HQ fantástico-filosóficas
Não cabe nesse momento discutir o status artístico das histórias em quadrinhos. Isto tem sido relatado e estudado de diversas maneiras, incluindo em minha própria tese, na qual defendo os quadrinhos como parte do arcabouço artístico da humanidade (Andraus, 2006). Porém, é de se salientar que existem histórias em quadrinhos (HQ) para distintas faixas etárias, de distintos gêneros literários, e também, as mais comerciais, ou estritamente autorais.

O mesmo que ocorre no cinema e na literatura. As HQ que elaboro são mais raras ainda, estando classificadas como poéticas, ou ainda, como fantástico-filosóficas, que têm suas estruturas “compactadas” como um hai-kai, ou cujas mensagens trascendem uma lógica cartesiana simplificada, como se dá com os koans zen-budistas. A elaboração de minhas HQ (como ocorreu por exemplo com a já mencionada “Hesperornis – o pássaro do oeste”), se dá também, quase que exclusivamente, sob uma audição de músicas.

Isso pode ocorrer diferentemente a cada autor, em cada um de seu próprio metiér: na criação artística, por exemplo, de uma HQ, é possível gerir o afazer de maneira similar ao processamento racional de gerenciar um projeto racional. Mas também há a possibilidade de a história em quadrinhos ter sido criada com enfoque mais pendente ao intuitivo e menos racional (os quadrinhos do gênero super-heróis são do primeiro caso, e os poéticos estariam no segundo).

Processos criativos
Teorias sobre o processamento criativo têm surgido, tendo Graham Wallas sido o pioneiro, descrevendo em seu livro The art of thought de 1926, as etapas do processo criativo (Goswami, 2008):

1-Preparação (reunião de fatos e ideias sobre uma questão formulada); 2-Incubação (deixar as idéias fluirem sem se preocupar), 3-Iluminação ou insight (perceber um momento-chave, eureka, um “ah-há!”, como resolução da questão), 4-Verificação ou manifestação (etapa final, para por em prática o achado, avaliando e verificando o desenvolvimento da resposta).

Para tentar discutir um pouco mais a questão do processo criativo, e não encerrar como algo passível de apenas uma resposta ou um modelo, ainda que o de Wallas tenha sido constantemente usado até hoje, exponho aqui um novo aporte trazido pelo físico indiano, Amit Goswami (2008), que abordando a questão da criatividade, discute se ela se atribui a poucas pessoas, ou se é inerente ao ser humano. Além disso, ele atualiza as teorias criativas, ao tecer paralelos do processo criativo com a dinâmica imprevisível da física quântica e os saltos dos elétrons.

O físico situa três parâmetros teóricos sobre a criatividade, quais sejam:
1-A perspectiva material realista e a classe mecanicista de teorias da criatividade;
2-A perspectiva organicista e a classe organicista de teorias da criatividade e
3-A metafísica idealista monista e a classe idealista de teorias da criatividade.

Para a primeira situação, Goswami coloca que:
A mente é uma máquina newtoniana, um epifenômeno do cérebro, completamente determinado por causas locais antecedentes, e sua dinâmica é algorítmica. A continuidade causal é suposta no comportamento humano, limitando o que a criatividade pode representar. Por exemplo, a criatividade não pode ser algo realmente novo, porque todas as coisas atuais são determinadas por coisas que já existiam.

Isto descrito faz lembrar a operacionalidade do cérebro triuno descrito por De Gregori (1995), em que, no caso desta, equivaleria ao hemisfério esquerdo cerebral, como supremacia, já que nesse hemisfério só ocorrem atividades já pré-reconhecidas anteriormente.
Já para a segunda situação, Goswami (2008) descreve que:

Os fenômenos humanos como a criatividade e os fenômenos vinculados aos organismos, em geral, devem abranger mais do que explicações causais e mecanicistas. Eles precisam ter objetivo. Além do impulso de causa antecedente, a criatividade precisa da força do objetivo. Assim, ela é vista em relação ao que é denominado teleologia – causa final.

Nesta segunda, ao que parece, o hemisfério esquerdo conta um pouco mais com a atividade do “obscuro” direito, mas mais da porção central (responsável pela ação pragmática), já que a criatividade aqui se orienta por um objetivo final, uma intenção prática.
E por fim, à terceira opção, ele dá que:

A criatividade é, em sua essência, um fenômeno de consciência (o self) que descontinuamente manifesta possibilidades realmente novas (não manifestadas anteriormente) do domínio transcendente, e não pode ser explicada apenas pela mecânica da matéria. Às vezes, refere-se à criatividade, como o casamento entre o céu e a terra, um casamento que acontece no âmbito de nossa subjetividade. (…)

Assim, na perspectiva idealista, o universo é criativo, porque a consciência é criativa. Há transcendência na criatividade, porque a consciência é transcendente. A evolução do universo que vemos, da matéria para a vida até a autoconsciência, é considerada como a manifestação do objetivo criativo da consciência.

Nesta última, o hemisfério direito (criativo, intuitivo) do cérebro viria com uma parte maior de atividade em primeira instância que o hemisfério esquerdo (racional, lógico e linear).

Longe de esmiuçar as propostas de Goswami (2008), ele descreve que há tentativas de integração das três maneiras – assim como verificou De Gregori (1999) com relação ao funcionamento do cérebro triuno -, mas até agora frustradas, inclusive tendo ocorrido em congressos debates a respeito da questão da criatividade.

Pouco antes dessa visão (teoria) de Goswami, Rohden (1966, 18-19) busca colocar a filosofia da arte como uma visão universal manifestada em ação individual. Para Rohden, o artista é um agente que emprega sua visão (teoria), intuindo, visualizando ou sentindo a presença do Universal-Infinito em todos os individuais-Finitos. Ou seja, o artista se torna capaz de ultrapassar os limites do mero intelecto (ego) e expressar uma realidade ulterior, univérsica. É interessante que se assemelha à concepção de Carl G. Jung, que afirmou:

O Artista não é uma pessoa dotada de livre arbítrio que persegue seus próprios objetivos, mas alguém que permite à Arte realizar seus propósitos através dele. Como ser humano, ele pode ter humores, desejos e metas próprias, mas como Artista ele é “homem” num sentido mais sublime – ele é um homem coletivo – alguém que carrega e molda a vida psíquica inconsciente da humanidade. (apud BELLO: 1998, 189)

Assemelha-se também ao que De Gregori (1999) constatou, quando nos primórdios da civilização, a racionalidade ainda estava dividindo um espaço, menor até, com a intuição universal. Para o pesquisador, os sábios da antiguidade utilizavam muito o hemisfério direito, e por isso “recebiam” informações tidas atualmente como místicas, mas que em realidade seriam informações diretas em que se conectavam como o cosmo, passando pelos seus hemisférios direitos (criativos, intuitivos, não lineares, sistêmicos, enfim), sem que pudessem geri-las racionalmente, como se faz na atualidade, em que o hemisfério esquerdo (racional e linear: fragmentado) tomou um desenvolvimento exacerbado. Mas, mais do que esclarecer, esses aportes teóricos aqui descritos demonstram a fragilidade do conhecimento humano em face de questões ainda complexas e sem muita possibilidade de dedução por insuficientes pesquisas empíricas:

Há a possibilidade de as tomografias computadorizadas trabalharem mais acirradamente a questão, pois na atualidade há novas descobertas em andamento, principalmente ao medirem o pensamento dos religiosos, ou dos praticantes de meditação (muitas vezes confirmando a teoria de De Gregori). Há um outro exemplo interessante na ciência: o físico Richard Feynman, que era conhecimento pelo seu humor e habilidade de abrir cofres (fig. 3), chegou a experimentar pintar quadros para compreender a diferença da experiência artística, tão destoante da científica (fig. 3a).

Fig. 3a: O físico Feynman pintando. Fonte: Scientific American Brasil. Gênios da Ciência: Feynman – a lâmpada da nano. n. 4. São Paulo: Duetto Editorial, p. 77, s/d.

Porém, neste artigo, prefiro atiçar o leitor, a que se aperceba pleno de potencialidade e a que saiba que pode usar sua criatividade, não importa como, e isso dependerá de seu histórico de vida. Mas igualmente, advirto que há realmente um diferencial no cotidiano e no uso de nossas mentes: ao elaborar idéias racionalmente, e escrevê-las em palavras (fonéticas), estarei incorrendo num pensamento em primeira instância extremamente lógico, racional e linear. Já, quando elaboro, por exemplo, desenhos “soltos” (e isso pode ou não requerer certo grau de alfabetismo icônico, ou seja, de aprendizado básico da técnica do desenho), percebo que minha mente traz idéias “rápidas” que se mesclam instantaneamente.

Isso me é muito mais claro ao realizar desenhos que são direcionados por uma idéia principal, criativa, e que vem no mesmo instante que os executo (muitas vezes utilizando palavras junto), mas com base numa audição musical. A propósito: a música parece realmente trabalhar em nossas mente de forma a criar idéias e momentos únicos. Pinker (1998) disse que não há explicação lógica para a utilização da música. Ele a classificou como um coquetel de prazer.

Ora, é bem provável que, justamente, a função da música (como da arte em geral) seja a de manutenção do equilíbrio mental, já que De Gregori (1999) advertiu que o ser humano não tem usado de forma equilibrada as três partes do cérebro (hemisfério esquerdo: racional; direito, criativo e porção central reptiliana, pragmática).

Assim, a música, as artes em geral, e os quadrinhos (como parte integrante das artes) são necessários ao equilíbrio de um ser humano criativo: que tanto os cria, como os absorve como espectadores.

No meu caso, já tendo inclusive percebido que o processo criativo é “quântico”, e já tendo experienciado situações criativas, não só na elaboração artística de desenhos e de histórias em quadrinhos, bem como na elaboração de jogos de palavras (trocadilhos), e até mesmo no esporte – já fui praticante de basquete amador, e pude sentir, em determinados períodos, processamentos incrivelmente rápidos de movimentos, em que meu corpo se ajustava durante um jogo, por exemplo, realizando manobras rápidas, que me traziam sentimentos e sensações criativas e prazerosas. O mesmo ocorre ao desenhar ou escrever um artigo, mas somente quando eu começo a obter uma fluição no desenvolvimento do trabalho (racional ou artístico). Porém, no elaborar artístico, o “pensar” me parece ser muito mais complexo, sistêmico, dinâmico e “misturado” (em que a noção de tempo se perde, como se fosse algo extremamente rápido).

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