar…aliás, verifique quantos não têm, pois será mais fácil a contagem! Até mesmo o combustível à álcool deriva do açúcar, ou melhor da cana-de-açúcar.

Mas quem cultiva os canaviais e colhe seus frutos?

O povo da roça. Eles são empregados pelas usinas açucareiras, uma das maiores potências existentes, que fabricam o álcool, os açúcares e melados, e que poderiam muito bem condizer a seu status pagando coerentemente estes “funcionários” humildes.

Mas saiba que estes trabalhadores rurais (homens e mulheres e até crianças) trabalham num regime semi-escravagista, não tendo direitos como os funcionários de carteira assinada e com fundo de garantia além de outros direitos a que teriam .

Os trabalhadores canavieiros são, de todos, os que podem ser colocados como os mais injustiçados de nosso sistema capitalista hediondo.

Nós que aqui vivemos nas cidades de zonas urbanas, lidamos com nossas questões, e justificamos nossos problemas dia após dia, absortos num inferno vivencial que nos acostumamos a chamar de vida, subsistindo e nos regozijando em certos momentos, principalmente através dos alimentos adquiridos, em grande instância, industrializados. Nunca nos damos conta de que, para que tenhamos estes alimentos, outras pessoas se desgastam nos campos rurais cultivando a forma básica principal de nosso consumo.

Deparamo-nos de vez em quando com os problemas dos sem-terra, mas não agüentamos o enfoque por muito tempo, e deixamos a questão a que o governo resolva.

Mas nos afastamos da natura; criamos a propriedade privada, num sistema capitalista, no qual, asseguradamente (no mínimo) 80% da população luta para subsistir e tenta se manter numa posição razoável, e uns 20% têm melhores padrões de vida, sendo que menos ainda destes últimos regem nossas economias (em outras palavras: poucos comandam a vida de muitos).

Até aí nenhuma novidade, e não é o intento deste texto mostrar novidade, e sim, nos lembrar que injustiçamos cada “escravo” que cultiva a cana, sempre que nos utilizamos de algum produto que traga algum derivado da cana-de-açúcar.

Aqueles trabalhadores têm uma alimentação fraca, seus rostos marcados e envelhecidos pelo desgaste à exposição diária à luz solar, e ao fim de seus trabalhos, ainda tentam manter uma dignidade a seus familiares (principalmente as mulheres que trabalham para dar estudos a seus filhos).

Mas com o sofrimento físico desta labuta, eles não poderiam tardar a encerrar sua profissão. No entanto, não param quando as dores aumentam em potência e constância, já que, se assim fizerem, não irão contar com recebimento de mais dinheiro algum, visto que não têm registros (em suma, aumentam a entropia de suas vidas, acelerando a vinda da morte).

A posição deles é talvez, só um pouco melhor do que os peões que trabalham para alguns fazendeiros, escravizando-os com dívidas que os trabalhadores não conseguem pagar, tornando-se assim reféns dos “poderosos”, podendo ser assassinados caso tentem “fugir” – no nordeste isso é comum, enquanto que no Estado de São Paulo os trabalhadores de canaviais, atrelados às usinas têm um emprego, em termos, não escravista, pelo menos.

Excetuando-se esse caso, os trabalhadores não recebem um “tostão” já que adquiriram dívidas (sic!) com seus patrões, já que estes cobram as vestimentas e alimentos superfaturados dos peões, enganando-os, e privando-os dos salários, que lhes são descontados e ainda “insuficientes” para pagar as dívidas. Estes absurdos ainda ocorrem no Brasil, e há algum tempo “libertaram” alguns escravos de um fazendeiro, que era político e parente do P. C. Farias (vez ou outra casos similares aparecem no jornalismo). Há também, para lembrarmos, os indigentes sem abrigo e alimentação, que vivem nas ruas das
cidades como cães vira-latas.

Existe um mestrado na área de psicologia da USP, que mostra a “invisibilidade” dos garis que limpam as ruas da cidade universitária. Segundo a pesquisa (o autor dela atuou como gari junto aos funcionários, durante um considerável tempo, a fim de experimentar a posição deles), os trabalhadores deixam de ser reconhecidos como seres humanos, e os transeuntes ao passarem por eles ignoram-nos, pois os vêem como um objeto que faz parte do todo, como se fossem invisíveis ou parte não importante do todo.

Dessa forma os próprios garis se tornam intimidados e suas posturas cabisbaixas, não afirmando suas personalidades (talvez os uniformes tenham a ver com isso), apesar de exultarem caso sejam inadvertidamente cumprimentados (fato raro de acontecer). Eles reclamam que sentem carência, e que ficariam contentes apenas com um “olá” ou “bom-dia”.

Tal pesquisa apenas apontou o descaso que fazemos e temos para com os outros em nossas sociedades. Mas se agimos assim com os que convivem conosco, como vamos nos lembrar daqueles que realizam um trabalho importantíssimo, como os plantadores e ceifadores de cana, e que distam de nossa percepção?

O mais admirador nisso tudo é a falta de atenção por parte dos políticos que não agem para tornar, pelo menos, oficial esta profissão, exigindo registros dos funcionários por parte das empresas usineiras de cana e álcool. Há quantos anos já não existe esse descaso?

Eu, você, qualquer um, nos alimentamos diariamente, e consumimos muitos alimentos que têm adicionados açúcares derivados da cana (e os excessos são prejudiciais à nossa saúde).

Quantas vezes nos demos conta desse absurdo, de os que nos permitiram trazer à existência tal produto adoçante, em sua instância como matéria-prima, são tratados quase como escravos pelas indústrias?

Não estamos muito distantes da época em que os escravos trabalhavam para os senhores dos engenhos…aliás, com uma melhor percepção de nossa parte, concluímos que, praticamente quase nada mudou.

Não há evolução, nem ordem e nem progresso. Aliás, estes dois últimos conceitos são contrários à segunda lei da termodinâmica.

Mesmo assim, algo me impele a tentar fazer algo.

No momento, não mais posso do que divulgar isto através deste texto. O que me impulsionou foi um programa de reportagem exibido em abril de 2003 na TV Record, justamente sobre a vida miserável a que são submetidos os trabalhadores rurais dos canaviais no Brasil.

E também me lembrei da HQ “Terra e Plantio” (vide imagens), uma história em quadrinhos que fiz há alguns anos apontando o descaso dos que vivem nas grandes cidades, para com os trabalhadores rurais, que produzem os alimentos consumidos por nós, das cidades, verdadeiros glutões que pensamos ser civilizados e evoluídos, mas que nas surdinas vivemos atrozes batalhas internas, que até aumentam nossa voracidade alimentar.

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